Luisa Arraes se prepara para trabalhar com o pai Guel Arraes pela primeira vez: “Aqui não tem essa de ‘domingo não tem trabalho'”

12.10.2020  /  9:00

Com série e peça que têm como cenário sua casa, a atriz Luisa Arraes encontrou na pandemia a oportunidade de fazer projetos de um modo mais simples e, em 2021, será dirigida no cinema pelo pai, Guel Arraes

por Nina Rahe fotos Jorge Bispo 

E m uma conversa com Luisa Arraes, a impressão é que a atriz investe em sua carreira com a mesma velocidade que fala. Ainda que a pandemia tenha interrompido o início das gravações de seu próximo filme, Grande Sertão: Veredas, a trégua nas filmagens foi somente o pontapé para o início de outro projeto. De um encontro virtual com o diretor Jorge Furtado e o ator Caio Blat, seu namorado, surgiu o desenho da série Amor e Sorte, que se desdobrou em quatro episódios com pares como Taís Araújo e Lázaro Ramos e Fabiula Nascimento e Emilio Dantas. Nesse projeto, no qual Luisa e Caio vivem um casal quarentenado que descobre o amor pelo cinema, os dois não só escreveram o roteiro ao lado de Furtado, como participaram de todas as etapas da produção: orientados a distância, eles improvisaram um set dentro de casa, operando cenário, câmera e iluminação. “Eu e o Caio nos conhecemos trabalhando e seguimos, até hoje, aprendendo a conviver, porque não é uma equação fácil, ainda mais para esse episódio que a gente dirigia, escrevia, cozinhava, arrumava os cenários”, diz Luisa.

Na vida da carioca de 27 anos, a sobreposição de funções vem de longe. No início de sua trajetória como atriz, ela chegou a frequentar uma faculdade de cinema, mas desistiu por não se interessar por sua grade abrangente, com disciplinas referentes à publicidade e jornalismo, e acabou sendo chamada para um período de ensaios com Antunes Filho, em São Paulo, para a peça Nossa Cidade. A experiência de seis meses acabou interrompida quando Luisa foi escolhida para integrar o elenco da série Loucos por Elas, período em que também decidiu prestar o curso de letras e assumiu uma rotina que começava às sete da manhã e terminava depois das 21 horas. O horário era tão contado que a escolha por estudar na PUC, inclusive, localizada na Gávea, foi justamente pela impossibilidade de frequentar uma instituição que exigisse maior deslocamento para as gravações.

Família de circo
Filha da atriz Virginia Cavendish e do cineasta Guel Arraes, Luisa cresceu rodeada por arte, acompanhando desde cedo os projetos de seus pais. A proximidade com o meio, no entanto, que poderia ser vista como um facilitador, acabou virando quase uma trava. “Claro que no início há dificuldades para ter coragem de mostrar algo e conseguir independência”, diz a atriz, que chegou a escrever sua primeira peça para poder atuar por “conta própria”. “Pensei: não vou pedir para ninguém me chamar, então, como as pessoas vão saber que quero fazer?”, lembra. Aos 16 anos, ela e as amigas Isabel Falcão e Isabel Mello escreveram Queda Livre, dramaturgia que acabou ganhando direção de Bernardo Jablonski.

Segundo Luisa, foi o diretor “quem ensinou a uma adolescente cheia de problemas como não levar tudo tão a sério e ser feliz fazendo teatro”. No processo para a peça Grande Sertão: Veredas, de Bia Lessa, embora os ensaios tenham levado nove horas por dia ao longo de cinco meses, a atriz diz ter conseguido dosar os desafios com o distanciamento de que ninguém iria morrer caso não desse certo. Agora, mesmo em relação à necessidade que sentia de trilhar seu próprio caminho e construir uma identidade independente da trajetória de seus pais, Luisa já está mais tranquila. Sua família, como define, é meio de circo, aquela em que todo mundo tem uma opinião sobre o projeto do outro. “A gente está sempre mostrando o que faz. Aqui em casa não há essa de ‘domingo não tem trabalho’. Às vezes, é na mesa de domingo que a gente começa a discutir os roteiros.”

O filme Grande Sertão: Veredas, que estava para começar antes da pandemia, será dirigido por seu pai e, antes de saber que viveria o personagem Diadorim no projeto, Luisa acompanhou o processo dando uma série de pitacos. “Ele me mostrava o que estava pensando e eu ajudava em algumas coisas porque [por conta da atuação na peça de Bia Lessa] estava com a história fresca na cabeça”, diz a atriz, que trabalhará ao lado de Guel Arraes pela primeira vez – a previsão de retomada do longa ficou para 2021. “Pelo pouco que ensaiamos, o que posso dizer é que ele já chega no ensaio com tudo preparado e, se você quer convencê-lo a não fazer uma ideia dele, é preciso correr atrás para apresentar outras propostas.”

Modelo de vida
Assim que foi chamada para o elenco de Bia Lessa, em 2016, Luisa queria tanto participar que chegou a brincar que poderia esperar o projeto sair do papel vendendo brownie só para não correr o risco de se comprometer com outro trabalho e perder a montagem. “Não sou mística, mas Grande Sertão tinha sido o único livro que, enquanto lia, não queria fazer mais nada”, lembra. Quando a diretora entrou em contato, a atriz estava para se formar em letras e tinha decidido dar um tempo dos estudos para, enfim, apenas trabalhar. Agora, enquanto se prepara para entrar no universo que define como “estranho familiar”, pelo fato de encarar uma nova versão da obra de Guimarães Rosa após anos com a peça em cartaz, Luisa abandonou a ideia de deixar o meio acadêmico para trás.

Desde o início do ano, ela começou seu mestrado em direção teatral na UFRJ e está criando uma autoficção. A peça, além de dissertação, virou um solo que foi desenvolvido em um curso de acompanhamento com o diretor Nelson Baskerville. A trama gira em torno da arqueologia do apartamento onde Luisa mora atualmente, que foi sua casa na infância e, depois, o local que escolheu como primeira morada sem os pais. “É sobre um personagem que já viveu tantas épocas nesse mesmo espaço”, explica a atriz a respeito do ambiente que foi cenário para Amor e Sorte. “O teatro requer tanta gente e essa pandemia nos obrigou a fazer de maneira tão simples e este apartamento, com um quarto, sala e cozinha, também dita um certo modelo de vida que se resume em um ensinamento que meu pai e minha mãe sempre cantavam: ‘Necessário, somente o necessário. O extraordinário é demais’.”