24.09.2020  /  15:39

Luis Miranda estreia nesta quinta na internet com a icônica Madame Sheila: ‘Ela é dessas que se acham imunes ao coronavírus, mas já comprou um respirador particular”

Luis Miranda e Madame Sheila // Divulgação

Imagine uma madame muito elitista, sempre acostumada com tudo do bom e do melhor e o luxo do jet set internacional. Agora, esta senhora brasileira está passando a quarentena confinada em sua mansão em Paris, cercada de uma dezena de empregados, que só agora ela percebe que existem de fato… Esse é o ponto de partida para o novo espetáculo de Luis Miranda, que faz uma crítica ácida ao momento por que passa o mundo e, particularmente o Brasil. Ele traz de volta uma de suas personagens mais icônicas, que surgiu nos tempos de Terça Insana, a esnobe, politicamente incorreta  e hilária Madame Sheila. Com os teatros fechados por causa da pandemia, a solução encontrada pelo ator foi transformar a peça em uma espécie de série. Com conceito e direção de Monique Gardenberg, e cenário de Daniela Thomas, ‘Madame Sheila’ faz parte do projeto Teatro Unimed em Casa, iniciativa do Teatro Unimed para continuar produzindo cultura e entretenimento em tempos de pandemia.  ‘Madame Sheila’ será apresentada em oito atos, de até oito minutos cada, exibidos online gratuitamente todas as quintas, a partir de 1º de outubro, no site do teatro. Outra ótima novidade é o retorno de o ‘Mistério de Irma Vap’ em curtíssima temporada. Nos dias 9 e 10 de outubro será possível ver Luis Miranda e Mateus Solano arrasando no palco montado do Drive In das Américas, do Espaço das Américas em São Paulo.

Para falar um pouco mais sobre projetos e sobre quem é Madame Sheila, batemos um papo divertidíssimo com Luis Miranda. À entrevista!

Glamurama: Como surgiu Madame Sheila?
Luis Miranda: Tudo começou como uma brincadeira de bastidor entre amigos. Nos tempos de pindaíba ficávamos em uns hotéis bem mais ou menos… e ironizávamos a situação. Depois essa brincadeira ficou interessante e acabou indo pro Terça Insana, com essa mulher que fala das coisas mais exclusivas porque, foi de fato uma investigação minha, tem aquelas pessoas bem sucedidas que gostam de falar o tempo todo dos benefícios que o dinheiro traz.

G: Quem é essa mulher?
LM: Ela existe. Ela é todas as pessoas que ascenderam na vida e se preocupam todos os dias com a roupa de marca vão usar, que foto vão fazer, qual é o novo bafo do pedaço, o melhor restaurante, a comida mais exclusiva, o vinho mais caro. Sheila permeia essas pessoas que gostam de ostentar. Claro que tem gente rica que não vive para mostrar a riqueza, mas têm pessoas que precisam fazer isso, e essa pessoa é a Sheila.

G: E ela é feliz?
LM: Lógico que não. O legal dessa peça é que é um drama existencialista. Porque, ao mesmo tempo em que ela é arrogante, ela simboliza a decadência do comportamento ético, no sentido do que a gente adotaria diante de um momento tão absurdo como essa pandemia. Perceba como os ricos se comportaram aqui no Brasil. Queriam que os empregados continuassem trabalhando… a empregada vai levar o cachorro pra passear e o filho dela cai do prédio porque a patroa não tomou conta direito. Algumas pessoas ostentam e se sentem acima do bem e do mal, e isso faz com que a gente tenha necessidade de fazer deboche em cima desse tipo de comportamento. Discutir isso de uma maneira ácida. Me inspirei muito na Dorothy Parker, cronista da década de 30, 40, que criticava bastante a sociedade norte-americana, na qual o brasileiro sempre se espelhou. Nessa pandemia, por exemplo, essa turma se acha imune ao coronavírus, mas tem uma UTI montada dentro de casa, já comprou um respirador particular. E se preocupa quando as pessoas vão poder ir pra rua. Porque precisam de gente para servi-las. A Sheila começa o espetáculo exatamente nesse ponto: ela tá confinada em um closet e começa a sofrer com a falta de todas as coisas que ela gosta – os jantares, os passeios de barco, o jatinho, desfilar com roupas de grife, os vernissages, os cocktails… E quando se dá conta, ela está conversando com os empregados. Coisa que ela nunca tinha feito antes porque essa gente para ela era invisível. Porque ela estava sempre muito bookada pra reparar neles. Aí, quando ela se vê conversando com os funcionários, ela tem uma crise de pânico. Pensa ‘Meu Deus, estou aqui com essas pessoas que são especialistas em sobrevivência e eu não sei fritar um ovo… essas pessoas de repente podem conspirar contra mim, me matar’. E ela vai ficando desesperada, num conflito interno mas ao mesmo tempo uma viagem dentro dessa megalomania.

G: Como é a Madame Sheila dos dias de hoje?
LM: Total politicamente incorreta! Ela usa máscara Louis Vuitton porque é obrigada a usar em lugares públicos. O presidente usa máscara? Só quando é obrigado né… mas tudo bem porque ele pegou Covid, passou Covid… mas ele não tá no nível da Sheila. Ele é de fato uma pessoa desprovida dessa sofisticação.

G: Ela é bolsominion?
LM: Não, não… ela é monarquista. Ela é diferente. Ela critica as queimadas na Amazônia, ela critica o que fazem com os índios, essas coisas ela não aceita. Por outro lado, ela critica lei de incentivo para baratear o preço dos ingressos de teatro, porque aí ela é obrigada a cruzar com gente que não se veste bem. Esse é o problema dela. É uma questão comportamental. Mas ela não quer contato com a grosseria que esses fascistas promovem por aí. Ela quer beber, iates, cruzeiros, viagens… Porém, diante de tudo o que está acontecendo atualmente, Sheila está tendo que rever algumas questões internas. Tem uma hora que ela fala assim: ‘Me olhei no espelho e me senti uma parasita…’. Em outro momento, ela diz ‘Nunca havia percebido o sentido da palavra humildade’.

G: No fim da história, ela aprende alguma coisa?
LM: Ninguém aprende nada… as pessoas só aprendem aquilo que elas querem ou o que vá trazer algum proveito próprio. Fora isso, não melhoram não.

G: Como foi transformar uma peça em uma série para a internet?
LM: Na verdade é uma peça filmada. Com seus atos divididos, que serão exibidos separadamente, em um formato de série. Mas quando a pandemia acabar vamos levar para o teatro.

G: E como está sua vida na quarentena?
LM: Foi interrompida de repente e, como todo mundo, tive que ir colocando outras coisas importantes no caminho, como por exemplo, me cuidar, pensar no outro, rever algumas questões da vida, avaliar coisas que considero – ou considerava – importantes… As urgências foram retardadas. Estava fazendo ‘O Mistério de Irma Vap’, no auge do sucesso, e tivemos que parar de repente. Aí vim pra minha casa em Salvador e todas as outras coisas foram parando, projetos de agora e do futuro. Pra mim foi muito punk. Mas aí vim pra minha casa, me reconectei com a natureza, cuidei dos meus cachorros, plantei, cozinhei, pesquei, e fui me adaptando. E cumpri direitinho a quarentena. Só recentemente fui ver minha família.

G: Conseguiu ser superprodutivo, aprender coisas novas na pandemia?
LM: Nããão. Nada disso. Não fiz curso de nada. Nem quis saber disso.

G: Do que sentiu mais falta?
LM: Do afeto, do afago, do encontro… encontrar os amigos, ficar aglomerado.