12.09.2020  /  9:00

Luh Maza conta como foi a experiência de ser a primeira diretora trans e negra no Theatro Municipal: “Reparação histórica”

Luh Maza / Crédito: Instagram

Aos 12 anos, Luh Maza descobriu o seu carinho pelo teatro e também pela escrita, dois amores que nunca deixou de  lado: “Minha mãe é professora e sempre me levou ao teatro, então desde pequena eu via a arte como uma possibilidade”, conta em entrevista ao Glamurama. Precoce, a sua primeira peça, “Três Tempos”, foi lançada quando ela tinha apenas 16 anos. Além dessa, Luh escreveu “Boi da Cara Preta”, “A Memória dos Meninos” e “Restos”, mas foi ao produzir e dirigir a peça “Kiwi”, em 2016, que atingiu reconhecimento.

Hoje, aos 33 anos, muita coisa mudou em sua vida, principalmente nos últimos três anos. A dramaturga passou a vestir roupas femininas, deixou o cabelo crescer e enfrentou, em 2017, o desconforto que a perseguia desde a infância para se assumir uma mulher trans. “A minha sexualidade, o meu gênero, isso não deveria mudar a minha arte”, revela.

Uma das cinco roteiristas da série “Sessão de Terapia”, Luh é responsável pela trama do executivo Nando, papel de David Junior, que mesmo apaixonado pela mulher, procura o psicanalista para lidar com questões que envolvem o machismo estrutural: “‘Sessão de Terapia’ era a oportunidade de levar não só a minha vivência, mas possibilitar a criação de novos imaginários sobre negritute e feminismo, por exemplo”. A seguir, confira a nossa entrevista com Luh Maza. (por Jaqueline Cornachioni)

Glamurama: Quando você começou a se interessar por dramaturgia e em qual momento criou seus próprios personagens?

Luh Maza: Desde criança gosto de criar histórias. Então comecei a fazer teatro com 12 anos, como atriz. Logo me interessei também por dramaturgia. Como eu já gostava de escrever, comecei a me dedicar a isso e minha primeira peça de teatro aconteceu aos 16 anos.

G: E a decisão de fazer teatro foi sua? Os seus pais sempre apoiaram?

LM: A decisão foi minha. Eu mesma fui atrás de cursos para começar esse caminho, mas a minha mãe é professora e sempre me levou ao teatro, então desde pequena eu via essa arte como uma possibilidade. Também tive na família um amigo diretor de teatro e ele me trouxe esse contato direto com direção e produção de peças.

G: Qual foi a sua primeira peça e como foi ver esse sonho começando a se realizar?

LM: A minha primeira peça de teatro foi aos 16 anos e chamava “Três Tempos”. Foi muito emocionante ver tudo aquilo acontecendo. Na época eu fazia produção, roteiro e encenava. Eu estava aprendendo tudo sobre esse mundo ainda, então foi um trabalho muito árduo.

G: Tem algum assunto que você goste mais de escrever?

LM: As minhas peças falam muito sobre tempo e relações humanas. Melhor dizendo, como as relações humanas, sejam amorosas, familiares ou de amizade, se transformam com o tempo. E agora, por conta de todo o cenário, elas também têm ganhado um contorno político, levando ainda mais a representatividade e inserção das minorias marginalizadas, trazendo um olhar mais humano para essas pessoas, de forma natural e além dos clichês.

G: Por ser uma mulher trans e negra, muitas portas se fecharam para você?

LM: Eu senti isso sim. Fiz a transição mais tarde, e sem dúvidas muitas portas se fecharam, mas sempre de lugares que não estão comprometidos com a humanidade. A minha sexualidade, o meu gênero, isso não deveria mudar a minha arte. Mas também existe outra questão: o capitalismo abre diversas portas de empresas que não tem um comprometimento real, não tem continuidade. Muitas organizações usam das presenças da minoria. Não podemos ser só uma pessoa ali, a representatividade precisa ser coletiva e verdadeira. Eu sou a primeira roteirista trans, mas e a segunda, a terceira, a centésima? Tenho batalhado pela continuidade. Não pode ser só uma vez, só um evento.

G: Como percebeu sua experiência como diretora de “Transtopia” no Theatro Municipal?

LM: O Theatro Municipal carrega um peso, né? Se pararmos para pensar, foi um local erguido por negros, mas poucas pessoas negras subiram ao palco. Imagina então os trans. Ainda é necessário muita reparação histórica. Quando me convidaram, eles queriam popularizar a minha arte e eu recebi esse convite com muita responsabilidade e cuidado. Eu dirigi essa peça em 2019, sendo a primeira diretora trans e negra. Demorou muito para que algo assim acontecesse. Estou carregando comigo todas as pessoas que já deveriam ter pisado ali antes de mim, e abrindo o caminho para quem vai pisar. Fazer “Transtopia” foi incrível, era mais de 10 trans no palco e um público Queer.

G: Você sente que, nesse momento, fazer teatro está mais difícil?

LM: A pandemia acabou revolucionando o teatro, apesar de fazer isso através de um motivo muito triste. De qualquer forma, se encontrou uma nova maneira, usando a internet, o que aproximou muitas pessoas que não tinham condições de ir ao teatro terem esse primeiro contato. Tirando essa questão, na política estamos vivendo um retrocesso mundial com os avanços da direita. Para dominar o povo, eles tiram a educação e cultura. De qualquer forma, é agora que precisamos mais do que nunca do teatro independente, que critica o governo e o confronta. Não vamos nos calar.

G: Como foi o convite para escrever Sessão de Terapia? 

LM: A Jaqueline Vargas, que é autora da série, me convidou para escrever. Não por eu ser trans, mas pelo meu histórico como dramaturga. Venho do teatro, tenho quatro livros publicados, tenho uma história antes que eu consegui construir porque eu tive uma transição tardia. Isso me possibilitou ter acesso a muitos lugares, mesmo com alguma resistência por eu ser uma pessoa negra.

G: Você estreou como a primeira roteirista trans da televisão brasileira na 4ª temporada de “Sessão de Terapia”. Como é ver sua criação em uma emissora poderosa como a Globo?

LM: ‘Sessão de Terapia’ era a oportunidade de levar não só a minha vivência, mas possibilitar a criação de novos imaginários sobre negritute e feminismo, por exemplo. Além disso, é a chance de levar para milhares de pessoas uma discussão que está rolando na vida, mas que nem sempre são retratadas na televisão. O meu episódio era com o ator David Junior e contava a história de um casal afrocentrado, bem sucedido, e lidando com problemas pessoais, mas que também é fruto de um machismo estrutural.

G: E como foi para você escrever sobre um homem machista?

LM: As pessoas sempre querem discutir sobre gêneros, mas o gênero que mais precisa ser discutido é o masculino. São eles que geram muitas coisas por aí. E se não escutarmos os homens, como vamos transformar o mundo? O homem precisa se revolucionar e poder levar isso para uma série mais ‘elitista’, poder colocar no divã um homem negro, é incrível. Ao mesmo tempo em que ele é vítima do racismo, ele é agente do machismo. O Nando traz essa ambivalência.

G: Quais os novos projetos?

LM: Atualmente sou a roteiristas de uma nova série em desenvolvimento com a Zola Filmes para o Globoplay e GNT, que está em pausa por conta do coronavírus. Também escrevi a minha primeira série autoral.