30.09.2019  /  10:25

Julia Stockler estreia em ‘Éramos Seis’ com papel delicado: “Justina é autista e quero chamar a atenção para essa questão”

Julia no papel de Justina, ao lado dos personagens de Eduardo Sterblitch e Maria Eduarda de Carvalho // Divulgação

Julia Stockler está feliz da vida. E não é para menos. Além do filme do qual é uma das protagonistas, ‘Uma Vida Invisível’, ter sido indicado a uma vaga ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, ela faz sua estreia em novelas como Justina, filha de Emília, vivida por Susana Vieira em ‘Éramos Seis’. “Ela é uma personagem que tem o que pode se chamar de transtorno mental. Talvez nos dias de hoje Justina se enquadrasse dentro do espectro autista. Só que naquela época não existia esse diagnóstico”, analisa. “É uma menina que ninguém compreende, muito sensível, amorosa. Mas sua mãe não a entende porque ela não se enquadra nos padrões sociais, comportamentais da época. Então vai existir essa relação conflituosa, porque a mãe tem vergonha dela e prendeu Justina dentro de casa por 30 anos”.

Apesar de ser um rosto novo nas telinhas, a atriz de 31 anos soma 10 de carreira. Cria do teatro, disse ter ficado apreensiva em fazer TV: “Sou uma atriz nova na Globo e tive medo. A Susana (Vieira) foi muito parceira. Ela é uma atriz maravilhosa, foi extremamente generosa comigo. É uma profissional intuitiva, que veio do teatro. Trocamos muito o tempo todo. Ela me abraçou com todo carinho, generosidade e confiança. O núcleo ali é muito eu e ela”.

Julia com Susana Vieira em ‘Éramos Seis’ // Divulgação

Julia conta ainda que sua preparação para viver Justina foi um mergulho profundo, do tipo que ela gosta de dar. “Me preparei com a Rosella, que é uma preparadora maravilhosa. Tive encontros com autistas de um instituto chamado Priorit, na Barra da Tijuca. Fiz trabalhos de pintura, ficamos juntos, na verdade, para entender que o autismo é extremamente amplo e pouco falado, respeitado na sociedade. Aqui dentro do coração, sinto que tenho uma missão de colocar esse tema de uma maneira sensível, para que as pessoas enxerguem”, reflete. “ Quero que as pessoas olhem para a Justina e pensem: qual é o problema de ser diferente? É uma personagem que fala sobre a diferença na novela, tem outro tom, é onírica, subjetiva, utópica, sensível, é uma artista e isso será desenvolvido na trama. De que maneira a gente olha o diferente acolhendo? Isso para mim é o que fica da Justina e gostaria que as pessoas tivessem esse olhar”.

Protagonizando, ao lado de Carol Duarte, o filme “A Vida Invisível”, que vai representar o Brasil no Oscar 2020, Julia vibra com a possiblidade do filme de Karim Aïnouz levar a estatueta. “Essa indicação foi muito emocionante, porque é um filme muito sensível. Fala sobre a mulher, seu empoderamento, da invisibilidade que as mulheres tinham nos anos 1950, que acho que não difere tanto do que vivemos hoje, apesar de termos leis que nos apoiam, movimentos que nos representam. Então, também é um filme que fala sobre a gente hoje, ainda mais neste momento do Brasil”.

Com Carol Duarte em cena do filme “A Vida Invisível” // Divulgação

O longa conta a história de duas irmãs cariocas, Eurídice e Guida, que têm seus sonhos soterrados pelo peso de uma sociedade machista. A produção foi premiada na mostra Um Certo Olhar, em Cannes, e foi escolhida para representar o Brasil no Oscar, desbancando outros 11 filmes. Julia entende a importância do momento, mas não se deslumbra. “De ganhar Cannes já ficamos muito felizes, mas o Oscar tem essa potência mundial e isso é maravilhoso. Ainda mais neste momento que estamos vivendo, entender que o mundo quer ver cinematografias brasileiras é um tapa na cara de quem está fazendo nosso movimento audiovisual retroceder. Me sinto uma lutadora de estar podendo representar como protagonista junto a Carol Duarte essa história”, salienta. “Estou vivendo dois personagens, na TV e no cinema, que têm essa abrangência de comunicar temas importantes. É uma preocupação minha e acabou que aconteceu junto. Mas não me envolvo em projetos pelos quais meu coração não bata forte e que não tenha algum caminho interno que faça muito sentido para mim. Não é que eu seja uma pessoa que levante bandeiras, mas se puder construir a base para que as pessoas levantem suas bandeiras, vou estar nesta construção”.

Apesar de todo pé no chão, você já pensou que em fevereiro pode se tornar uma atriz de um filme ganhador do Oscar? “Minha analista pega o jornal e diz: você se vê aqui? E eu respondo: não. Porque tenho que limpar a casa, pagar contas, levar o cachorro para sair. O resto é consequência. Trabalhei muito. Acho lindo estar no jornal, na novela, em Cannes… é maravilhoso, mas trabalho muito para isso, desde os 10 anos. Com coração e alma”.

E completa: “Esse filme ganhar seria fundamental para as mulheres, para o Brasil. A liberdade de expressão está virando novamente um valor negociável… e é inegociável. Mostrarmos que cinema dá visibilidade, gera empregos e traz dinheiro para o país é fundamental. E se eu for para o Oscar, assim como foi em Cannes, darei entrevistas falando sobre isso. Não tenho medo. Meu trabalho como atriz é esse”. (por Brunna Condini)