Revista J.P descobriu clínica médica que faz procedimentos estéticos a preço de banana

02.06.2018  /  10:00

Empregadas, desempregadas, manicures e até madames aplicam botox, preenchem a boca e fazem procedimentos íntimos a preço de custo em escola de cirurgiões plásticos no centro de São Paulo

Por Chico Felitti para a Revista J.P 

A diarista Selma Dias avisa por WhatsApp para o designer para quem trabalha às quartas-feiras que vai atrasar naquele dia: “Consegui um horário para colocar boca. Vou ficar a cara da Anitta! Kkkkkkk”, é a mensagem que manda. Selma, uma morena de 49 anos, é uma das centenas de clientes que esperam até seis meses para fazer procedimentos como peeling profundo (R$ 220), preenchimento de lábio com ácido hialurônico (R$ 500) ou microagulhamento de mãos, pescoço e colo (R$ 100) numa escola de pós-graduação que especializa médicos em cirurgia plástica – e precisa de voluntários para as aulas práticas.

O prédio espelhado de sete andares na rua São Domingos, no Bixiga, fica ao lado de um abrigo da prefeitura para pessoas em situação de rua, e passaria batido não fosse uma coisa. Às sete da manhã, há uma pequena multidão esperando para entrar no prédio. É nesse horário que se forma uma fila de mulheres (muitas) e homens (de dois a cinco, dependendo da manhã) que conseguiram marcar consultas e procedimentos em um esquema que lembra a estreia de um espetáculo muito concorrido na Broadway, em Nova York. O cadastro de novos pacientes é aberto só um dia por mês: na primeira segunda-feira útil, quem deseja fazer os procedimentos pode ligar para a central de agendamentos, um número de celular, e rezar para o telefone não dar ocupado. J.P tentou por dois meses seguidos, e não conseguiu.

A manicure Katia, que pede para não ter seu sobrenome divulgado, tentou por um ano. “Daí eu fui, finalmente”, diz ela, que mora no Jardim Marajoara e leva uma hora e meia de ônibus para chegar ao Bixiga. “Vou fazendo tudo o que eles deixam. Não sou louca!”, diz alto na sala de espera, uma sucessão de fileiras de cadeiras de plástico e chão azulejado. As pessoas ao redor, até então em silêncio, riem. Logo mais, Katia é chamada pelo nome. Ela entra na sala de procedimento e cumprimenta a preceptora e a médica aluna antes de se sentar na cadeira. É dia de botox. A professora faz a marcação dos pontos que vão receber picadas de toxina na testa. Suas mãos picam o hemisfério esquerdo do rosto, enquanto faz comentários didáticos, como “a entrada tem de ser suave, mas com pulso firme. Firme”. Em seguida, é a aluna que empunha a seringa com a toxina do botox, e completa o outro lado.

Terminado o rosto, a professora pede que a médica aluna olhe: “Vai demorar alguns dias para ter efeito completo, mas já dá para ter uma noção de que ficou simétrico”. Katia levanta e se olha no espelho. Sorri. “Eu não digo pras minhas amigas onde faço não. Podem até achar que eu tô fazendo dívida para pagar, ou que tô roubando”, ela ri com a boca cheia, enquanto sua testa permanece imóvel provando que o botox está começando a fazer efeito.

Um terço da procura

A clínica estima que consiga atender a um terço da procura por tratamentos embelezadores. Os atendimentos estéticos correspondem a 10% do movimento da escola, que oferece também tratamentos dermatológicos como a retirada de tumores benignos, além de tratamento de psoríase e um ambulatório de calvície.

O curso foi criado no Rio, em 1990, e se mudou para São Paulo no meio da década. Os homens por trás do negócio são Valcinir Bedin, que, aos 63 anos, é um dos maiores especialistas em queda de cabelo do país, e o endocrinologista Wilmar Accursio, 62. O professor Bedin afirma que fundou a escola porque procedimentos estéticos eram preteridos nas grandes escolas. Na época dele na Universidade de São Paulo, residência em dermatologia não englobava tratamentos embelezadores. “Era metade hanseníase e metade DST. E um pouco de micose, também.”

Os dois donos até recentemente tinham consultórios nos Jardins paulistanos, mas preferiram dedicar toda sua atenção à escola. Até porque as pacientes dali são mais fáceis de lidar. “Na média, o nível cultural é mais baixo. E as reclamações são menores”, afirma o doutor Bedin, que afirma ter penado com clientes insatisfeitas. O botox ali custa R$ 430. “Custaria R$ 1.500, no mínimo, no meu consultório”, diz. O preço praticado, afirma Accursio, é só o dos insumos. “Toxina botulínica e preenchedor são coisas caras.” A pós-graduação dura três anos, e atualmente há 105 alunos de medicina estética. Quem faz a especialização não pode se chamar de dermatologista. Mas pode fazer a prova da categoria e conseguir o título.

Processos e aberrações

O Ministério da Educação e Cultura afirma que o cadastro da instituição está ativo. Ou seja, que eles têm permissão para atuar. Mas não sem questões éticas. “Essa ‘faculdade’ não é uma instituição de saúde. Não é consultório, não é clínica, não é hospital”, diz o doutor Antônio Pereira Filho, do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, o Cremesp. Ele classifica a escola como “aberração”. “Não se tem controle de qualidade nenhum sobre o que está sendo ensinado ali. É um negócio deletério.” Pereira Filho também afirma que há processos correndo sob segredo de Justiça. “Esses médicos, tanto os donos da escola quanto os professores, estão respondendo ao conselho”, conta. “O sentimento que eu tenho de quem procura essa instituição é de pena, porque são pessoas sem poder aquisitivo para irem a uma instituição com médicos formados. Elas, infelizmente, se submetem a esse papel de cobaias, entre aspas, porque estão sendo objeto de estudo.”

Os médicos donos da BWS afirmam que o ensino oferecido é de excelência e nunca houve nenhum problema no ambulatório da escola. “Se fosse haver, teria sido uma zebra. Você pode ter um choque anafilático, uma parada respiratória anafilática, mas nunca tivemos.”

Peeling na pepeca

Enquanto a batalha jurídica não se resolve, o ambulatório-escola segue crescendo, e se aprimorando. A novidade da vez é a diversificação de procedimentos de estética íntima. São agulhadas, peelings, injeções de gordura e vários outros artifícios para embelezar as partes pudendas. Vão de R$ 100 (radiofrequência) a R$ 900 (preenchimento com ácido hialurônico de alta densidade). “Serve para tirar pigmentação exagerada, o mesmo ácido que a gente coloca para preencher o bigode chinês é injetado nos pequenos e grandes lábios”, explica Accursio.

Há até uma madame ou outra que fica sabendo o segredo do bom preço e termina ali. Bedin conta de como, anos atrás, funcionários entraram afobados na sua sala: “Tem uma moça que foi capa da Playboy aí fora”. O médico saiu e, disfarçadamente, foi até o ambulatório, para descobrir quem era a estrela. “Era uma ex-famosa que tinha posado 35 anos antes!”

Katia, a manicure que tinha acordado às cinco da manhã para receber picadas de botox, pega, às 9h15, um ônibus na avenida 9 de Julho e vai para o salão onde faz até 30 pares de mãos em um bom dia. “Hoje valeu a pena. Tô mais linda que muita cliente.”