14.03.2014  /  8:00

João Braga desvenda as curiosidades do universo da alta-costura

 

Por Manuela Almeida

O universo da alta-costura é tipo um clube bem restrito. Regras e pré-requisitos não faltam, tanto para os consumidores quanto para as maisons desse segmento. Para entender mais sobre este nicho, Glamurama entrevistou o historiador de moda João Braga. Confira as restrições, peculiaridades e excentricidades que caracterizam esse meio:

– “Alta-costura lida com a questão do sonho. Quando uma pessoa compra algo único e feito sob medida por um grande nome, ela adquire prestígio. Quem consome couture quer comprar um diferencial e ser reconhecido pelo poder aquisitivo.”

– “O público que compra alta-costura é atendido com hora marcada, um chauffeur leva a pessoa até o atelier.”

– “Quem compra alta-costura esporadicamente é reconhecido como comprador e não cliente. Existem 200 e poucos clientes no mundo, apenas.”

– “As maiores consumidoras de alta-costura são americanas, árabes e russas, nessa ordem.”

– “O termo maison é automaticamente associado a alta-costura. É incorreto usar o termo grife de alta-costura.”

“Alta-costura é uma patente, ela só existe em Paris, mais especificamente no Triangle d’Or, ou triângulo de ouro, formado pelas avenidas Montaigne, Georges V e Champs Elysées, em Paris. E na Champs Elysées, apenas o lado esquerdo de quem sobe a avenida. Na Itália, existe a ‘alta moda’ e nos EUA, o ‘high fashion’, por exemplo.”

– “No Brasil, utilizamos a expressão alta-costura mesmo sabendo que está errado, pois ainda não inventamos uma expressão que simbolize a moda brasileira.”

– “Além de ter loja no ‘Triangle d’Or’, para uma marca ser reconhecida como alta-costura precisa ter o seu próprio perfume, um grande salão, uma estética francesa, um contramestre, uma assistente do contramestre e ainda ser membro aderente da Chambre Syndicale de la Haute Couture, ou Câmara Sindical de Alta-Costura.”

– “Porém, existem marcas convidadas e representantes na Chambre também. A diferença é que os membros aderentes, como Dior, Chanel e Jean Paul Gaultier,  são marcas que seguem todos os pré-requisitos de uma maison de alta-costura e por isso são fixos.”

– “Os membros aderentes decidem quem pode entrar ou sair do line-up da Semana de Alta-Costura.”

– “Exemplos de membros convidados do Chambre Syndicale são: Gustavo Lins, Elie Saab e Ralph & Russo.”

– “Todas as roupas de alta-costura precisam ser feitas em Paris. As peças podem sair do Triângulo de Ouro apenas para serem bordadas, já que, por regra, têm de ser feitas à mão.”

– “No mundo couture, um vestido de noiva ou casaco de pele pode custar R$ 700 mil e um vestido de festa R$ 120 mil.”

– “Não existe ‘estilista de alta-costura’. O termo correto é costureiro. Mas em Paris, falar que você é um ‘couturière’ é o máximo de prestígio.”

– “As peças de alta-costura são uma vitrine para a maison e não gera muito lucro.  O que mais dá dinheiro para a marca são os perfumes, seguidos dos cosméticos, depois dos acessórios e depois das peças de couture.”

– “Na Semana de Moda de Alta-Costura, as maisons precisam apresentar pelo menos 25 looks. Apesar do retorno financeiro não ser garantido, o risco é necessário para chamar atenção da mídia. E como não existe liquidação de luxo, o que não for vendido das passarelas vai para o acervo do costureiro. As peças podem terminar em um museu ou no tapete vermelho.”