Jaqueline Conceição, Liliane Rocha e Nivia Luz falam dos avanços em suas áreas de atuação, apontados como divisor de águas na luta antirracista

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Jaqueline Conceição, Liliane Rocha e Nivia Luz || Créditos: Reprodução

Mulheres negras e empreendedoras, Nivia Luz, Jaqueline Conceição e Liliane Rocha falam dos avanços em suas áreas de atuação em 2020, ano apontado como divisor de águas na luta antirracista, com manifestações e debates que ganharam o Brasil e o mundo. Avante!

Em depoimento para Nina Rahe para a revista J.P

JAQUELINE CONCEIÇÃO – Psicanalista, doutoranda em antropologia social e criadora do coletivo Di Jejê, instituto de pesquisa que desenvolve ações que abordam a pauta antirracial. Em 2020, iniciou o projeto para criação de uma faculdade que vai oferecer cursos de graduação e pós-graduação para formar profissionais focados na questão racial

“Trabalho com educação desde os anos 2000 e hoje percebo que há uma intensificação das discussões em torno da questão racial dentro do espaço escolar. Há uma necessidade maior das pessoas buscarem informação e também a formação de uma alfabetização racial. À frente do coletivo Di Jejê, que oferta cursos e programas de formação sobre feminismo negro, estudos afro-brasileiros, alfabetização racial para professores, pesquisadores e empresas, percebo também que, cada vez mais, os negócios empreendidos pela comunidade negra têm se fortalecido. A questão da luta antirracista potencializou a discussão em torno do black money e também a necessidade do fortalecimento desses negócios, mas o maior gargalo é o apoio dos empresários e dos fundos de investimento. Houve um aumento desse olhar e observamos alguns incentivos, mas ainda é pouco em relação à demanda. O movimento Vidas Negras Importam, desencadeado nos Estados Unidos, foi uma vitrine mundial para várias questões e colocou uma lanterna enorme no Brasil, mostrando a necessidade de fortalecer e ampliar o debate racial em várias frentes. Se comparamos com os anos anteriores, é um salto gigantesco, mas para que a gente tenha resultados concretos em 10, 20 anos, e isso saia do espaço da representatividade e entre no espaço da participação cotidiana, as pessoas precisam aprender sobre o racismo no Brasil.

Ser mulher negra nos faz ser múltiplas coisas. Sou professora, pesquisadora, psicanalista, estudante de doutorado, empresária. No âmbito pessoal, esses debates intensificaram o meu lugar de intelectual na esfera pública, em uma discussão com a sociedade de formas diferentes de produção de vida. No coletivo Di Jejê, a gente notou um aumento significativo da procura de serviços. Trabalhamos com quatro empresas, oito escolas e oferecemos formação para 1.575 pessoas desde o início da pandemia. Já na clínica, houve um salto expressivo de pessoas negras à procura de cuidados de saúde mental, que chegam dizendo que querem um acompanhamento porque o racismo adoece. Quando o debate da questão racial vai para o espaço público através dos meios de comunicação, há uma luz que clareia a necessidade de se pensar e falar sobre isso não só no âmbito político, mas também no âmbito pessoal.”

LILIANE ROCHA – CEO e fundadora da Gestão Kairós, consultoria de sustentabilidade e diversidade. É autora do livro Como Ser um Líder Inclusivo e foi a única brasileira na lista deste ano do prêmio 101 Top Global Diversity and Inclusion Leaders.

“Na primeira empresa na qual trabalhei, em 2005, no setor de eletrônicos, já havia inclusão e a questão de equidade racial. Até brinco que só entrei nela, inclusive, sendo uma mulher negra, de origem periférica, com inglês ‘marromenos’ porque ela tinha políticas de ações afirmativas. Acho que alguns líderes inspiradores, negros e brancos, já vêm refletindo a questão da diversidade há muitos anos e o que temos agora é uma ampliação desse movimento. Há mais líderes se engajando nesse assunto, mais mídias, mais intelectualidade negra, mas o ponto que a gente precisa avançar é a melhoria dos indicadores. Se nas 500 maiores empresas, segundo o Perfil Social, Racial e de Gênero, do Instituto Ethos, em 2016, havia 4,7% de negros na liderança e 0,4% de mulheres negras na liderança, aí existe um ponto. 2020 foi o ano que a morte de um homem negro pela polícia repercutiu no mundo inteiro, no qual empresários escreveram para seus CEOs dizendo que era preciso tomar uma atitude. 2020 foi um ano todo diferente, todo pautado por conversas de diversidade e de inclusão. Temos alguns exemplos notáveis, como a abertura de novos espaços para a vocalização e potência da intelectualidade negra. Executivos do mundo corporativo cederam sua página do LinkedIn para vozes negras e isso é um avanço. Eu, por exemplo, ocupei o perfil do Gustavo Werneck, CEO da Gerdau, por uma semana, postando sobre a temática racial, sobre o empreendedorismo negro, a periferia negra e sua potência. Tivemos casos de empresas como Ambev, que lançou um manifesto público e que constituiu um comitê racial. Sou uma das conselheiras e nos reunimos uma vez por mês para falar sobre diversidade racial na empresa e reeditar o Representa, por exemplo, que é o programa de estágio focado em negros, além de lançar um programa de trainee que exclui o inglês como requisito indispensável e estabelece um percentual obrigatório de negros que irão entrar no processo seletivo. Acredito que avançamos de forma expressiva e as empresas mantiveram o foco nesse debate, com a intelectualidade negra passando a ocupar novos espaços ao longo deste ano. 2020 foi muito efervescente para a temática racial e é essa efervescência que não pode se perder nos próximos anos. Esse é o maior desafio, fazer com que os avanços não sejam esquecidos e se tornem uma mudança concreta na estrutura da sociedade brasileira.”

NIVIA LUZ – Ialorixá do terreiro Ilè Asè Oyá, de Salvador, e CEO do Instituto Oyá, centro de arte, cultura e lazer com aulas de percussão, teatro e dança, que prepara os alunos para o uso da tecnologia e faz acompanhamento do desempenho escolar.

“Durante séculos, ser de candomblé era viver parcialmente na clandestinidade. Houve um período na história do Brasil que a polícia perseguia os terreiros e era preciso autorização para poder celebrar e viver abertamente nosso culto religioso sacro-africano. Então, hoje, não precisar se esconder e poder falar abertamente sobre pautas de combate ao racismo é, sim, um avanço que merece ser reconhecido. O ano de 2020 foi um divisor de águas e nos empurrou para pautas intensas que ganharam o mundo, sobretudo no contexto internacional, como o Black Lives Matter, que serviu para acender uma luz para algo que nós, negros, já estamos falando há muito tempo. Vivemos uma pandemia chamada Covid-19, que está matando, mas o racismo é uma pandemia que vem matando por muito tempo. Muita gente pode pensar que essa comparação é bobagem, mas não, não mesmo. Quantos africanos escravizados o Brasil recebeu em suas terras? Mais de 4 milhões. Qual o saldo disso? Pobreza, violência e morte. A visibilidade e atenção dada pela sociedade deve ser considerada uma mudança de hábitos, daí a importância das mídias sociais e da imprensa, mas também do engajamento de brancos nesta luta, uma maior conscientização de que, para rompermos com o ciclo da pobreza e da fome, precisamos entender as mazelas que a má gestão do Brasil causou desde sua colonização e nos acomete. As transformações estão vindo da mudança de mentalidade da sociedade, ainda lenta, mas possível. Sinto, como sempre, na pele e na alma, pois a pauta me afeta das mais diversas maneiras, na minha condução religiosa, social, cultural… No Instituto Oyá, organização que foi fundada em 1998, nós redesenhamos este ano todo nosso trabalho e entendemos a importância de uma ação social que tenha relevância para nossa comunidade, mas que seja abraçada por outras pessoas. Realinhamos o projeto pedagógico do Instituto Oyá ampliando o acompanhamento dos nossos jovens, entendendo o poder de educação transformadora, inclusiva. Nós queremos equidade racial, direitos assegurados e contemplar a diversidade que existe em nosso país. Estamos, sim, avançando, de forma tardia e um pouco lenta diante de séculos de opressão, mas não estamos inertes.”