26.09.2020  /  9:00

J.P mergulha no universo da escritora portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen que vivia entre a poesia e o combate

Sophia de Mello Breyner Andresen || Créditos: Reprodução

De família aristocrática, a portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen escrevia sobre a beleza do mar com a mesma intensidade que lutava contra o governo autoritário de seu país.

Por Luciana Franca

A alma feita de maresia e o mar sonoro, sem fundo e sem fim de Sophia de Mello Breyner Andresen ficaram mais conhecidos por aqui em 2006, quando Maria Bethânia inseriu versos da poesia da portuguesa entre saudações aos orixás no álbum Mar de Sophia. Mas foram os jardins deslumbrantes de sua residência Quinta do Campo Alegre, que hoje formam o Jardim Botânico do Porto, testemunhas das brincadeiras e do despertar de sua paixão pela literatura. Em 1922, aos 3 anos de idade, uma empregada da casa ensinou Sophia a recitar o poema popular A Nau Catrineta para acompanhar os primos no espetáculo de Natal que era uma tradição da família. Quando começou a ler, era com uma cópia de Os Lusíadas, de Luís Camões, que ela andava debaixo do braço sob as árvores em torno da luxuosa residência.

O privilégio de ter sido criada em um ambiente aristocrático não fechou seus olhos para a consciência social. A trajetória da poeta foi marcada também pela intervenção política. Costumava dizer que, quando era jovem, a política não era para mulheres, mas que sua mãe ensinou a indignação diante das situações de injustiças. Com o marido, o jornalista Francisco Sousa Tavares, travou lutas contra a ditadura do regime de António de Oliveira Salazar e lhe dedicou o livro Contos Exemplares: “Para o Francisco, que me ensinou a coragem e a alegria do combate desigual”. Sophia foi coautora da Carta dos 101 Católicos, documento que tecia críticas à guerra colonial e ao apoio da Igreja Católica ao regime totalitário e, em 1975, foi eleita para a Assembleia Constituinte.

O combate e a poesia dividiam espaço com o universo infantil. Mãe de cinco crianças, começou a escrever contos para a audiência de casa. A Menina do Mar, lançado em 1958, foi seu primeiro livro infantil e teve origem em uma história que a poeta contou a um de seus filhos. Incansável, ela também escreveu ensaios, peças de teatro, traduziu Eurípedes, Dante e Shakespeare, e recebeu o Prêmio Camões, em 1999, a mais importante condecoração literária da língua portuguesa. Sophia partiu em 2004, aos 84 anos. Um ano depois, seus poemas sobre o mar passaram a estampar as paredes do Oceanário de Lisboa.

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MAR por Sophia de Mello Breyner

Mar, metade da minha alma é feita de maresia Pois é pela mesma inquietação e nostalgia, Que há no vasto clamor da maré cheia, Que nunca nenhum bem me satisfez. E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia Mais fortes se levantam outra vez, Que após cada queda caminho para a vida, Por uma nova ilusão entontecida. E se vou dizendo aos astros o meu mal É porque também tu revoltado e teatral Fazes soar a tua dor pelas alturas. E se antes de tudo odeio e fujo O que é impuro, profano e sujo, É só porque as tuas ondas são puras.