J.P entrega os bastidores das festas dos anos 1990, a era de ouro dos agitos privês e casas noturnas

10.11.2018  /  9:00

Festas das boas era nos anos 1990 || Créditos: Vania Toledo

O começo dos anos 1990 em São Paulo foi uma era de ouro das festas, com a efervescência de casas noturnas e agitos privê nas casas das pessoas. J.P investiga tudo sobre esse auge – e se ele pode voltar

Por Chico Felitti  / Fotos: Vania Toledo

É noite de um 1° de maio do começo da década de 1990 em um apartamento no Itaim Bibi, em São Paulo. O dono do apartamento acaba de voltar de viagem. Esteve na União Soviética, em pleno processo de dissolução, e trouxe na mala souvenirs de dois tipos: bandeiras originais da Revolução de 1917, que foram penduradas nas paredes, e latas de caviar. Enquanto dezenas de pessoas se divertem ao som do rock que marcou a década (com direito a uns integrantes dos Titãs na pista), a iguaria fica em cima da mesa, para quem quiser comer. No fim da noite, as ovas estão praticamente intocadas: só duas pessoas experimentaram o caviar russo.

Essa foi só uma das noites inesquecíveis do começo dos anos 1990 na capital paulista, uma época em que a cidade efervesceu e gerou uma era de ouro noturna. No mês em que comemorou 12 anos, a J.P foi atrás da turma que aproveitou essas festas, para entender o que aconteceu nesse período, e se o fenômeno pode voltar. Empresários, artistas, publicitários e escritores, que toparam falar sobre esses tempos mais alegres, preferiram não ter seu nome publicado. “Se vaza na internet o que a gente fazia, vai acabar a carreira de meia São Paulo”, diz uma atriz global.
Testemunha ocular desse movimento, a fotógrafa Vania Toledo misturava o prazer com sua arte. Fotografou centenas de festas, mas não deixava de aproveitar enquanto estava de câmera em punho. “A gente ia para a casa de alguém, tomava no mínimo um ou dois dry martinis e saía sem rumo.” Havia quem fizesse esquentas mais elaborados. Um grupo de amigos se encontrava no finado Caesar Park da rua Augusta, a dois quarteirões da avenida Paulista, e começava ali mesmo a preparação para a noite. Além de encher uma suíte de pessoas e de um vasto repertório de estimulantes, eles contavam com um serviço especial: uma enfermeira que ficava de plantão num canto do quarto, para o caso de uma intercorrência.

Ela frequentou muito a mansão de Ugo di Pace nos Jardins. Guardada por colunas italianas do século 18, a casa era outro destino certo para festas inesquecíveis. “Imagina, lista de convidados era uma coisa que não existia. Se você tinha um amigo interessante, simplesmente levava ele pra festa. E era assim que a melhor mistura de pessoas se formava”, diz um arquiteto que hoje assina lojas de shopping. Ele se lembra de uma festa em que conversavam Jô Soares, Walter Clark, um dos homens que transformou a TV Globo em uma potência, Paulo Francis e o rabino Henry Sobel. Enquanto os quatro discutiam numa mesa, Paulo Ricardo era cantado por três meninas simultaneamente. “Acho que ele pegou as três”, ri o arquiteto.

Essas festas aconteciam em casas de famílias tradicionais. Uma delas era a de Rafael Altério, na rua Suíça. “Fui a pelo menos meia dúzia de festas arrasa quarteirão lá”, diz uma editora de moda. A mesma casa não anda muito festiva: hoje pertence a Gilberto Miranda, ex-senador que também amealhou uma ilha no litoral norte de São Paulo e mais duas casas da rua, antes de ser investigado por operações da Polícia Federal. Mas até casamentos, que costumam ser festas comedidas, terminavam em loucura. Uma das bodas do empresário José Maurício Machline, herdeiro da Sharp, durou 24 horas. Homens sobre pernas de pau recebiam os festeiros, que iam de jovens membros da família Sarney a artistas desbundados como Paulette, do Dzi Croquettes.

Para Vania, a noitada inesquecível aconteceu no começo da década de 1990, em uma mansão da rua Alemanha. “O tema da festa era mundo árabe. Todo mundo se fantasiou de xeque, de odalisca, e a gente brincou até de manhã. Brincou mesmo, porque éramos crianças adultas. Era muito inocente tudo. Não tinha excessos excessos, só excessos sem excessos”, ela ri, sem narrar os detalhes que fizeram aquela noite entrar para a memória. “Quem viu, viu. Quem não viu, não vê mais”, continua. Ela tem razão: uma busca na internet não mostra nenhum registro do evento que ela lista como o mais inesquecível de uma vida. O anfitrião, Rodolfo Scarpa, não aparece no Google – ao contrário do seu primo midiático, Chiquinho Scarpa, que tem 1,8 milhão de menções.

Rodolfo Scarpa e a festa árabe || Créditos: Vania Toledo

 

STUDIO 54 É AQUI
Mas não era só em casa que se festejava. O equivalente ao famoso Studio 54, de Nova York, ocupava o número 1.626 da rua Haddock Lobo, nos Jardins: o Gallery. A boate tinha mesas separadas do espaço comum por paredes capitonê, mas todo mundo ali dentro era vip. Foi lá que a atriz Matilde Mastrangi fez um striptease e Tony Bennett perdeu a peruca na pista de dança. Limusines iam buscar quem voava de outra cidade para curtir a noite paulistana.

O Gallery chegou a ter um estoque de 500 óculos escuros para distribuir aos clientes que saíssem com o sol já nascido. “A gente saía às seis da manhã e ficava na casa de alguém até as 11h. Daí ia para casa dormir. E só acordava de noite, que nem vampiro”, diz Vania.

A quarteirões dali, nascia também uma cena LGBT. A Medieval foi uma das primeiras boates gays do Brasil, na rua Augusta, também a poucos metros da Paulista. A noite paulistana teve algumas das suas cenas mais surreais lá. A atriz Wilza Carla, musa das pornochanchadas, chegou à boate uma noite montada num elefante. No lugar de uma sela, usava um baby doll. Uma drag uma vez foi carregada para dentro do lugar em um caixão de vidro. Às primeiras batidas de sua música predileta, despertou e dançou. “A noite de São Paulo não perdia em nada para a de Nova York”, diz um decorador que se mudou para a maior cidade dos EUA quando a capital paulistana ficou “intragável” para ele.
“Foi o auge da liberdade sexual. A ditadura já estava ficando meio fracola e as pessoas sentiram uma liberdade que fazia tempo que não tinham. E se sentiam seguras na cidade”, diz José Victor Oliva, um dos sócios do Gallery, quando lhe perguntam qual era a fórmula do sucesso.

“Ninguém fotografava ninguém. O que acontecia ali era para consumo próprio”, diz um jornalista que trabalhou nas maiores colunas sociais do país. “Eram as pessoas físicas que estavam na pista de dança, não as jurídicas. Por isso as pessoas se divertiam mais.” Esse mesmo jornalista, que migrou para o outro lado do balcão e hoje trabalha com produção de eventos, conta que seus clientes pedem que já pense em decorações que rendam boas selfies. “As festas hoje são feitas pro Instagram, não para pessoas”, suspira.

Um exemplo de como os tempos eram outros: em 1994, quando o Gallery ainda era um dos pontos mais concorridos dos Jardins, roubaram o toca-fitas de um carro que estava estacionado na rua Haddock Lobo, perto da boate. “Era um crime tão grande que eu fui falar com o secretário de Segurança Pública, que era o Temer. Esculhambei ele. Ele colocou uma viatura na rua, parada.” A assessoria do presidente foi procurada para comentar o episódio, mas não se pronunciou.

Outros tipos de segurança também foram desaparecendo. “Não tinha Aids, você podia comer de frente, de trás, de lado e voltar para casa e dormir com a consciência limpa, que estava tudo bem”, brinca um cantor. “Essa coisa do politicamente correto fudeu tudo”, acredita Oliva. “Chegar para uma menina e dizer que ela era gostosa era um elogio, queria mais que ela se sentisse bem. Hoje, não sei nem como se paquera! Tinham que dar no Procon uma cartilha, porque se eu chamar a menina para foder, vou preso”, diz o empresário.

Mas havia um lado pouco glamouroso no auge da noite. “Cansei de ver pessoas tendo overdose, passando mal. Era liberdade completa”, diz Oliva, que foi a uma festa em que o anfitrião distribuía lembrancinhas. Só que os mimos eram dados na entrada, e não na saída: “Eram dois gramas de cocaína em um saquinho”, ele ri. Em outra festa, um mordomo andava com o pó numa bandeja de prata.

Burning Man || Créditos: Rprodução Instagram

BURNING MAN

A fotógrafa Vania Toledo diz que, quando se deu conta, estava no meio da década de 1990 e sair não era mais um prazer. Foi quando as pessoas começaram a posar para suas fotos que Vania decidiu parar de documentar a noite. “Passou a ter um interesse para fazer business, gente querendo subir na vida a qualquer cus¬to. Os alpinistas sociais é que acabaram com as festas”, diz Vania.

Ou talvez as festas tenham apenas mudado de forma – e de local. É a aposta de uma empresária que viveu a era de ouro de São Paulo e hoje vê os filhos curtindo a deles. “Agora, as pessoas fazem festa em casa trancada, com segurança na porta, querem ter mais controle do que vai acontecer. Só convidam pessoas em quem confiam 100%, para não vazar nada”, diz a empresária, que tem uma filha blogueira. “Fico mais tranquila sabendo que ela vai para Mykonos ou ao Burning Man [festival que imita uma sociedade alternativa, no deserto na Califórnia] do que se ela estivesse fazendo o que a gente fez”, confessa a mãe. “Encaretei? Talvez.”

Pergunto para Vania Toledo se ela vê possibilidade de uma nova era de ouro das festas brasileiras: “Quero estar viva para ver. Se você souber de alguma, inclusive, me chama?”.