10.07.2018  /  17:05

Ivete: “diálogo e um pouco de estresse” no casamento, vozes que ouve e sempre obedece, a vida de mãe de três… Vem!

Ivete Sangalo nos bastidores do The Voice || Créditos: Juliana Rezende

Ivete Sangalo está de volta – e agora é pra valer, “full capacity” mesmo. Já assumiu seu lugar na nova temporada do “The Voice”, da Globo, e planeja as comemorações de seus 25 anos de carreira. No meio disso tudo, as gêmeas Helena e Marina e Marcelo, ainda pequeno, para administrar – fora o marido. “O segredo para manter o casamento é uma vida fogosa”, entrega. “É preciso haver diálogo e um pouco de estresse”. Tempera a relação, né, Veveta? Bom, a cantora conversou com a gente sobre todos esses assuntos e mais: vozes que ela escuta e que emanam coisas boas, situações em que ela sai na rua e esquece que é famosa e o grande equívoco que as pessoas cometem quando perseguem os holofotes. “Artista não se faz em série. Você não vai fabricar outra Ivete”. Ah, a baiana também falou abertamente sobre não ter voltado – por enquanto – ao seu peso pré-gestação. Vem ler, item por item! (por Michelle Licory)

Casamento duradouro

“O segredo para manter o casamento é uma vida fogosa… E ter uma comunhão do que a gente quer. Quando você encontra uma pessoa que ama, compartilha semelhanças de sonhos e expectativas. E quando tem amor, o tempo passa e você não percebe. E aí chegam os filhos, consolidadores da relação. Em toda casa, em todo relacionamento: em um casamento que quer ser duradouro é preciso haver diálogo e um pouco de estresse, discordâncias. A rotina, honestamente, não me incomoda. Sou muito caseira, sou da rotina. Necessário é ter respeito. Respeito gera admiração, um convívio bom. E apesar da gente viver junto, cada um tem sua vida, sua rotina, seus interesses muito particulares. No meio dessa caminhada, tem os pontos de intercessão, o amor, o interesse de estar junto, os filhos. E tudo que cerca os filhos é uma rotina que aproxima. É o máximo”.

“Filho não espera, marido não espera. Cocô espera”.

“Divisão de trabalho no cuidado com os filhos? Que loucura! Quem faz o que? Que pergunta é essa?”, brinca Ivete, dando a entender que ela concentra tudo, em tom de brincadeira. “Não, meu marido está ótimo porque vê minha agonia. Já isso de dividir a atenção entre os filhos… Eu tinha um filho único e foram 8 anos e meio de dedicação exclusiva pra ele. Aí de repente, mais duas. E é aquele amor! Você quer participar de tudo que está rolando com as duas ao mesmo tempo e não é possível. Você fica: ‘meu Deus, quero trocar as duas ao mesmo tempo, quero botar as duas pra dormir’… Tem que fazer um planejamento. Aí o pai entra e o Marcelo também é maravilhoso. E é avó, tia… A casa fica uma loucura. Mas não tem coisa melhor. Marcelo sempre teve uma vida de muito amor e muita atenção, então ele não é uma criança carente. Quando as irmãs chegaram, ele viu aquilo como um presente, como um plus. Mas ele se impõe. ‘Mãe, quero jogar futebol com você agora’. Ele não envolve elas na discussão da minha atenção pra ele. Não fala ‘pô, as meninas’. Mas eu entendo a mensagem e como todas as mães de muitos filhos, tenho que me dividir. Tenho que ficar com ele, tenho que ficar com elas, tenho que ficar com o pai, eu vou desmaiar, eu preciso fazer cocô. Gente! É o dia inteiro com vontade de fazer cocô. Quando todo mundo dorme, o sinal vem… Pode ser agora? Vamos jogar esse panda pop… Emoções à flor da pele. Falo assim porque sei que todas as mães vão se identificar. Filho não espera, marido não espera. Cocô espera”.

Marcelo: talento sem pressão

“O Marcelo vê aquela rotina dentro de casa, músicos incríveis circulando.E ele ouve tio Carlinhos Brown desde a barriga… Pari ele com uma música de Carlinhos chamada ‘Cachorro Louco’. Fiz uma playlist e na hora que ele veio estava tocando ‘olha o cachorro louco’… Pensei: meu Deus do céu, o menino vai vir da pá virada. E não deu outra. É um Carlinhos mini. E Brown é um ídolo pra mim… Tio Carlinhos foi almoçar lá em casa, ele ainda era pequenininho, pegou um bongô e começou a batucar… E Brown viu nele um potencial, mas eu não supervalorizei isso, não fiquei: “meu Deus, olha isso!’ Falei, ‘ah, que legal’… Aí ele larga o bongô, vai para o futebol, pula na piscina… Não fico em cima falando olha a bateria. Meus pais não fizeram isso comigo. Eu tinha uma liberdade de escolha muito grande. Só fui entender que queria ser cantora grandona já, quase mulher, no final da adolescência. Não é uma preocupação, é mais prazeroso. E no meio disso o Marcelo gosta de outras coisas, de velejar, pescar… Seria muito louco da minha parte fazer alguma coisa tendenciosa. Isso não é educação, é pressão. Tudo que ele se dispõe a fazer, eu estimulo e participo. E reitero aquela dedicação dele”.

“Não posso cobrir a cabeça e descobrir os pés”

É de Ivete a música de abertura da nova novela da Globo “O Tempo Não Para”. E atuar, como fez em “Gabriela”? Sente vontade? “Agora não dá… Vou comemorar 25 anos de carreira gravando DVD. Tem sido uma carreira maravilhosa, vitoriosa, posso falar com a boca cheia. Não é uma análise de quem está de fora. É uma análise minha mesmo. Tenho muita sorte no desempenho dessa vida musical minha. E é massa, uma coisa que gosto de fazer. Então não é um trabalho. Trabalho é o deslocamento, faz e desfaz mala… Já o contato com a música, com o público, isso tudo é uma sorte da zorra que tive. E aí quero comemorar. Vai ser em dezembro, em São Paulo. E pra fazer isso com excelência e com o amor que gosto, não posso ter tantas outras coisas atreladas porque agora tenho muitos filhos. Não posso cobrir a cabeça e descobrir os pés. Tem que ter equilíbrio. Estou tendo reuniões sobre o DVD nos intervalos do ‘The Voice’… Vai chamar ‘Experience’ porque serão vários momentos, também pré e pós gravação. Serão experiências, uma tentativa de trazer para os fãs uma delícia nova, embora a gente já se conheça muito. Será uma roupa nova, mas quem veste é a mesma pessoa. Será em São Paulo porque é um centro de encontro do país inteiro. Na Bahia, eu tenho o Carnaval. Tenho uma presença exclusiva na minha terra. Mas tenho fãs no Brasil inteiro”.

E os convidados? “Só conto depois dos ingressos todos vendidos”

“Tudo tem que vir de uma espontaneidade, uma emoção. No DVD de Trancoso, calhou de eu não conseguir me desvencilhar das crianças do ‘The Voice Kids’ e quis eternizar aquele encontro. Mas não é uma carta marcada. Não gosto de nada premeditado, como um joguete mercadológico. Vai ter participação no DVD ‘Experience’, mas só conto quem depois dos ingressos todos vendidos. Os convidados vão pra cantar, dividir comigo a emoção. Não pra vender…”

Sucesso x talento e a importância de não virar “um produtão”

Perguntamos sobre o “The Voice” não produzir carreiras meteóricas. “Até na carreira de um artista ja consagrado, não existe nada meteórico. São pequenas etapas. Você não atropela, ou então vira uma máquina, um produtão mesmo. A gente precisa de tempo, de maturar aquilo, compor, gostar, estar preparado. O sucesso não pode ser pelo olhar do outro, e sim por um olhar íntimo. Às vezes, escuto: ‘Ivete, quando você não era ninguém’ [para se referir ao antes da fama]… Nada disso, a gente era alguém… Determinar o sucesso através de muitos números, ou preconceitos, preceitos… Isso só atrapalha a gente. Às vezes a sua música ter X downloads, aquilo já te alimenta. Já está bom para aquele artista. Qual é o grande equívoco? Com arte, a gente não padroniza absolutamente nada. Um carro se faz em série. Artista não se faz em série. Você não vai fabricar outra Ivete. As diferenças é que incrementam a gente. São diferentes movimentos… Fez ‘The Voice’, quando sair tem que pipocar, tem que gravar com fulano, fazer tal coisa, aparecer… Será que é isso? Será que o sucesso desse artista já não é estar pisando naquele palco, realizando algo?”

Sobre esquecer que é famosa

“Às vezes eu esqueço. Isso é maravilhoso. Passo uma semana dentro de casa, fazendo as coisas. Aí saio na rua, vou pegar meu filho na escola, entro no carro, começo a ouvir umas buzinas… E penso: será que passei sinal vermelho, estacionei em lugar errado? Aí vem alguém e grita: É aí, Ivetona, uhu’… E eu lembro. Muitas vezes acontece isso comigo. Encontro umas pessoas que falam coisas, tem uma enxurrada de amor e chego em casa pensando ‘que loucura, nunca planejei isso’… E outras coisas vão acontecendo fora do meu controle. Coisas que não têm nada a ver com empresário, equipe… Quando o Homem quer, ele organiza e vai. Eu penso isso. Tem muitas boas cantoras no Brasil. O fator sorte e o privilégio… Estou sempre contemplando isso. E dou risada, me divirto, fico emocionada… Você transforma a vida da pessoa com uma música ou uma frase que nem disse com aquele objetivo… Tem coisas que não são da nossa alçada, que caminham junto com a gente e vão te guiando”.

Vozes boas no ouvido: “Obedeço sempre”

Como assim, Ivete? “Às vezes parece que estou ouvindo: ‘Fale isso, faça assim’. E vou só dizendo: continua falando, não desliga. Obedeço sempre, são sempre coisas boas. E tem sempre assim também… As pessoas falam: ‘Ivete te adoro, fui num show seu não sei onde e você cantou não sei o que’… Aquilo também vai gerando uma energia. Tem muita gente que ora por mim, e que fala ‘ai, ela está linda, eu gosto tanto dela’… Vai juntando, vem aquela bola [de vibrações boas] e bate em mim. Quando eu vejo, estou me sentindo, assim, uma espaçonave. Sinto mesmo. E tem dias também que você não sabe onde está, de onde vem, pra onde vai…”

Quilos extras da gravidez: quem se importa?

“Percebeu que não estou me incomodando com dieta? Tem opiniões mais esclarecidas que a minha que podem até mudar meu conceito, mas pra mim a dieta não pode ser um impedidor de felicidade. Tem que ser algo natural… Agora isso de ‘coma mingau, coma milho’… Isso é esparro, viu? O leitinho da amamentação já está lá, na natureza. E nas regiões do mundo que não tem milho? O leite materno está mais ligado ao emocional, só não pode ser uma mãe desnutrida. Aí vai ser ruim pra você em vários aspectos. Não vai ter nem leite, nem atenção, nem amor pra dar. Vai estar sob um estresse absurdo. Acredito em saúde. Já me deparei com situações da estética estar impecável e os resultados serem terríveis. Assumo minha condição de lucidez sobre a minha vida. Sou saudável e vaidosa dentro de um limite. Quero estar linda, sem barriga e tal – mas se isso não é possível no meu tempo, a barriga fica aqui e espera até a hora dela sair, ou não. Isso é um casulo. O tempo vai dar conta disso. Nós mulheres sabemos: se você acha seu cabelo lindo, do joelho não gosta… Cada um tem sua melhor parte. Ninguém tem todas as partes, não existe isso. A gente fica buscando essas coisas pra sair da monotonia…”

Se conselho fosse bom… “Vira uma roda de negócios, e isso não pode”

“Se for pra dar um conselho, falando burocraticamente de uma carreira, a palavra é responsabilidade. Aliás, com qualquer coisa na vida. Especialmente quando você está no seu melhor momento, a responsabilidade tem que ser ainda maior. A gente tende a achar que quando está numa boa, pode jogar pra cima. Pelo contrário: é aí que o bicho tem que pegar. Não gosto nunca de pensar que toda minha atitude de trabalho na música é favor. Isso é um pensamento muito equivocado. O artista achar que chegou lá pra fazer um favor. É uma troca. Comercialmente falando, ele recebe um cachê, está assumindo um contrato. Você tem responsabilidade sobre aquele acordo. Pode até ser de graça, pode ser dinheiro, pode ser a roupa que você vai usar. Isso é um conselho: não fugir nunca da responsabilidade do seu trabalho. Tem essa confusão, né? ‘Sou artista, posso chegar a hora que eu quiser, quero tantas coisas no camarim’… Não é assim. Você não tem um inimigo do lado de lá. Tem alguém que está fazendo as coisas acontecerem junto com você. Do ponto de vista emocional, por mais talento que você tenha, se você não tiver carinho com o público e buscar no público o olhar que te alimenta… É muito contraditório: você quer que o show esteja cheio, com as pessoas cantando suas músicas, e não quer dar nada em troca? Sendo que, naquela troca, você já se abastece pra outra empreitada? Não troca hoje, não troca amanhã, nem depois. Começa a desdenhar daquilo, uma hora vai sentir falta. Não tem coisa mais gostosa pra um artista que um público olhando pra ele, cantando a música dele. Não sei se é porque sou muito exibida, gosto de saber que estão olhando pra mim e retribuir. A pessoa tomou banho, comprou ingresso, foi até lá pensando em você e você é fuleiro? Aí vira uma roda de negócios, e isso não pode”.