20.09.2017  /  10:50

Instituto Moreira Salles abre na Paulista e convidados discutem “cura gay” e censura à arte

A vista do Instituto Moreira Salles || Créditos: Bruna Guerra

A espera acabou e nessa terça-feira a nova filial do Instituto Moreira Salles abriu as portas para mais de 500 convidados em plena Avenida Paulista, em São Paulo. E foi uma inauguração que formou fila de mais de um quarteirão no sentido da rua da Consolação – lotação máxima, deixando uma curiosidade no olhar de quem passava apressado pela calçada sem entender bem o que estava acontecendo ali.

Foi uma noite e tanto, marcada pela euforia do novo CEP e também pelos caminhos que o país anda trilhando quando o assunto é arte – e se o Brasil se questiona sobre o futuro da cultura, o novo endereço parece estar disposto a ajudar nesse tópico, oferecendo oito andares de puro conteúdo. Houve um momento, por volta das 21 horas, que o fluxo de pessoas nas escadas que davam acesso aos andares superiores do prédio era tanto que subir e descer era tarefa quase impossível.

O instituto inaugurou com três exposições de peso. A primeira, “Os americanos + Os livros e os filmes”, de Robert Frank, é inédita no Brasil e traz 83 fotografias, uma das poucas séries completas da obra do fotógrafo. Em uma sala abaixo é possível se encantar com “Corpo a corpo”, um recorte da produção brasileira contemporânea, com Bárbara Wagner, Garapa, Jonathas de Andrade, Letícia Ramos, Mídia Ninja e Sofia Borges. E por fim “The Clock”, uma videoinstalação com 24 horas de duração, composta por milhares de cenas de cinema e televisão que fazem referência ao horário do dia – e o melhor é que no fim de semana o espaço manterá a sala aberta a quem quiser assistir ao vídeo completo que tem duração de um dia inteiro. Além disso o instituto ainda conta com biblioteca, cinema e teatro.

Um dos mais disputados da noite, João Moreira Salles, documentarista e conselheiro do instituto, subia e descia as escadas entre as salas de exposições, cumprimentava amigos e esbanjava simpatia. Sobre o cancelamento da exposição “Queermuseu” em Porto Alegre, se limitou a dizer que ‘dentro do Instituto todas as formas de arte são bem-vindas’. O papo nas rodinhas era só esse e os cochichos sobre o assunto podiam ser ouvido de longe – todos queriam comentar.

Para a galerista Marcia Fortes, da Fortes D’Aloia & Gabriel, o que aconteceu foi uma afronta. “Isso é um retrocesso muito grave, e não é porque aconteceu só em Porto Alegre. Isso já está chegando aqui em São Paulo, está em todos os lugares e precisamos bater de frente. A única forma disso parar é protestar, protestar sempre”, conta ela, que puxou o coro de outra polêmica que tomou conta do país na última semana: a concessão da liminar que abre brecha para que psicólogos ofereçam a terapia de reversão sexual, conhecida como ‘cura gay’, e chegou eufórica na companhia de amigos e com um pedaço de papel estampado no peito com frases irônicas sobre homossexualidade. “Trouxe uns 30 papéis recortados com diversas frases, como ‘Lá em casa todo mundo é gay’, ‘Sempre fui gay’ e ‘Eu sou gay desde criancinha'”, contou ela, que distribuiu tudo em poucos minutos e depois era possível ver pra lá e pra cá pessoas com as tais tags, todas presas de improviso, como no botão de uma camisa ou afixada num broche.

A noite quente contou com um, digamos, respiro tropical. O chef Rodrigo Oliveira, do Mocotó, abriu no térreo do IMS o restaurante Balaio, que segue o mesmo conceito de comida brasileira que o chef oferece em seu já famoso restaurante da Vila Medeiros, e na noite de estreia animou os convidados com refrescantes caipirinhas de cachaça feitas com morangos ou maracujá, além de viciantes dadinhos de tapioca com melaço e pimenta – era impossível comer um só. Ah, e bowls de pipoca com pururuca, um dos clássicos do chef e que precisavam ser repostos a todo instante.

Em destaque a gentileza do staff do instituto, que conta até com refugiados da África – um deles, por exemplo, fazia questão de dar boa noite em português com sotaque a todos que subiam o primeiro lance da escada rolante rumo à recepção no quinto andar. Detalhes que fazem toda diferença e nos sentir em casa. Quem passou por lá? Em nossa galeria abaixo, todos os cliques! (Por Matheus Evangelista)