20.08.2016  /  9:00

Ibope não assusta Luiz Fernando Carvalho, diretor de “Velho Chico”. À entrevista!

Gabriel Leone, Camila Pitanga e Renato Góes em ensaio de Velho Chico com Luiz Fernando Carvalho ||  Créditos: Divulgação/Revista J.P
Gabriel Leone, Camila Pitanga e Renato Góes em ensaio de Velho Chico com Luiz Fernando Carvalho || Créditos: Divulgação/Revista J.P

Ao mesmo tempo em que se considera um “amador” por ter feito poucas novelas, o diretor Luiz Fernando Carvalho, de “Velho Chico”, cita Picasso e Visconti para explicar seu processo de criação

Por Paulo Sampaio para a Revista J.P de agosto

Logo no começo da entrevista, concedida em um enorme galpão erigido a um canto do Projac – o megaestúdio da TV Globo -, o diretor Luiz Fernando Carvalho dá uma mostra do que ele chama de “mundo misterioso que há dentro de todos nós e que precisa ser revelado pelos nossos tentáculos criativos”.  Abre a tampa de um piano Niendorf e, aparentemente entregue ao momento, produz uma sequência de sons. Pergunto desde quando ele toca piano. Ele diz que não toca. Que nunca aprendeu. Aquela seria uma experiência, digamos, mnemônica, ligada não só ao que ele já viveu, mas também a sua expectativa em relação ao que virá. Compreende-se desde o início que a conversa com ele vai ser, por assim dizer, etérea. “O ponto central do meu trabalho é a memória. Não só a minha. Pode ser a sua, a dos atores, a do câmera, as das pessoas que estão no galpão do figurino, dos cenários, a do marceneiro. E essa memória inclui o que virá também. Eu falo de uma memória espiritual, que abraça tudo, recolhe e faz disso um caldo forte que nos revela. Quando você pensa no cubismo do Picasso, ele não nasceu assim, em um momento isolado. Tem toda uma perspectiva para trás e para frente, e a transformação de pinturas clássicas em algo novo.”

Diretor da polêmica “Velho Chico”, atual saga das 9, Luiz Fernando Carvalho é um fervoroso defensor do não limite quando se trata de explorar o desconhecido: “Repetir fórmulas que deram certo é algo que eu não consigo. Fico enjoado,  me sinto mal, o corpo não vai”. O resultado é que, goste-se ou não dele, Carvalho criou um estilo inconfundível. Em “Velho Chico”, os closes são epidérmicos, a expressão dos atores é intensificada por tomadas nas quais as veias pulsam, o suor escorre, o olhar é extraído do meridiano mais sublime da alma. A atmosfera avermelhada remete ao Recôncavo Baiano, onde se passa a trama, e embora o clima seja de época, não parece haver compromisso em relação ao tempo e ao espaço. De repente, no meio do sertão, Iolanda (Christiane Torloni) aparece ao volante de um Mini Cooper, dando à cena o efeito de uma colagem.

A audiência está dividida. Tem a parte que gosta da novela “plasticamente”, elogia a cor, a prosódia, o figurino e os takes grandiosos; e a que trocaria uma boa parte do efeito cinematográfico por uma história mais ágil. Reclama que “não acontece nada”. O diretor acredita que o grave problema de educação que atinge o Brasil não impede o telespectador de apreciar algo diferente daquilo a que está acostumado. Carvalho aposta na honestidade de suas intenções quando fala do alcance que uma novela pode ter: “Para chegar a um resultado estético, você passa pela ética, pelo caráter do trabalho, por aquilo que você está querendo dizer, pelo que está oferecendo”. Ele afirma que, se hoje tem a possibilidade de escolher os trabalhos que faz e também a forma de conduzi-los, é graças a uma “tomada de posição”: “Eu não trabalho desse jeito por teimosia; faço porque é como sei fazer. Eu simplesmente não conseguiria industrializar meu processo criativo”. Mas será que é possível manter essa independência criativa em uma indústria tão atrelada aos índices de audiência? Pelo que se sabe, quando o ibope vai mal, mocinhas viram megeras do dia para a noite. Carvalho mergulha os dedos no teclado do Niendorf. Toca. Para. Olha para um ponto fixo. Fala. Diz que acompanha as pesquisas, mas isso não o deixa nervoso. Afirma que sabe que os números de “Velho Chico” não estão nas alturas, mas ainda assim se mantêm dois pontos acima das duas novelas anteriores (“Babilônia” e “A Regra do Jogo”, que tiveram um resultado decepcionante). “Se eu pensar em ibope no estúdio, a cena não sai.”

Tocador de Rabeca

A seleção dos atores que trabalham com ele é operada “olhos nos olhos”. Funciona assim: quando descobre alguém que pode fazer determinado personagem, ele manda chamar para uma conversa. Não existe uma explicação racional para a escolha. Não é só beleza, garra ou vontade de agradar. Depende da confluência entre a memória (no sentido colocado anteriormente) dele e a da pessoa. “Eu compreendo a necessidade da indústria de lançar rostinhos novos, mas eu só sei trabalhar com artistas genuínos. O cara não precisa ser ator, pode ser tocador de rabeca: se em uma audição eu perceber que ele tem condição de viver o papel, coloco na novela na maior felicidade.” Ele cita o caso da sanfoneira Lucy Alves, a Luzia de “Velho Chico”, lançada no reality show “The Voice”.

E Luiza Brunet? Como teria se dado a percepção do talento dela para fazer a prostituta Madá? A resposta ajuda a entender o processo de seleção. Trata-se de uma estoica prospecção de brilho recôndito: “Eu percebi nela um certo cansaço de ser Luiza Brunet pessoa jurídica, de falar o vocabulário do mundo exterior, das aparências. Alguma parte de Luiza tinha outra fome, a de viver um personagem que não fosse o produto Luiza Brunet, com todos os ganhos e dores que esse nome traz”. LB desperta reações extremas em LFC (como ele assina os estudos publicados nestas páginas). “O (cineasta Luchino) Visconti, que eu admiro muito, dizia que quanto mais a gente se aproxima do belo, mais se aproxima do trágico. Eu acredito nisso também.”

Grandes Surpresas

Antes do começo das gravações de uma novela, Carvalho submete o elenco a um período de experimentação. É quando todos vão ficar íntimos da história. Tem exercício, laboratório com pesquisa de campo, aula de sotaque e toda busca de referências que possa enriquecer o resultado. Para trabalhar com o diretor, não basta ter a compreensão racional do personagem, estar com o texto na ponta da língua e vestir bem o figurino. Ele cobra coragem para ir “além do clichê”: “O processo de preparação revela grandes surpresas. Pessoas que você achava que não dariam conta se revelam. Outras desistem  antes de começar, porque estão inseguras, se acham incapazes de fazer. Mas como o trabalho é também de encorajamento, eu não vou deixar que ninguém se boicote. Tem gente que está bem, mas não se permite, e então começa a falhar”. Os atores reagem aos anseios do diretor no mesmo tom. Carvalho mostra no celular uma mensagem de voz de Camila Pitanga, em resposta a outra que ele mandara elogiando uma cena. “Luiz, eu estou aqui lendo sua mensagem como se fosse gol, como se fosse Réveillon, festa de aniversário, uma porção de coisas boas da celebração da arte do encontro. Você falou disso na nossa primeira conversa, e é exatamente isso que eu acho que estou conquistando nesse trabalho, a liberdade, e a liberdade criativa é uma dádiva.”

Durante toda a entrevista, Luiz Fernando Carvalho, 56 anos, 1,97 metro de altura, mantém no rosto óculos de sol (“é de grau”, explica). O figurino nesse caso é relevante, porque o personagem é “casualmente” vaidoso. Calça de linho cor de areia “bem velhinha”, camiseta de malha rosa, jaqueta de náilon esverdeada com listras finas em ondas e desenhos de uvas, tênis de bico fino em forma de sapato (não é sapatênis) e meia preta com florões coloridos. Com três décadas de TV, ele se diz um “amador” em seu ofício. “Fiz pouquíssimas novelas (“Renascer”, 1983, “Rei do Gado”, 1996, “Esperança”, 2002, “Meu Pedacinho de Chão”, 2014) e sempre trabalhei com o Benedito Ruy Barbosa (autor de “Velho Chico”), que é um fabulador de grandes personagens. Nossa relação é tão harmoniosa que é como se fôssemos coautores. Compartilhamos vitórias e erros.” Ruy Barbosa, por sua vez, põe o diretor nas alturas: “O Luiz Fernando faz uma leitura fantástica do meu texto. Não erra nunca. Parece que sabe exatamente como eu imaginei a cena. E, quando sente necessidade, a gente fala, troca. É uma relação que eu prezo demais”.

O galpão em que o diretor recebe J.P para a entrevista é o mesmo em que ele realiza boa parte do trabalho preparatório com os atores. Com 170 m2, pé-direito de 10 m, o TVliê (TV + ateliê) é palco de todo tipo de atividade que promova no elenco o amálgama que ele tanto valoriza. A comemoração do centésimo capítulo de “Velho Chico”, por exemplo, foi com uma grande festa ali. Luiz Fernando Carvalho é o único diretor da Globo contemplado com um espaço com aquelas dimensões. Ele explica que foi uma solução racional para uma necessidade antiga. Diz que, no passado, costumava alugar galpões pela cidade para trabalhar o elenco. Será que os outros diretores da emissora sentem ciúme da regalia? “Não tenho a menor ideia.” Uma da principais características de Carvalho é essa, foco.