08.04.2020  /  16:37

Há anos recluso, Jean-Luc Godard faz ‘live’ de quase duas horas direto de sua casa na Suíça onde cumpre quarentena

Jean-Luc Godard em ‘live’ nessa semana // Reprodução Instagram

Recluso há anos, Jean-Luc Godard surpreendeu o mundo ao participar nessa terça de uma ‘live’ no Instagram, que durou quase duas horas. Em conversa com Lionel Baier, diretor da ECAL (Escola de Arte de Lausanne), Godard falou de cinema, linguagem, literatura, pintura, palavra e ciência em tempos de coronavírus, sem sair de sua casa em Rolle, na Suíça.

Pioneiro da Nouvelle Vague e considerado um dos melhores cineastas de todos os tempos, o francês de 89 anos, antes de iniciar o bate-papo, fumando seu bom charuto, checou o visual e ajeitou o cabelo olhando sua imagem na tela de seu iPhone. Muito cool. Começou a entrevista lamentando o cancelamento dos tradicionais torneios de tênis de Wimbledom e Roland Garros, que acompanhava pela TV. Questionado sobre o que estava vendo na TV ultimamente, ele confessou que não assiste muito à programação: “Mas às vezes vejo se passa algum filme antigo que quero rever…”.

E seguiu com seus comentários e divagações, bem ao estilo de seus filmes… Sobre o trabalho do fotógrafo francês Pierre Bonnard (1867-1946), analisou: “Pintar com o pincel não é a mesma coisa que escrever (com um lápis), é outra forma de expressão. A linha da escrita (faz mímica) diz quase nada. A sala escura (de revelação de fotos) é como a caverna do Platão, a gente fixa a realidade sobre o papel.”

Sobre a imprensa escrita, o cineasta criticou o diário “Le Monde”, “que não é muito bem escrito”, mas admitu ler outros veículos franceses: “Libération e o Charlie Hebdo, coisas assim. É o bastante”, resumiu Godard. “Muitos jornais são repetitivos, dão a mesma notícia o tempo todo.”

Ao falar de ciência, Godard lembrou de seu pai, que era médico, e comparou o trabalho do cineasta com o de um pesquisador científico, que “só regressa à linguagem depois de encontrar (os resultados de suas investigações)… o cinema é um pouco como um antibiótico.” E relembrou do passado, admitindo sentir falta das conversas sobre cinema com colegas da ‘nouvelle vague’, como Eric Rohmer, Jacques Rivette e François Truffaut, todos já falecidos.

Segue a conversa na íntegra, disponível por enquanto só em francês: