25.05.2018  /  17:04

Gloria Maria e seu cabelo liso: “Black power já deu. Racismo não é uma questão estética”

Gloria Maria, passado e presente || Créditos: Reprodução

Parece impossível que o racismo saia de pauta um dia. Nessa terça-feira, Ana Maria Braga foi acusada nas redes sociais de “black face” [quando um branco se “fantasia” de negro de forma caricata] ao aparecer – junto com seu Louro José – de peruca black power para falar sobre penteados afro. Na hora de dar as dicas para o tipo de cabelo… “Eu tô procurando aqui alguém (dentro do estúdio) e eu acho que vou fazer no careca (risos). Não tem ninguém com o cabelo… por que será? (risos)”

A Globo tem sido duramente criticada pelo pequeno número de atores negros em “Segundo Sol”, novela das nove que se passa em Salvador, conhecida como a cidade mais negra fora da África… No fim do ano passado, William Waack foi retirado da bancada do Jornal da Globo [e depois teve seu contrato com a emissora encerrado] após o vazamento de um vídeo no qual ele diz “é coisa de preto” para um convidado, fora do ar. E por aí vai… Ninguém melhor que Gloria Maria, estrela negra da casa, para comentar sobre a representatividade do negro na emissora. Vem ler sobre isso e muito mais! (por Michelle Licory)

“Sou a prova”

De forma genérica, Gloria nos disse: “Não acho que a Globo esteja revendo conceitos. Ela está acompanhando o tempo. Estou lá há quase 40 anos. Sou a prova de que não é uma questão de rever conceitos. No jornalismo, temos eu, Dulcineia [Novaes], Heraldo [Pereira]… Claro que tem que ter mais negro e isso a emissora está batalhando. Tem que ter mais pretos porque é essa a cara do Brasil. Não somos um país da Escandinávia”.

“Se a gente se preocupar com o cabelo, vira uma ação fútil”

Quem ousaria dizer que Gloria não é “empoderada”, certo? Mas a jornalista usa o cabelo liso, o que não é bem visto por alguns grupos ativistas. “Sou negra, nasci negra… Eu usava black power antes de ser moda. Fiquei 20 anos de black power na TV. Agora, pra mim, black power já deu. Sou do contra. Agora que todo mundo usa, não uso mais. Faz parte da minha essência. Acho que cada um usa o que quer. Quem sou eu pra dizer o que as pessoas devem usar? Mas também não admito que as pessoas digam o que eu devo usar. Combater o racismo não é uma questão estética. É uma questão de alma. Ninguém é discriminado pela aparência, e sim pela cor da pele. É isso que tem que acabar. Se a gente se preocupar com o cabelo ou com a roupa, vira uma ação fútil. A gente está discutindo desigualdade racial.O buraco é muito mais embaixo”.

“A única coisa que a gente não tem mais é corrente nas pernas”

E apesar de famosa e bem-sucedida… “São 130 anos [da abolição da escravatura no Brasil] e as coisas continuam iguais. A única coisa que a gente não tem mais é corrente no pescoço, nas pernas, nos braços. Mas tem corrente na alma. A gente tem que lutar para existir, para sobreviver. Acabou a escravidão, mas o racismo continua. Sofro preconceito todos os dias, mas deixo a vida me levar. Racismo é cafona e além de tudo é crime. Eu fui a primeira a denunciar racismo como crime, a primeira pessoa do país a usar a lei Afonso Arinos para se defender”.

“Elas sabem que existe um mundo branco e um mundo negro”

Como proteger suas duas filhas do preconceito? “A gente viajou para a África e elas se sentiram representadas. É que aqui no Brasil a gente vive num mundo branco e elas se encontraram num mundo negro. Foi a primeira vez, na verdade… Foi uma coisa bem forte que marcou. Elas querem voltar todo ano. Estudam em escolas de elite branca. Claro que aquele racismo implícito, que é a cara do Brasil, elas sofrem todo dia. Vão sofrer mesmo, é inevitável. Só que eu não fui preparada pra isso, minha família não tinha cultura pra isso, mas preparo elas. Elas sabem que existe um mundo branco e um mundo negro”.

“As coisas que eu sofri, elas vão sofrer também porque a barra é pesada”

“O racismo não vê questão social, nem bandeira. Às vezes são tão racistas que nem sabem que são. Tem que combater o racismo como um todo, e não em setores: não é assim que se ganha uma guerra. Eu continuo até hoje sofrendo preconceito. E tudo que sofri, passo pra elas. Acho que minhas filhas nunca vão ser presas na rua porque correram e são negras. Mas as amigas brancas vão achar elas diferentes… Não me preocupo só com as minhas filhas entrando em um restaurante, preparo elas para se defenderem em todos os lugares, em qualquer situação. Ninguém avisa: agora vou te discriminar. Elas podem estar entrando comigo em um hotel luxuoso e de repente alguém dizer: aqui vocês não entram [foi numa situação assim que Gloria mandou chamar a polícia, no passado]… As coisas que eu sofri, elas vão sofrer também porque a barra é pesada”.

“Estou em um espaço que luto todo dia pra manter, muito mais do que eu lutei pra conquistar”

Sobre ser vista como referência de beleza, Gloria responde: “É porque eu vivo de verdade. Vivo pra mim, para os meus amigos e minha família. Não estou preocupada com o que as pessoas pensam. Estou em um espaço que luto todo dia pra manter, muito mais do que eu lutei pra conquistar. Então acho bacana que nessa altura da minha vida as pessoas achem que sou um ícone de beleza, com a pele legal. Nunca fiz plástica, mas tenho minhas fórmulas. Estive no Sri Lanka agora e aprendi com as mulheres de lá, que têm a pele linda: elas pegam o finalzinho do mamão papaia, raspam, botam limão siciliano e passam na pele. Estou passando todo dia. Eu sou um conjunto da obra. Quero ficar bem, enquanto eu puder. Vou empurrando com a barriga. Mas não vou forçar a barra nunca [para manter a aparência jovem]”.