07.01.2021  /  20:44

Geração Z: Audino Vilão explica o que a invasão do Capitólio incitada por Trump tem a ver com Maquiavel

Começamos nossa primeira semana de 2021 com um evento que marcou para sempre a história da democracia norte-americana: apoiadores do presidente Donald Trump invadindo o Capitólio em Washington, motivados pelo discurso insistente de Trump alegando que as eleições haviam sido fraudadas.

Num ato antidemocrático sem precedentes, manifestantes de extrema direita invadiram a sessão que reunia parlamentares do governo para a contagem oficial de votos do presidente eleito Joe Biden, quebraram janelas, portas, enfrentaram a polícia, e até uma mulher (apoiadora ferrenha de Trump) foi morta com um tiro no peito.

Contudo nosso intuito é analisar as atitudes do presidente Donald Trump, que se alinha perfeitamente com os escritos de quase 500 anos do famoso filósofo Nicolau Maquiavel, no livro “O Principe”. Trump insiste em um discurso conspiracionista desde a apuração das urnas nas eleições presidenciais no final de 2020, quando foi derrotado por seu oponente, Joe Biden. O discurso se baseia na crença de que houve fraude em colégios eleitorais de Estados chave onde costumava ter grande número de apoiadores. O ainda presidente norte-americano alega que foi reeleito e passa o tempo atacando seu adversário e a mídia desde então.

O que chama a atenção é justamente a estratégia que Maquiavel deixa implícita no seu livro, o poder a qualquer custo, se manter no poder passando por cima de quem for necessário, e até poderíamos ligar a famosa frase que não é dita por Maquiavel, mas ligada a suas ideias, que ‘os fins justificam os meios’.

Trump está armando um barraco na democracia, com discursos ilógicos e conspiracionistas apenas para usar seu eleitorado como massa de manobra e continuar no poder. A frase “os fins justificam os meios” diz respeito justamente a isso. Donald Trump não se importa de usar mentiras, teorias falsas e outras ideias delirantes como meio de permanecer no poder.

No ato da invasão ocorrido no último dia 6 de janeiro, Trump dizia: “Eu sei da sua dor, nós tivemos uma eleição que foi roubada de nós, e todos sabem, especialmente as pessoas do outro lado”. Podemos claramente ligar os conceitos de Virtu e Fortu de Maquiavel a esse discurso. Virtu de Maquiavel não é a mesma Virtu de Aristóteles. Virtu no príncipe diz respeito a sagacidade, a ser esperto, a ter uma mente implacável e ser ligeiro em suas atitudes, mas atentemos ao conceito de Fortu.

Fortu se refere a fortuna, não fortuna relacionada à dinheiro, mas fortuna na sorte, relacionada com a mística “Roda da sorte”. A sorte para um governante é um fator decisivo para governar, a sorte de cair num bom reinado, ou a má sorte de ser derrotado numa eleição. Pense comigo, a Fortu é uma coisa que não controlamos diretamente, mas podemos reverte-la a nosso favor através da Virtu. Trump tem o péssimo azar de perder democraticamente, mas como ele poderia usar sua Virtu para reverter essa má sorte? Jogando todos contra sua oposição!

Alegar fraude nada mais é que uma forma de manobrar a massa contra seu opositor. Para um governante, seu povo é a maior força a ser usada contra seu opositor, e foi justamente isso o que fez, e resultou na vandalização da democracia. Perceba que em momento algum Trump se mostrou insatisfeito com os protestos e apenas quando pressionado pede para que cessem, porém reforçando o mantra de que as eleições foram roubadas, fomentando o sentimento que vem da alienação desse discurso.

O ato de convocar um protesto, de incitar atos antidemocráticos nada mais é do que trazer sua má Fortu a seu favor, contudo, o tiro saiu pela culatra.

Maquiavel escreve isso num contexto de um rei com poder absoluto, em que o poder é maciço e direto. Numa democracia, o resultado é o que temos hoje, a derrota de Trump e sua imagem totalmente queimada. (*Audino Vilão, filósofo, cursa História na universidade e é youtuber – no insta @audinovilao e no Youtube)

Play para entender mais sobre  Maquiavel!