09.08.2018  /  11:35

Frances Reynolds conta por que continua investindo no Brasil, e muito

Anani Sanouvi e Frances Reynolds || Créditos: Juliana Rezende

Na noite dessa quarta-feira, Frances Reynolds abriu a sua casa do Jardim Botânico, no Rio, para um “cocktail preview” da residência artística do argentino Matias Duville no Instituto Inclusartiz, comandado por ela na cidade. Matias é um importante nome contemporâneo no seu país, com obras no acervo do MoMA [em Nova York] e do Tate Modern [de Londres]. Com curadoria do mexicano Pablo Léon de la Barra, ele recriou paisagens cariocas em desenhos com argila, e os trabalhos devem ser expostos ano que vem na galeria Luisa Strina, que o representa no Brasil. Bom, fato é que é difícil falar em arte no Rio sem esbarrar no nome de Frances.

“Hoje ele é meu ex-marido, mas continuo sendo carioca por paixão”

A gente foi perguntar por que ela, que é argentina, investe tanto no Brasil. “Sempre acreditei nesse país, um lugar onde se pode fazer coisas importantes. Amo o Brasil. Casei com um brasileiro [José Roberto Marinho], me apaixonei aqui. É o pai dos meus filhos, que são daqui também. Hoje ele é meu ex-marido, mas continuo sendo carioca por paixão. Quando chego nesse país, uma parte do meu coração se ilumina. É uma delícia. A gente não pode só ficar criticando quem não faz as coisas. É complicado, tem a parte da política, que pode ser aprimorada, mas todo país tem problemas. Na vida, temos que nos desvencilhar do que não presta e focar em coisas produtivas e construtivas. E no Brasil é, sim, possível fazer coisas muito interessantes. Temos muitas pessoas de talento. Vamos em frente. Criticar sem fazer, não. Vamos trabalhar unidos, com flexibilidade, cabeça aberta, e com ética. A arte brasileira sempre foi reconhecida como muito importante dentro do contexto global”.

E mais: “Me sinto muito orgulhosa por ajudar a cultura no Brasil. A cultura é que vai promover uma mudança nessa população. É uma plataforma neutra de diálogo: não pode ser uma coisa elitista, e sim democrática, acessível a todos”. É por essa bandeira que Frances trabalha.

“Essa vai ser a terra dos meus netos”

E por que foi embora? “Por conta da educação dos meus filhos [em Londres], que estão com 24 e 26 anos. Mas eles estão mais independentes, voando por si só. Amam o Brasil e vão voltar a morar aqui, depois de adquirir essa experiência internacional, para aplicar aqui. Essa vai ser a terra dos meus netos, depois que os dois casarem. Minha filha estuda ciências do meio ambiente e meu filho, mídia e comunicação. Ele veio, inclusive, fazer um estágio de verão nas empresas da família”.

A gente quis saber se o sobrenome Marinho a ajudava a conseguir parcerias mais facilmente. “Encarecia as coisas… Brincadeira… Na Europa [ela é patrona do Tate Modern, da Royal Academy of Arts e membro do conselho da Serpentine Gallery e do museu Pompidou], sempre fui conhecida por Reynolds. Não muda”.

“Comprar arte para investir… Acho melhor outro tipo de investimento”

Também pedimos dicas para quem quiser começar a investir em arte. “Comprar arte para investir… Acho melhor outro tipo de investimento porque com arte você tem que sentir. Tem fundos de investimento que investem só em arte, mas obras de arte têm picos altos e baixos e um trabalho com um preço muito caro não quer dizer que seja uma obra de arte boa. Na minha opinião, tem que ter conteúdo crítico. Um colecionador precisa viajar, conhecer, estudar, ir a palestras de museus, faculdades, se conectar com críticos, e assim desenvolver seu próprio olhar. No Rio, tem o Parque Lage, por exemplo, com aulas e palestras relevantes. E com arte é preciso paciência. Um artista não é uma máquina, um robô. Tem um processo de maturação. E é um ser humano, pode entrar em crise, em uma fase de introspecção…”. (por Michelle Licory)