SAO PAULO, SP, BRASIL, 17-02-2014: Retrato do professor Renato Janine Ribeiro. (Foto: Leticia Moreira/ PODER)

Ex-ministro de Dilma, Renato Janine Ribeiro analisa cenário político daquele período e de hoje

10.02.2018  /  9:00

Retrato do professor Renato Janine Ribeiro || Créditos: Letícia Moreira/ Revista PODER

Por Fábio Dutra para a Revista PODER de dezembro

Intelectual público pelo menos desde os anos 1990 – e ele não acredita que haja outra forma de se dedicar ao pensamento –, quando se tornou professor titular da Facul-dade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), a notória FFLCH (lê-se fefeléxi, em bom paulistanês), Renato Janine Ribeiro deu vários passos em direção ao centro do ringue desde então, tendo se tornado um dos mais celebrados – e às vezes contestado – professores do país. Não por acaso foi aclamado pelos defensores da ideia de que Dilma Rousseff deveria formar um ministério de notáveis para enfrentar os ataques perpetrados pelo deputado Eduardo Cunha e sua trupe já na aurora de seu segundo mandato como presidente, em janeiro de 2015. Nomeado ministro da Educação em 6 de abril daquele ano em um momento particularmente tenso – seu antecessor, Cid Gomes, havia sido exonerado por Dilma após, dedo em riste, chamar Cunha, recém-empossado presidente da Câmara dos Deputados, de achacador –, Janine Ribeiro não decepcionou: não houve vivalma, da extrema esquerda à extrema direita, que tenha questionado a sério a sua envergadura moral ou intelectual para o cargo.

Entretanto, a alegria dos defensores do mandato de Dilma Rousseff durou pouco: a Lava Jato apertou, a oposição dominou o Congresso e, pressionada, a presidente acabou por ceder aos que acreditavam que o fisiologismo poderia salvar seu gabinete. Bye, bye, notáveis: Renato Janine Ribeiro foi rifado para que em seu lugar fosse empossado Aloizio Mercadante, já que sua presença na Casa Civil desagradava aos parlamentares do PMDB e era necessário achar um novo espaço para alocá-lo. A estratégia dessa receita ministerial do fim de setembro de 2015 – sim, Janine Ribeiro não ficou nem seis meses no cargo – deu com os burros n’água e o governo caiu mesmo assim. “Eu assumi quando o impeachment era possível e saí quando era provável”, relembra. Mas se engana quem pensa que ele tenha saído pessoalmente magoado com a presidente, de quem fala com absoluto respeito. Não perde nunca o cacoete de observador autônomo, sendo capaz de analisar os motivos de sua exoneração e da queda do governo sem ressentimentos – e sem se abster de apontar os erros de Dilma Rousseff e do PT durante o processo e nem mesmo os da direita, mormente o PSDB, que teria ido com muita sede ao pote do “terceiro turno” e acabou ficando um pouco perdido no caminho, dando a faca e o queijo ao PMDB, que aboletou-se com tudo no poder.

UM SEMESTRE NO PLANALTO

Ainda para este primeiro semestre, o professor prepara um livro sobre seus meses como ministro e os grandes desafios de tentar implementar o Plano Nacional de Educação num momento de ajuste fiscal – que o obrigou a fazer cortes duros em programas do governo como o Prouni (bolsas de estudo em universidades privadas), o Fies (empréstimos para o custeio de cursos de graduação em instituições particulares que começam a ser cobrados após a formatura, com juros subsidiados) e o Ciência Sem Fronteiras (bolsas de estudo no exterior). Por conta dessas medidas, Janine Ribeiro sofreu intensos ataques, principalmente de seus pares da academia. “Dialogamos ao máximo, mas houve imaturidade desses grupos, muito comum nas faculdades públicas, aliás: não havia dinheiro, estávamos de mãos atadas”, esclarece.

No fim de 2016, enquanto amadurecia as memórias dos tempos palacianos, Janine Ribeiro compilou os melhores artigos que publicou durante os três anos em que foi colunista do jornal Valor Econômico, o que gerou um livro publicado no fim do ano passado pela Companhia das Letras sob o título A Boa Política – Ensaios sobre a Democracia na Era da Internet. Ali fica claro o pendor do pensador para algum tipo de independência – pode-se ver até alguma busca pela impossível neutralidade – em artigos em que critica os dois lados do espectro político por terem se “perdido” du-rante as mudanças bruscas das últimas décadas do século passado (“A direita tem os meios, a esquerda os fins”) ou mesmo questiona os rumos do partido que posteriormente o convidaria ao ministério (“Como o PT perdeu a imagem ética”). Sempre doce no dizer e professoral no conteúdo prenhe de referências, o livro é daqueles de leitura fluida e rica para quem quer entender o caos político em que o Brasil se encontra, tal qual a aula de um bom professor.

Aos 68 anos, pai de dois jovens adultos (um universitário e um aluno do último ano do ensino médio), Renato Janine Ribeiro parece não estar nem perto de desacelerar. Apesar do jeito calmo e da erudição, que poderiam dar a impressão de mais idade, o vigor físico e a disposição para falar com frescor de garoto do nada alentador cenário político nacional levam a crer que ele mal tenha passado dos 50 para quem o conhece pessoalmente. As duas horas em que conversou com PODER em sua casa, no pacato bairro da Aclimação, na zona sul de São Paulo, só não se tornaram cinco ou seis porque ele viajaria para Portugal ainda naquela tarde do fim de 2017. A seguir, os principais pontos da conversa.

“Eu assumi o Ministério da Educação quando o impeachment de Dilma Rousseff era possível e saí quando era provável”

Ribeiro sofreu intensos ataques, principalmente de seus pares da academia. “Dialogamos ao máximo, mas houve imaturidade desses grupos, muito comum nas faculdades públicas, aliás: não havia dinheiro, estávamos de mãos atadas”, esclarece.

No fim de 2016, enquanto amadurecia as memórias dos tempos palacianos, Janine Ribeiro compilou os melhores artigos que publicou durante os três anos em que foi colunista do jornal Valor Econômico, o que gerou um livro publicado no fim do ano passado pela Companhia das Letras sob o título A Boa Política – Ensaios sobre a Democracia na Era da Internet. Ali fica claro o pendor do pensador para algum tipo de independência – pode-se ver até alguma busca pela impossível neutralidade – em artigos em que critica os dois lados do espectro político por terem se “perdido” du-rante as mudanças bruscas das últimas décadas do século passado (“A direita tem os meios, a esquerda os fins”) ou mesmo questiona os rumos do partido que posteriormente o convidaria ao ministério (“Como o PT perdeu a imagem ética”). Sempre doce no dizer e professoral no conteúdo prenhe de referências, o livro é daqueles de leitura fluida e rica para quem quer entender o caos político em que o Brasil se encontra, tal qual a aula de um bom professor.

Aos 68 anos, pai de dois jovens adultos (um universitário e um aluno do último ano do ensino médio), Renato Janine Ribeiro parece não estar nem perto de desacelerar. Apesar do jeito calmo e da erudição, que poderiam dar a impressão de mais idade, o vigor físico e a disposição para falar com frescor de garoto do nada alentador cenário político nacional levam a crer que ele mal tenha passado dos 50 para quem o conhece pessoalmente. As duas horas em que conversou com PODER em sua casa, no pacato bairro da Aclimação, na zona sul de São Paulo, só não se tornaram cinco ou seis porque ele viajaria para Portugal ainda naquela tarde do fim de 2017. A seguir, os principais pontos da conversa.

DILMA

“A Dilma de fato teve problemas para dialogar com os políticos, ela não era experimentada e a própria personalidade dela fazia com que fosse ainda pior a comunicação com parlamentares da base aliada, muitas vezes com demandas que nada tinham a ver com temas relevantes do país. Eu mesmo fui recebido em audiência por ela apenas três vezes, era difícil o acesso. Tudo isso gerou mágoas de gente que se sentia diminuída, ela sofreu muita vingança pessoal, teve até ministro que se licenciou para retomar o mandato de deputado e votar no impeachment contra a presidente (caso de Mauro Lopes, do PMDB de Minas Gerais, ministro da Secretaria da Aviação Civil à época). Mas é preciso dizer que, além de comprometida com o país, houve muita injustiça e perseguição com a Dilma, como em relação a ela ter problemas de formação por alguns tropeços ao falar em público. Posso dizer que a presidente é cultíssima, profunda conhecedora de literatura e vários outros temas.

PSDB

“O processo de derrubada do governo fez com que o partido se perdesse um pouco. O PSDB tem projeto de país, é o preferido do mercado, mas tem gente preocupada com o social, que sabe governar. Ao acreditar que poderia ser sócio do PMDB em um novo governo, foi ingênuo e acabou passado pra trás. Como também o foi o chamado mercado, que acreditava no comprometimento de Michel Temer com o ajuste fiscal e com as reformas, e ele não está entregando. O tipo de política que aquela ala do PMDB sabe fazer não tem o perfil de desagradar e enxugar. E tem o dilema Aécio Neves, que agora está em apuros com as diversas acusações, mas que durante o processo eleitoral já havia mostrado pouca capacidade de liderança, deixando-se levar por emoções das massas mais do que apontando o caminho. O Alckmin tem se posicionado bem, é ponderado e tem história, não é um aventureiro. Caso consiga ser candidato, leva o debate para um ponto mais sereno. Claro que ele tem problemas, fez pouco em várias questões sociais em São Paulo e definitivamente não controla a própria polícia, mas é uma opção mais sensata para o partido do que nomes inexperientes como João Doria. Doria, que chegou com extrema popularidade, parece fora do páreo, preocupou-se muito com a comunicação, mas pecou ao achar que poderia se gabaritar para uma disputa nacional traindo Alckmin, seu padrinho, logo de partida. Ele atentou pouco à própria administração, que apresentou poucas realizações até agora, e se meteu em polêmicas desnecessárias.

PT

O partido no poder diminuiu sua força nas ruas e perdeu grande parte do discurso, o que é natural, já que o pragmatismo de um governo muitas vezes contradiz discursos mais populares. E os escândalos levaram o PT a perder o monopólio da ética que teve durante os tempos de oposição, o que também enfraqueceu sua popularidade. Agora fora do poder tenta aglutinar a esquerda em volta de si e da candidatura de Lula, mas isso não tem sido tarefa fácil. O fato de seguir fazendo política, com alianças e composições, mesmo depois da ruptura do impeachment também enfraquece nas ruas a tese de golpe de Estado que o partido defende. E tem a batalha jurídica para viabilizar a candidatura, sendo que há forças que realmente querem que ele se torne inelegível. Isso é preocupante. Temos uma eleição pela frente em que claramente as forças se unem ao redor de Lula ou contra ele, e impedi-lo de participar mancha a disputa como um todo e prorroga a crise política. Impedir uma candidatura tão popular assim no tapetão nos colocaria no patamar de nações de democracia muito frágil e recente.

EDUCAÇÃO

Há agora a falta de recursos, o que impede que uma série de projetos seja levada adiante. Mas o foco deve ser na educação básica. Há problemas profundos. Na edu-cação superior evoluiu-se muito nos últimos anos. No governo Lula, particularmente, houve um foco muito grande tanto na criação de vagas em instituições públicas quanto no auxílio ao ingresso de jovens em escolas privadas. Talvez até em excesso, com pouca preocupação com a qualidade em alguns casos, o que gerou problemas de faculdades sendo fechadas pelo MEC e o governo tendo que resolver a situação de milhares de alunos. A Dilma deu atenção ao Pronatec, algo salutar, já que boa formação não é apenas educação superior. O Brasil tinha o ensino médio dividido em normal (segundo grau geral que habilitava os graduados a lecionar para crianças até a atual quarta série), clássico (foco em humanas) e científico (foco em ciências e matemática) até a reforma de 1967 feita pelos militares, por exemplo. É uma questão de escolhas. A atual mudança do ensino médio sem diálogo, com uma canetada, pelo ministro da Educação, José Mendonça Filho, até poderia ser feita, mas não dessa maneira. E claramente o foco foi tirar filosofia, sociologia etc. do currículo, o que tem viés político e não muda muito do ponto de vista dos recursos. Mas o grande problema ainda está na educação básica, onde avançamos muito pouco.