18.06.2020  /  9:00

Estilista das celebs, Michelly X fala sobre sua trajetória e dificuldades de ser mulher trans: “Xuxa foi minha inspiração e agora é minha amiga”

Michelly X é a estilista das celebridades / Crédito: Instagram

Se você gosta de Xuxa, Ivete Sangalo, Anitta e outras famosas, com certeza já viu as criações de Michelly X. A estilista de 47 anos é a queridinha das celebs e nome por trás do visual de Fernanda Lima no programa ‘Amor & Sexo’, das peças usadas por Ivete em praticamente todos os shows e de Xuxa, sua grande musa. “Sou fã da Xuxa desde criança. Gosto de dizer que, se hoje sou estilista, foi por ela”, conta.

Autodidata, aos 21 Michelly começou a ganhar dinheiro com seus trabalhos. Também durante essa época, ela, que nasceu Alexandre, se descobriu gay e depois mulher trans. Para a paulistana, o apoio da família foi fundamental: “Quando comecei nessa profissão, eu era gay e drag, mas meus pais, irmãos e tios sempre me apoiaram”, revela.

A seguir, Glamurama entrega mais detalhes sobre a vida e criações de Michelly X, uma das mulheres que merecem a nossa reverência nesse mês em que se celebra o orgulho LGBTI+.

G: Como tem sido a sua quarentena?
MX: Tudo parou, né. E não tenho ideia de quando shows, festas e eventos vão voltar. Mas estou fazendo outros trabalhos. Estamos criando moletons, blusas e também estou fazendo calcinhas trans. É um tipo de calcinha com corte diferente para transexuais não operados conseguirem esconder o órgão masculino de maneira mais confortável.

G: Esse é o mês do Orgulho LGBTI+, então não poderíamos deixar de falar sobre esse assunto. Quando você se descobriu trans?
MX: Desde criança. Como minha mãe deixava eu usar o cabelo grande, achavam que eu era uma menina, e ela dizia que eu não gostava. Na adolescência me assumi gay, mas tinha muito preconceito comigo mesmo. Naquela época, achava que era feio e errado ser homossexual, tinha vergonha, mas com o tempo fui me aceitando. Aos 21 passei a me vestir como drag, que foi quando conheci meu marido, com quem sou casada até hoje, e só depois me entendi transexual. Foi um processo. Nos anos 1980, as pessoas falam de homossexuais com muito ódio, então o receio existia.

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G: E como foi o período de transição?
MX: Fiz aos poucos. A mente de uma mulher trans sempre é feminina, mas o corpo não. A pessoa precisa tomar hormônio e/ou fazer cirurgias plásticas. Eu tive problemas com hormônio, fiquei com síndrome do pânico, então fui fazendo procedimentos estéticos. Hoje existem clínicas especializadas nisso. Então coloquei prótese e fui fazendo pequenas mudanças. Lembro que a primeira coisa que fiz foi tirar a barba com laser e um dia peguei o metrô vestida de mulher. Desde então me assumi perante todos.

G: Como é lidar com a transfobia? Que impacto isso teve na sua vida pessoal e na carreira?
MX: Se isso aconteceu comigo, foi muito pouco ou não percebi. Tive muita sorte. Todos os lugares onde trabalhei me aceitaram muito bem, inclusive na TV Globo e até mesmo quando ia na casa de clientes, por mais tradicionalistas que fossem. Na minha família também não teve isso. Claro que uma coisinha ou outra aconteceu, mas nada agressivo.

G: Você acha que o preconceito está diminuindo ou ainda tem muito a ser feito?
MX: O mundo está mais aberto, mas ainda há preconceito. Para o gay, tende a ser um pouco mais fácil a entrada no mercado de trabalho, mas para trans não, é bem mais difícil. É preciso abrir a cabeça e nos apoiarmos mais. Tem uma história que sempre conto, o Clodovil, mesmo sendo gay, tinha um pouco de preconceito comigo, mas depois que nos conhecemos viramos melhores amigos e eu até trabalhei com ele. Por isso, é preciso mudar a maneira de pensar sobre as trans.

G: Como analisa a sua trajetória até aqui, envolvendo o fato de ser transgênero?
MX: Eu tive muita sorte e apoio da minha família. Quando comecei nessa profissão, eu era gay e drag, mas meus pais, irmãos, tios sempre me apoiaram muito e foi esse carinho que me ajudou. Existem muitas situações que a família não aceita, expulsa de casa e a pessoa acaba parando na prostituição para sobreviver. Então esse apoio foi fundamental para que eu tivesse essa trajetória de sucesso. Hoje, recebo mensagens de meninas trans que cursam moda e sempre falam que sou referência. Sempre falo para elas: não podemos desanimar. Vamos levar muito ‘não’ na vida, a maioria só por sermos trans, mas temos que perseverar.

Glamurama: Quando decidiu que seria estilista?
Michelly X: Comecei aos 16 anos fazendo roupas para o grupo de dança que eu participava. Depois de um tempo, com 21 anos, passei a fazer programas de TV e foi nesse momento que comecei a realmente ganhar dinheiro. Fui estilista de uma apresentadora de programa infantil dos anos 1990 e sabia que era ali que eu gostaria de estar. Além disso, fazia vestidos de festas, formaturas e até mesmo noivas. Sou autodidata, aprendi tudo sozinha. Claro que cometia erros no começo, então analisava bem os defeitos para melhorar.

G: Qual o trabalho mais desafiador de sua carreira?
MX: Acho que o ‘Amor & Sexo’. Eu assino os figurinos da Fernanda Lima e é uma loucura. Normalmente me passavam o tema só quatro dias antes e eu tinha que correr para que a peça que normalmente demoraria 30 dias, ficasse pronta em quatro. Sem contar que as peças eram sempre muito lúdicas, então eu e a minha equipe, com seis pessoas, virávamos a noite bordando, aplicando cristal. Foi um dos momentos mais desafiadores, além do Carnaval, claro. O pessoal sempre deixa a fantasia em cima da hora, são sempre vinte peças para fazer em um mês, mas eu nunca digo não.

G: Além disso, você se tornou a pessoa por trás de praticamente todos os figurinos de show da Ivete Sangalo. Como é trabalhar com ela?
MX: É incrível, ela me dá bastante liberdade e confia no meu trabalho. Para os looks da Ivete, sempre penso em peças bonitas e funcionais, já que ela dança muito. Em alguns momentos, pego algumas criações que já fiz e transformo para a ocasião. Mas o que eu me preocupo mesmo é com o conforto. Já vi diversos casos em que as cantoras reclamam que a peça machuca durante o Carnaval ou em shows. Isso não pode acontecer, tem que ir além da estética.

G: Você já disse que a Xuxa é a sua grande inspiração, e hoje você é estilista e amiga pessoal dela. Imaginou que isso um dia aconteceria?
MX: Sou fã da Xuxa desde criança. No programa, ela usava uma roupa diferente por dia e isso me inspirava demais. Na maioria das vezes, tentava recriar os modelos. Gosto de dizer que, se hoje sou estilista, foi por ela. Por isso também que tenho o “X” no meu nome, é uma homenagem. E eu sempre acreditei na força do pensamento e na ação e reação, para o bem e para o mal. Se você se esforça e faz tudo certinho, consegue chegar lá. Então imaginava que aconteceria, só não sabia quando. Ao longo dos anos, fui me esforçando e hoje trabalho com a pessoa que sempre admirei. Para mim, o segredo é esse. Não tem religião nem nada disso, é ação e reação, física quântica.

G: E como é trabalhar e conviver com Xuxa? Qual é a dinâmica de vocês?
MX: É muito divertido, a Xuxa é muito palhaça. Falamos bobeira o tempo todo, brincamos uma com a outra. Mas claro que ela é muito profissional e exigente. Ela já usou todas as marcas do mundo, então o trabalho precisa ser muito bem feito. Uma das coisas que mais admiro na Xuxa é sua fidelidade.

G: Quais os cuidados na hora de montar um figurino para Xuxa?
MX: Ela gosta de peças mais estruturadas, e a Xuxa é vegana, então o couro é sintético e todos os outros tecidos que parecem de animais, são fake. Hoje em dia a moda tem muitas opções e isso é incrível. Também gosto de fazer meu trabalho assim, sem exploração animal.