Especialistas apontam saída positiva para crise: “Não há que falar de sombras e sim de luz”

06.04.2020  /  12:22

Futuro melhor || Créditos: Reprodução

Uma chance para a humanidade construir um futuro melhor. Sim! Em contraste ao pessimismo inevitável gerado pelo bombardeio de más notícias relacionadas ao novo coronavírus, há outra forma, mais otimista, de encarar o momento. No artigo a seguir, o médico psiquiatra Pedro de Alvarenga e o consultor de empresas Miguel Sauana avaliam as revoluções tecnológicas, comportamentais, sociais e, principalmente, psicológicas, que podemos tirar da crise.

SOBRE SOMBRAS E LUZES

“Cesse tudo que a musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta” 
(Lusíadas, Camões)

Tempos sombrios… Mas não há que falar de sombras e sim de luz. Então, nada de perder tempo com números oficiais ou com estimativas de técnicos ou de políticos, no poder ou fora dele. Tampouco sugerimos computarmos as vítimas diariamente, pois antes de virarem estatística para vender notícia ou argumento para conseguir votos, é de pessoas que estamos falando, seres humanos amados. Afinal, o que sabem os matemáticos e epidemiologistas, se passam metade da vida a projetar números e a outra a explicar porque seus cálculos falharam.

Sim, é verdade que a história da humanidade é repleta de períodos sombrios. Em especial as guerras, regionais ou mundiais, ceifando milhões de vidas; ou as cruéis guerras civis, nas quais cidadãos do mesmo sangue se massacram mutuamente. Tragédias infelizmente frequentes até a primeira metade do século passado. Por aqui, lembramos os quilombolas combatendo seus senhores de engenho, a tímida força expedicionária lutando contra o nazismo na Itália, o levante Constitucionalista de 1932, a Guerra do Paraguai, e até os conflitos gerados pelo polêmico período de ditadura militar. Revisitando esta lista, muitos diriam que no Brasil, em parte poupado das grandes tragédias recentes resultou um povo algo “amolecido”. No entanto, mais notável do que guerras históricas é a luta dos brasileiros, no presente, para conseguir o “pão de cada dia” e escapar da violência endêmica, típica dos países em desenvolvimento. A essas batalhas diárias, soma-se agora uma outra, crua e tangível. A pandemia, como qualquer guerra, traz tristeza e faz vítimas. Mas, em contraste ao pessimismo inevitável gerado pelo bombardeio de más notícias, há outra forma, mais otimista, de encarar este difícil período. Vejamos.

Historicamente, as situações limítrofes despertam revoluções tecnológicas, comportamentais, sociais e, principalmente, psicológicas. A primeira destas revoluções já é visível. Estamos investindo mais em alternativas para educação, medicina e business à distância. Ferramentas eletrônicas nos proporcionarão, progressivamente, mais conforto e eficiência. A medicina promete, em tempo recorde, oferecer novos tratamentos, vacinas e diagnósticos de ponta. E, seguramente, ainda há mais por vir.

A segunda revolução, a do comportamento, também já começou. Idosos, muitas vezes casmurros e que já maldiziam a vida, por serem mais vulneráveis ao vírus estão isolados no campo ou na praia, mas desejando, mais do que nunca, simplesmente sobreviver. Justo! Lafontaine, em sua fábula “O velho lenhador e a Morte”, sutilmente faz uma paródia sobre o risco de desdenharmos a “indesejada das gentes”. Jovens, muitos amortecidos pela limitada ambição pessoal advinda do excesso de conforto ou fartura, cujas aspirações até ontem, eram defender uma árvore ou glamurizar a revolução francesa, têm, agora, um motivo nobre para lutar e se orgulhar. Sim, podem ser verdadeiros heróis de sua época apenas aquietando-se, evitando reuniões e “baladas”. Aos que pensam que é difícil mudar seu comportamento, lembrem-se que estarão salvando milhares de vidas!

A terceira revolução, no campo social, reside no fato de que a doença é democrática, não pede licença nem discrimina classe ou contracheque. Somos, desde as caravelas, uma sociedade desigual. A pandemia serviu, entretanto, para nos mostrar o quanto estamos interligados, dependentes da cadeia de atividades profissionais envolvendo todos, desde o mais humilde trabalhador ao empresário de sucesso. No plano nuclear, casais aprendem a cozinhar e limpar a casa; pais descobrem como ensinar as lições para os filhos, que, por sua vez, têm de arrumar as suas camas e lavar a louça. Que enorme aprendizado para as classes mais abastadas! Sem contar a permanente torcida para que as mercadorias não deixem de chegar aos mercados (nada mais democrático que a fome). No plano coletivo, há uma virtual unanimidade de que não podemos deixar as classes menos favorecidas entregues à própria sorte. Já não há distinção entre esquerda e direita, ou entre liberais e intervencionistas, quando o assunto é entregar mínimas condições de sobrevivência a quem não sabe de que forma tirar o sustento para o dia seguinte.

Finalmente, a última conquista (talvez a mais impactante) acontece no campo psicológico. O risco do vírus nos faz refletir sobre a frivolidade e o narcisismo, tão arraigados ao nosso quotidiano. Aquele post “ostentação” nas redes sociais, as taças de champanhe no iate, as compras em lojas de grife, as frases do tipo: “Gente, olha meu novo corte de cabelo!”. Tudo Isto perde completamente o sentido. Que cesse imediatamente essa “antiga musa”, desprovida de valor! Despencamos de nossos egos inflados, máscaras caem, ficamos menos defensivos e buscamos, na ausência da proximidade física, a conexão emocional com nossos amigos e familiares. Percebemos que gastávamos muito tempo vivendo “de mentirinha”. A ameaça invisível traz medo e desamparo, sentimentos primitivos compreensíveis e até mesmo saudáveis, neste momento. Advém a sensação de angústia frente ao futuro e, finalmente, a consciência de que somos impermanentes.

O que realmente importa, agora e sempre, é permitir que “outro valor mais alto se alevante”. Reconhecer que amamos profundamente muita gente, inclusive nós mesmos! Importa aflorar os sentimentos de solidariedade com quem está vulnerável pela doença ou pela consequência igualmente maléfica da carestia. Importa reconhecer a generosidade do profissional no front do hospital ou do prestador de serviço que vem à nossa casa, se expondo ao risco para tratar e cuidar. E esse sentimento de viver, abraçar e nos redimir (ainda que virtualmente) é que nos manterá vivos, física e emocionalmente.

Sobrevivamos à esta pandemia. Ao contrário das guerras históricas entre estados, com soldados contra soldados, nesta estamos todos no mesmo barco. Há um inimigo comum nanométrico, mas muito poderoso. Depois que a poeira baixar, quando olharmos para trás, com certeza nos descobriremos mais resilientes. Não nos permitamos, apenas, esquecer estes tempos. “2020, never forgotten!”

Pedro de Alvarenga é médico psiquiatra

Miguel Sauan é consultor de empresas