Emílio Dantas na J.P || Créditos: Zô Guimaraes

Emílio Dantas posa para a J.P, fala sobre o poder da arte, fuga da autopromoção e novos talentos: “Chay Suede é um moleque sensacional”

17.07.2018  /  12:04

Emílio Dantas na J.P || Créditos: Zô Guimaraes

Bem diferente do jeitão despojado de Beto Falcão, cantor de axé que interpreta em Segundo Sol, Emílio Dantas posa de terno na sala de casa e mostra que o amor pela música é só um dos elos entre ator e personagem

Por: Caio Barbosa para a revista Joyce Pascowitch / Styling: Ale Duprat

Protagonista de “Segundo Sol”, na pele do cantor de axé Beto Falcão, o ator (e também cantor) Emílio Dantas é aquilo que parece: um boa-praça. Aos 35 anos, conserva o jeitão de garoto, desapegado de bens materiais e com generosidade no olhar. O talento para gerir as próprias finanças é inversamente proporcional ao que demonstra nas telas e palcos, onde ganhou sete prêmios nos últimos sete anos.

“Sou péssimo para lidar com dinheiro, mas acho que sou bom para fazer amigos. Então, quando eu preciso de alguma ajuda no tema, chamo logo o [ator] Bruno Gagliasso, que é meu vizinho e entende tudo disso, ou o Rafa Cardoso, que, além de atuar, ainda administra dois restaurantes (Massa e Puro, na zona sul do Rio). Eles têm talento para lidar com dinheiro. Eu, não”, brinca Dantas.

A autopromoção também não é sua praia. O ator chega a ficar constrangido ao ter de falar de si próprio. Mas se sente poderoso ao lidar com a arte. “Até porque é a única coisa que sei fazer (risos). E nem sei se faço bem. Mas pintar, cantar, tocar ou atuar é algo que me preenche, me empodera, pois também entendo a arte como um instrumento de transformação social. E um caminho para a gente tentar mudar o presente e o futuro, pois imagina o que será do país com um Bolsonaro da vida a nos comandar”, isola o ator, referindo-se ao deputado e pré-candidato a presidente Jair Bolsonaro, o pesadelo de boa parte da classe artística brasileira.

Emílio Dantas na J.P || Créditos: Zô Guimaraes

Sua principal vaidade é o esmero com a profissão. Perfeccionista é um adjetivo que não combina tanto com seu jeito de ser, mas Dantas faz questão de ter controle sobre tudo o que faz como artista. “Minha vaidade é essa. Controlar tudo o que está ao meu redor para que possa exercer minha atividade na sua plenitude, da melhor maneira possível”, diz.

O Beto Falcão da vida real também não se considera uma pessoa consumista. Mas, apaixonado por música como o seu personagem, se dá ao direito de algumas extravagâncias, de vez em quando. “Nunca tive grandes desejos de consumo. Desde moleque, queria apenas ter dinheiro para ir ao show que eu quisesse, onde quer que fosse. Por exemplo: em 2016, rolou o Desert Trip Festival, num deserto da Califórnia, com Stones, Paul, Bob Dylan, The Who, Neil You¬ng. Claro que fui. Não perderia por nada ou dinheiro nenhum. Mas, fora isso, sou feliz com o que tenho”, garante.

Dentre as coisas que tem, os ternos bem cortados como os usados neste ensaio não fazem parte do guarda-roupa, mas de um passado desconhecido do grande público. “Meu sonho, um dia, foi nunca mais usar terno. Pouca gente sabe, mas eu usava todo dia. Era técnico do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), e dava expediente no centro do Rio todos os dias (risos). Não quero mais essa vida, não. Só uso em ocasiões especiais, como agora, e até acho uma curtição. Mas prefiro jeans e camiseta”, confessa.

Quem apostar em grifes de surfe ou streetwear, no entanto, está enganado. Dantas nunca teve uma marca de roupas preferida. Uma das calças que mais gosta foi comprada numa lojinha para mulheres, na Argentina. “Estou numa onda de estampa porque gosto de viver o que tenho que trabalhar. E como o Beto Falcão tem um estilo muito forte, eu procuro incorporar. Foi assim que conheci a turma do Meninos Rei, de Salvador, que faz um trabalho incrível e tenho curtido muito”, conta o ator.

A rotina de gravações na Bahia tem proporcionado a Dantas, um fã de Raul Seixas, novas descobertas, como conseguir parar de roer unha, uma antiga mania. “Agora só roo as da mão esquerda, por causa do personagem”, diverte-se. E também novas amizades, que pelo visto vieram para ficar. “Essa turma que está chegando é incrível. Chay Suede é um moleque sensacional. Luisa Arraes, a mesma coisa. Uma galera tão bacana, sempre a fim de ajudar o próximo, que não apenas pensa ser bom ator ou atriz, mas fazer algo pelos outros, sabe? Num momento tão ruim para o país, poder trabalhar com gente que tem esse espírito, esse astral, não tem preço. Sou fã dessa garotada”, elogia Dantas.

Emílio Dantas na J.P || Créditos: Zô Guimaraes