29.05.2021  /  9:00

Em tempos tão sombrios, o que faz você feliz? Fizemos essa pergunta a uma turma das mais antenadas… Confira as respostas!

Nunca foi tão necessário descobrir outras formas de alegria, já que o momento é tão sombrio. Nestes dias de pandemia, o que nos faz sentirmos inteiros e, por que não, felizes?

por Carol Sganzerla e Luciana Franca

ERIKA JANUZA, ATRIZ
“Nestes tempos tão difíceis, trabalhar é o que ajuda a me sentir viva. Tenho conseguido fazer minhas atividades de casa, remotamente. Estamos diante de um cenário muito duro, há pessoas que não podem ficar em casa e outras que tiveram muitas perdas. Eu sei o quanto é difícil ficar sem trabalhar. Estar ativa é me sentir viva.”

MARINA FRANCO, FIGURINISTA E STYLIST
“Estou muito destruída emocionalmente com a atual situação do Brasil, muito triste com tantas mortes, com o negacionismo assassino do governo federal. Mas ainda me sinto viva quando escuto música e me emociono e danço, quando como, quando tomo banho, quando falo com alguns amigos.”

MARIA LUIZA JOBIM, CANTORA
“Certamente a vida interior é o maior recurso nestes tempos. A literatura, a espiritualidade, o trabalho e uma boa cachoeira me deixam prontinha.”

EVANDRO FIÓTI, MÚSICO E EMPRESÁRIO
“Trabalhar com uma das tecnologias ancestrais mais transformadoras, que é a música, me faz sentir vivo. Em um cenário de muita descrença, ver que o nosso propósito, dos nossos artistas e do nosso time, está conectado diretamente com a necessidade e a urgência do que o mundo mais precisa neste momento, que é senso de coletividade, afeto e humanidade. Temos conseguido levar isso com nossos produtos e serviços, impactando não só a vida dos fãs, mas criando soluções inovadoras, disruptivas e transformadoras para todo o ecossistema do qual fazemos parte, radicalizando o senso de comunidade dentro do nosso segmento. No fundo, sinto que o nosso coletivo tem muito dos valores que precisam nortear não só o nosso mercado, mas que serão vitais na construção de um novo amanhã – quando a gente conseguir se compreender como parte da natureza e não como dono dela. Estar trabalhando com pessoas motivadas por essa transformação e ver elas mudarem suas realidades através do nosso trabalho é o que tem me motivado a acreditar que é possível.”

TAMARA KLINK, NAVEGADORA
“Andar, andar, andar. Caminhando, eu converso com esse corpo que tem aguentado valente os dias em que chove dentro, que tem me levado a conhecer novos lugares na superfície da minha pele, que tem segurado a onda e o sorriso e a coluna quase reta durante horas de zoom, meets, teams, e outros mais. Escrever, escrever, escrever. Manchando as folhas de palavras eu converso com os pensamentos, eu tomo distância, eu mapeio de onde vim, onde estou e para onde vou, apesar de tudo. Tenho feito diários por fazer, quando me lembro. E os monstros sombrios assustam menos quando viram personagens da travessia pelas páginas do caderno.”

MARJORIE ESTIANO, ATRIZ
“Busco manifestações de superação e solidariedade. Mesmo quando não se pode ajudar muito, só o gesto na direção do outro nos move em um lugar íntimo e muito sensível e nos relembra a emoção de ser humano, de agir com humanidade. Ouço histórias de superação, acompanho e tento cooperar com ações solidárias. Isso me recupera, me resgata.”

FELIPE MOROZINI, ARTISTA E ATIVISTA
“O que me traz conforto é saber que não estamos sozinhos. O que me faz sentir inteiro e vivo: ficar sentado ao sol lendo bons livros. Recentemente, li O Orangotango Marxista, de Marcelo Rubens Paiva, Meu Quintal É Maior do Que O Mundo, de Manoel de Barros (imperdível para tempos de pandemia e distanciamento social), Torto Arado, de Itamar Vieira Junior. Profundo e atual. Viajar para dentro, já que não podemos viajar para fora.”

FAFÁ DE BELÉM, CANTORA
“Esta segunda onda me pegou meio no contrapé. Eu vinha bem ano passado, superei bem, trabalhando muito, me reencontrando, descobrindo coisas novas e conversando comigo. Mas esta segunda onda eu comparo como uma aula de pilates, quando você distende um músculo que nem sabia que existia. É como se a gente tivesse cagado todo o fundo do poço e não brotasse mais nada. Aí, voltei para a terapia. Ela tem me dado suporte para atravessar este momento, me resgatado e me colocado no prumo. As pessoas sempre esperam de mim uma atitude positiva, então descobri também que é muito bom as pessoas me buscarem porque dou uma gargalhada. Cada vez mais, percebo que estamos desmontando todos os nossos arquétipos e estamos ficando mais humanos. Essa é a grande onda, o que tem me feito sentir viva, bem e inteira.”

CRISTIANA ARCANGELI, EMPREENDEDORA
“A pandemia, no primeiro momento, foi a experiência de maior antifragilidade que já vivi, porque foi a hora de parar, assustada, olhando uma crise política/econômica/financeira (tudo ao mesmo tempo, nunca tinha vivido) e decidir o que eu faria com essa situação nova. O que me motivou é que criamos vários projetos até chegar no mais bonito de todos, o Empreender Liberta, que é mais que um programa, é um movimento em que uma das plataformas promove educação empreendedora, visibilidade de qualidade, aceleração e investimento para empresas de mulheres nas comunidades. Começamos por Paraisópolis, em São Paulo, onde gravamos a primeira temporada do Programa Comunidades a Mil, que estreia no YouTube, contando a história de mulheres maravilhosas. Quando você empreende, você tem a liberdade de tomar suas próprias decisões e, principalmente, não fica refém de nenhuma situação de dependência financeira. Com isso, resolvemos não apenas um problema da base, da educação nas favelas, como também libertamos mulheres de situações em que elas poderiam estar ainda mais vulneráveis. Tudo foi muito orgânico e tenho certeza de que essa é uma boa história que eu tenho para contar da pandemia. Todo mundo tem uma boa história desse momento. Paramos para pensar, revimos nossos valores, nossa forma de se comportar em relação ao mundo e a nós mesmos, à sustentabilidade, todas as relações, aprendemos demais com todo esse desafio que estamos passando.”

JOANA JABACE, DIRETORA DE TV
“Em meio ao terror que estamos vivendo, estar com meus filhos (3 anos e meio) é o que me mantém inteira. Apesar de exaustivo, ter duas crianças em casa no momento em que estamos é bilhete premiado, é a possibilidade de relativizar um pouco a tristeza do entorno. Durante esse último ano, pude acompanhar eles crescendo e se desenvolvendo todos os dias, por todos os minutos, o que pra mim, que sempre trabalhei muito fora de casa, foi, num certo sentido, um presente.”

LUA NITSCHE, ARQUITETA
“Passei o último ano quase 100% isolada em uma casa em uma praia desconhecida e deserta. Dividi a casa com meus irmãos, sobrinhas e filhas – formamos uma comunidade com muitos conflitos, mas também muito aprendizado. O isolamento trouxe dificuldades e uma tranquilidade inédita. Sim, estamos vivendo um momento delicado, mas também não consigo afirmar que vivia uma vida menos caótica antes. Estava sempre estressada e com a sensação de nunca ter tempo para fazer de forma completa meus projetos. Neste último ano, encontrei paz e alegria voltando a desenhar à mão e podendo refletir mais sobre os espaços e projetos de arquitetura que desejo desenvolver. No ano passado li, na Folha de S.Paulo, um texto da escritora polonesa Olga Tokarczuk que traduzia um pouco da minha sensação da vivência na quarentena. Em um trecho ela diz: “Para mim, já havia um bom tempo, o mundo estava em demasia. Rápido demais, barulhento demais”. O triste é constatar não apenas as mortes, mas todas as dificuldades advindas da desigualdade extrema no Brasil. Sem dúvida, teremos que construir novas cidades, mais inclusivas, talvez menores, mas mais plurais.”