09.09.2020  /  19:00

Em tempos de empoderamento e pandemia, cabelo curto é tendência, dita expert: “Não existe mais isso de fazer só o que o homem gosta”

Letícia Colin, Maria Flor, Carla Salle e Andréia Horta com cabelos curtos by Neandro // Reprodução Instagram

Cabelos compridos, lisos ou volumosos! A brasileira é conhecida mundo afora por não abrir mão de suas madeixas, como se fossem um símbolo de feminilidade e sensualidade. Porém, esse padrão tem mudado um pouco a cada dia… Em pleno 2020, com o empoderamento das mulheres e, nos últimos meses, com a pandemia, a praticidade do cabelo curto fez a cabeça de muita gente. É como se fosse uma espécie de liberação. Essa mudança fez com que Neandro Ferreira, hairstylist que viveu 30 anos em Londres e teve como mestre ninguém menos que Vidal Sassoon, icônico cabeleireiro britânico dos anos 50 e 60, tosasse fios como nunca antes em solo nacional.

“Estou cortando cabelos como nunca, a lista está enorme. O primeiro motivo é que as mulheres passaram muito tempo dentro de casa e notaram que o cabelo mais curto é mais prático e fácil de ajeitar. Muitas também notaram que a textura natural dos fios é incrível, então chapinha e baby liss estão caindo em desuso. Elas entenderam que a naturalidade é muito bonita… ainda bem”, comemorou ele, um expert em cortes mais curtos.

Além disso, a retomada do movimento feminista fez com que as mulheres abrissem os olhos para o que realmente querem: “As mulheres sabem do que gostam, o que elas realmente querem. Não existe mais isso de fazer o que o homem gosta e o que ele espera que elas sejam. O poder da mulher não está mais na beleza bíblica, do casual longo… o poder agora está no cabelo curto”, decreta Neandro.

Atualmente no Brasil, ele estabeleceu seu QG em São Paulo, mais vive na ponte-aérea com o Rio. É que, além de atender clientes cariocas, sempre é escalado pela Globo para trabalhar junto com a equipe de caracterização das novelas e produções da emissora, criando os cabelos dos personagens. São dele cortes super copiados pelo público como o chanel curtinho de Melina, personagem de Mayana Moura em ‘Passione’, e o repicado com franja de Maria Clara, vivida por Andreia Horta em ‘Império’. Neandro também assinou os excêntricos cortes do elenco de ‘Meu Pedacinho de Chão’. Quem lembra do cabelo rosa de Bruna Linzmeyer. A seguir, confira o nosso papo com ele e anote as dicas e tendências do momento.

Glamurama: Nessa pandemia, muitas mulheres cortaram o cabelo. Ao que você atribui esse movimento dos fios curtos ou raspados entre as brasileiras, que sempre gostaram de cabelos longos?
Neandro Ferreira: Estou cortando cabelo como nunca, a lista está enorme. O primeiro motivo é que as mulheres passaram muito tempo dentro de casa e notaram que o cabelo mais curto é mais prático, mais fácil de ajeitar. Muitas também notaram que a textura natural do cabelo delas é incrível, então chapinha e baby liss estão caindo em desuso. Elas entenderam que a naturalidade é muito bonita… ainda bem. Outro elemento é o retorno do movimento feminista e a situação política. Os jovens não tem mais medo de se expressar através do cabelo. E tem a questão da higiene. Com o coronavírus, as pessoas estão lavando os fios com mais frequência.

G: Cabelo curto combina com todas?
NF
: Quando me fazem essa pergunta, sempre digo que sim. O cabelo curto, assim como a roupa, é uma questão mais interna do que externa. Não importa o tipo físico… qualquer mulher pode carregar esse look. Hoje em dia não usamos mais a expressão “não pode”. Ao contrário, pode tudo.

G: E o cabelo cacheado?
NF: As cacheadas também. Faço corte cacheado com franja, curtíssimo, com volume, sem volume. Todo cabelo é lindo e a maioria das brasileiras tem cabelo cacheado, somos mestiços, temos diversas influências. Como cabeleireiro, estudei bastante nossa história e cultura. É preciso ter esse conhecimento quando se trabalha com estética.

G: Isso tem a ver com o empoderamento feminino e o aumento da autoconfiança.
NF: Com certeza. As mulheres sabem do que gostam e o que querem. Não existe mais isso de fazer o que o homem gosta. O poder da mulher não está mais na beleza bíblica, do casual longo, está no cabelo curto. Além disso, cortes no estilo pixie são muito femininos e delicados. Esse corte foi inventado na Europa e, quando chegou ao Brasil, ganhou injustamente o nome de ‘joãozinho’, como se as mulheres ficassem masculinas com ele. Isso está ligado ao machismo. Felizmente, esse padrão está ficando para trás.

G: Você é expert em cabelos curtos. O que as mulheres têm pedido ultimamente?
NF
: Chanel de vários tipos, mas não exatamente aquele clássico. Tem chanel em camadas, com textura, com nuca gradual. Além disso, as franjas estão em alta, tanto a gráfica, que faz referência aos anos 70, como as bem desfiadas, para a mulher que querem um look mais forte.

G: Qual o primeiro personagem que você fez na Globo?
NF
: A primeira personagem foi a Cristina, de Patrícia Pillar, no seriado ‘Mulher’, no final dos anos 1990. Lembro que foi um choque porque, quando me falaram que ela seria uma médica, imaginei uma personagem com o cabelo mais escuro e um corte bem desconectado. As pessoas estavam acostumadas com a Patrícia de cabelos longos e loiros. Foi uma polêmica. Entre as personagens mais marcantes estão Melina, vivida por Mayana Moura, em ‘Passione’, e Andreia Horta, em ‘Império’. Esses cortes viraram tendência tanto no Brasil, quanto no exterior. A Clara, personagem da Bianca Bin em ‘O Outro Lado do Paraíso’, também virou assunto por causa da franja desconectada. Quando me falaram que a personagem voltaria mais rebelde, fiz uma franja no estilo Joan Jett, mas muitos não entenderam e acabei nem dando continuidade ao projeto.

G: Quais são os seus próximos projetos?
NF
: Agora estou envolvido na caracterização da Letícia Colin para a série ‘Sessão de Terapia’, com Selton Mello. Fizemos um cabelo mais escuro e pixie, bem curtinho mesmo. Ainda não foi divulgado, mas ficou incrível.

Patricia Pillar, ao lado de Eva Wilma, como Cristina do seriado ‘Mulher’ // Divulgação