Economista André Perfeito responde a pergunta de 1 milhão de dólares: Para onde vai a economia brasileira?

21.12.2019  /  12:00

Notório por suas posições contramajoritárias e preciso em suas análises, o midiático economista-chefe da Necton, André Perfeito, sentou-se à mesa com PODER para um almoço a juros baixos no qual respondeu a pergunta de um milhão de dólares: para onde vai a economia brasileira?

POR FÁBIO DUTRA E DADO ABREU FOTOS JOÃO LEOCI

“The world has gone mad and the system is broken” (“O mundo enlouqueceu e o sistema está quebrado”, em tradução livre). A frase, que sacudiu os analistas de mercado nos primeiros dias de novembro, não foi dita por um ativista vegano ou por um sindicalista comunista ou mesmo por um artista desconstruído filiado a partidos trotskistas identitários, mas por ninguém menos que Ray Dalio, fundador do maior fundo de hedge do mundo, o Bridgewater. Num mundo ocidental cada vez mais próximo de um consenso liberal – ainda que muitas vezes sem colher frutos na realidade, como no exemplo argentino –, Dalio é uma das vozes que se levantam contra algumas anomalias lógicas das economias modernas que se apresentam na forma de juros negativos (quem tem crédito pode tomar empréstimo e pagar menos do que recebeu, após a atualização dos valores) ou de montanhas de dinheiro entregues a startups que não geram caixa e muitas vezes nem têm um plano sério de como se tornarem rentáveis. Para ele, o sistema está quebrado e as consequências econômicas e sociais podem ser graves se o mundo não corrigir o rumo das coisas a partir da crise de 2008.

Nesse contexto de planeta à deriva e poucos pensadores a se debruçarem sobre a catástrofe iminente da economia dos países centrais de forma consistente, PODER recebeu André Perfeito, economista-chefe da corretora Necton, notório por suas posições contramajoritárias (bastante ativo nas redes sociais, ele abriu o voto em Ciro Gomes antes das eleições de 2018, em plena Faria Lima) e por acertar acima da média nos últimos tempos, o que deixa os clientes felizes o suficiente para não questionarem seu autodeclarado keynesianismo.

Apesar do nome moderno e da comunicação meio millennial – ativa nas redes, com relatórios com títulos irreverentes como “política monetária sobre gelo fino” e linguagem informal e agradável, e onipresente no WhatsApp com listas de transmissão dando feedbacks em tempo real sobre as posições da corretora a respeito do noticiário econômico –, a Necton é a fusão de duas empresas tradicionais, a Spinelli e a Concórdia, dos mesmos fundadores da Sadia, a família Furlan. Para Perfeito, a fusão, além de aproveitar as sinergias evidentes entre as corretoras (a Concórdia sempre teve perfil institucional, enquanto a Spinelli tinha grande carteira de clientes pessoa física), veio em bom momento porque o mercado financeiro passa por dois desafios gigantes. O primeiro, de ordem macroeconômica: os juros caíram. “Com Selic menos IPCA a 12% todo mundo é gênio na Faria Lima, mas, com juros a 5,5%, em um mercado que até pouco tempo atrás chegava a cobrar 5% de taxa de administração, a coisa muda de figura”, explica. O segundo, de ordem microeconômica – mas dos grandes: a indústria financeira mudou completamente com o avanço tecnológico. “Qual a função de uma instituição financeira? Diminuir a assimetria de informação entre doador e o tomador do dinheiro. Mas a internet é a maneira mais eficiente conhecida de transmitir informação, então muda tudo, tem que ser digital influencer”, argumenta o economista, gesticulando o tempo todo e sendo extremamente didático, como o foi durante nossa conversa no La Tambouille, em São Paulo.

Para enfrentar esse momento mais sofisticado do mercado, a Necton investe pesado em três pilares que acreditam ser a base do novo modelo: atendimento – nada de robô atendendo cliente –, tecnologia – para fazer frente às novas plataformas de trading – e curadoria de produtos. “É como um restaurante japonês: você vai ao balcão, vê o que tem, pergunta ao sushiman qual peixe está bom. Então tem que ter uma equipe atrás para cuidar que tenha produto, que ele seja bom e que acompanhe e analise o desempenho deles”, compara. Apesar de tranquilizar os interlocutores ao afirmar que o pior da crise brasileira já passou, Perfeito não está tão animado com o futuro quanto a maioria de seus pares no mercado (a euforia é tanta que a piada corrente é que haveria queima de ônibus e patinetes na região da Faria Lima, em São Paulo, se o ministro da Economia, Paulo Guedes, pedisse demissão). Para ele, que projeta um crescimento moderado de 1,8% em 2020, as medidas de ajuste fiscal para sanear as contas do Estado que estão sendo feitas são necessárias e corretas. Mas apenas isso e uma política de juros baixos não são garantia da retomada do crescimento. Há uma ociosidade grande ainda no setor produtivo e enquanto isso não for preenchido o empresário não voltará a investir. “Se tiver cadeira vazia na redação, você não vai expandir antes de tê-las preenchido, simples assim”, vaticina. Para ele a discordância é boa e é intrínseca ao próprio funcionamento do mercado, e por isso não tem problema em abrir sua visão menos liberal de mundo. “Isso é comum no mundo todo, acho besteira pensar que há apenas uma teoria econômica correta. Pega o [George] Soros nos EUA, ele é visto pelos ortodoxos quase como um comunista, mesmo sendo um megainvestidor. O que acho fantástico desse mercado é justamente que ele só funciona com divergência. Se alguém vende Petrobras é porque tem alguém comprando. Ou seja, dois agentes têm opiniões radicalmente divergentes sobre uma mesma questão, essa é a natureza do mercado”, divaga. O mesmo vale para opiniões políticas: “Meu trabalho é aumentar o grau de consciência da sociedade sobre si mesma, e é normal então que eu fale de política para fazer com que as pessoas façam juízo sobre esse assunto”, filosofa, quase que da posição de psicanalista. Psicanálise, aliás, faz parte da vida de André Perfeito há pelo menos 15 de seus 40 anos. Isso talvez explique a maturidade com que respondeu sobre eventuais intenções de ingressar na política: “Prefiro me dedicar ao desafio de crescimento da Necton e a ficar na posição de pensador. É um trabalho de doação muito grande – e eu ainda quero construir um bom patrimônio”. A seguir, os principais trechos da conversa:

PAULO GUEDES E A ECONOMIA
“Só tem dois tipos de economistas no mundo, os do lado da oferta e os do lado da demanda. O Paulo Guedes é um liberal e acredita em incentivos para a oferta, o que aumenta o produto e gera crescimento. É esse o ‘gelo fino’ que eu falo no relatório [da Necton]: o governo não quer agir no alarde da macroeconomia, mas no silêncio da microeconomia – por meio de uma série de pequenas medidas – aliado a um grande ajuste fiscal. O raciocínio se baseia em reduzir o tamanho do Estado, pois assim é necessário tomar menos dinheiro e derruba os juros. Quando os juros caem, o empresário investe. Por mais duras que sejam as falas, as medidas são absolutamente liberais. Meu trabalho não é estar certo, mas descobrir antes da média a opinião média das pessoas. E por isso estou um pouco crítico, porque se estivesse funcionando a economia já estaria bombando – e não está. Acho que não estão levando em conta a ociosidade. Se tiver cadeira vazia na redação da PODER você não vai investir, vai antes ocupar essa cadeira. Nesse ponto acho que o Guedes incorre no mesmo erro do Guido Mantega [ministro da Fazenda nos governos Lula e Dilma], que é apostar todas as fichas nos juros. Não adianta ter os juros no lugar certo e a economia no lugar errado.”

BOLSONARO-GUEDES
“O patamar do desemprego, que no nível que está seria um enorme desafio mesmo para um governo extremamente popular e para um presidente como o [Jair] Bolsonaro é pior, as pesquisas indicam que isso já começa a fragilizar sua imagem, o que gera um mal-estar difuso no mercado. Outro dia a bolsa caiu mais de 1% por conta de um boato de que o Guedes pediria demissão em fevereiro, por exemplo, algo que não tem nenhuma base na realidade. Isso vai se agravando. Pensa que você é o Bolsonaro e não para de entrar boleto por baixo da porta do Palácio da Alvorada. Você quer pagar e o cara fala ‘não dá’. Uma hora essa relação chega no limite e rompe. Portanto, acho que, tanto para a relação Bolsonaro-Guedes quanto para uma melhora real da economia, esse ajuste fiscal tem que vir acompanhado por medidas que incentivem a demanda. O Guedes sabe disso e não deixa o governo pôr a mão no bolso, mas está liberando todo dinheiro parado que pode (FGTS, PIS, etc.) e usando a Caixa Econômica Federal para incentivar um pouco a economia, como antigamente. A Argentina serve como lembrete incômodo para gente: se esse ajuste não é feito rápido o suficiente para já gerar os benefícios imediatos, acaba por degringolar a parte política e vira aquela coisa horrorosa. Lembro sempre da velha piada: ‘Existem quatro tipos de países no mundo: os desenvolvidos, os subdesenvolvidos, o Japão e a Argentina’. É sempre melhor aprender com o exemplo dos outros.”

TAXA DE JUROS NO BRASIL
“O governo força uma agenda que não vai gerar crescimento num curto prazo. Taxa de juros é função de um consenso, e hoje em dia ela está em 5,5% (este almoço aconteceu no dia 8/10) com as contas estouradas, tudo meio estranho. O Brasil está sofrendo uma espécie de ilusão. Quando a taxa de juros cai, isso implica dizer que o preço do título na mão das pessoas subiu. É simples: imagina que eu te ofereça R$ 100 daqui a um ano. Quanto você me daria hoje? Se você me der R$ 90, a taxa é 11%. Se você me der R$ 80, a taxa é 25%. Portanto, dizer que a taxa de juros caiu de 25% para 11% significa dizer que o preço do título hoje subiu de R$ 80 para R$ 90. O preço dos títulos públicos, portanto, subiu, e o mercado não está acostumado com isso, como ganhar 0,4% ao mês. Por tudo isso, eu acho que vamos fechar o ano com a taxa Selic a 4,5% (na data da nossa conversa, o mercado dava 5% em 31 de dezembro) e acho que o ano que vem iremos a 6% (o mercado aposta em 5% para 2020).”

TAXA DE JUROS NO MUNDO “O mundo está uma zona: tem guerra comercial com a China, o presidente dos Estados Unidos está sofrendo um processo de impeachment, Brexit, enfim, bagunça para todo lado. Isso vai bater no câmbio, como já bate, ainda que eu não acredite que o dólar vá explodir. Mas ainda tem espaço para subir um pouco. A boa notícia é que a dívida brasileira não é mais indexada ao dólar, então isso não gera crise da dívida. E nesse cenário caótico, as taxas tendem a cair no mundo todo, o que deve sacudir o mercado. Eu conheço os colegas do mercado: agora está tudo bem porque está ganhando 80% em 12 meses, 80% é o melhor cap [taxa de retorno]. Quando tiverem que ganhar só 5%, eu acho que o pessoal vai ter uma dor de barriga. No mundo, mas no Brasil mais porque estamos acostumados a taxas historicamente altas.”

FINTECHS
“No Brasil eu acho que é um bando de wannabe. Vendem a imagem de serem disruptivos, mas só estão operando spread [refere-se à diferença entre o preço de compra e venda de uma ação, título ou transação monetária].”

REFORMA DA PREVIDÊNCIA
“A reforma é porca porque parte do pressuposto matemático de que hoje tem dez pessoas trabalhando para pagar a pensão de uma e no futuro será três para um e, portanto, o regime de capitalização é mais eficiente do que o regime de repartição. Mas essa mudança não muda um fato simples: vai ter mais gente velha no futuro. Hoje há a pressão para os governos construírem creches porque tem muita criança. E no futuro? Talvez haja a pressão para construir asilos, por exemplo, esse custo vai acabar voltando para o Estado. A reforma da Previdência vai ter um efeito prático, para o bem ou para o mal: as pessoas vão trabalhar durante mais tempo. Isso aumenta a oferta de trabalhadores e pressiona os salários para baixo. Pode ser bom para um empresário num primeiro momento, mas depois derruba a demanda por seus produtos. Há a chance de vermos, sim, todo mundo se tornando entregador e motorista de aplicativo. A reforma não resolve tudo em si – e, do jeito que foi feita, já o próximo presidente terá que rediscutir alguns pontos – e tem que haver um projeto para o futuro. É necessária a criação de uma sociedade mais educada, com investimentos para dar conta da absorção desses trabalhadores numa economia dinâmica, o que não parece estar sendo feito. Sou um elitista e acredito que o projeto nacional – hoje inexistente – teria que ser conduzido por quem detém o poder econômico e de decisão. E a elite brasileira está de brincadeira.”

PRIVATIZAÇÕES
“Não creio que se deva vender o que dá lucro. Tem estatal, no entanto, que não faz sentido nenhum – o Brasil é tão curioso que o Estado teve que criar a iniciativa privada – e estamos precisando de caixa. Por mim, pode e deve vender. O que me preocupa é vender pelos motivos errados: fazer dinheiro a curto prazo, vendendo a mal preço – e o mais rápido possível – inclusive ativos bons. Acho que deveria ser feito de forma menos afoita, poderia ser mais devagar.”