É moda no morro, é moda na zona sul. Será? A revista J.P descobriu tudo!

29.01.2018  /  9:00

Da funkeira com 1 milhão de seguidores a biquíni feito de fita isolante e trança de raiz, além de camisetas produzidas na Rocinha. A zona sul do Rio de Janeiro está se rendendo à estética do morro

Por Chico Felitti para a Revista Joyce Pascowitch de Janeiro | Ilustrações: Marina Leme

“O sol do Leblon não é bom. Quer dizer, é bom, mas não é tão bom”, diz a empresária Celia Dias, enquanto anda pelo bairro mais caro do Rio de Janeiro, onde mora e tem uma loja. Celia para, abaixa o ombro da blusa de linho que está usando e mostra uma faixa de pele branca cortando a parte bronzeada das costas: “Tá vendo isso? É por isso que eu vou até lá”. Lá, no caso, é uma laje em Realengo, bairro de classe média baixa na zona oeste do Rio, vizinho de Bangu, Padre Miguel e de algumas favelas.

É em Realengo que está o bronzeado de Erika Bronze, a maior representante da estética do morro que hoje chega até o high society carioca. “Eu tenho bastante cliente que mora na zona sul. Uma delas de frente para o mar”, conta Erika Martins, que desenvolveu uma técnica de criar um biquíni cenográfico de fita isolante nas clientes. Graças ao ofício, Erika ganhou o apelido de Bronze, que grudou como uma fita isolante em local hirsuto. Erika virou uma celebridade local. Participou do concurso da melhor marquinha de biquíni do Rio, promovido por um programa de TV aberta, mas não pensa em deixar a periferia. “Não tenho vontade de abrir na zona sul, não.”

O diferencial que a leva a dirigir seu jipe Land Rover por quase uma hora para se bronzear longe de casa, explica a empresária Celia, é a marquinha fininha. “Quando queima com biquíni de verdade fica muito grosso, parece que você tomou sol de mochila.” O simulacro de roupa de banho, feito de fita isolante, dá à marquinha branca a finura de um biquíni ideal.

“Espera só até sair o clipe da Anitta”, diz a social media Lidiane Zita, uma ruiva que trabalha no Leblon e mora em Copacabana, mas passa na laje profissional duas vezes por mês – paga R$ 50 por uma sessão. Anitta gravou “Vai Malandra” no Morro do Vidigal em agosto, com biquíni de fita isolante feito por Bronze. Colocada em cheque quando vieram à tona acusações de assédio contra o fotógrafo americano Terry Richardson, que dirigiu o videoclipe, a música fechou 2017 como a quarta mais ouvida do mundo pelo YouTube e quase 100 milhões de visualizações em poucas semanas. “Agora a zona sul vai subir em peso pra fazer igual. Ou vão abrir uma cópia em Ipanema, né?”, pondera Lidiane.

MORRO E ASFALTO

“O Rio sempre teve uma interação maior entre morro e asfalto, que é como chamam os bairros ricos. Essa troca, que acontece na praia, no supermercado e no baile funk, acaba sendo estética também”, diz o estudante de antropologia Miguel Batista, que está registrando em sua tese de mestrado, na Sorbonne, em Paris, como a estética do morro influencia as camadas mais altas da sociedade. Batista cita a cantora Jojo Todynho, a funkeira plus size de 1,50 metro e 90 quilos que tem 1 milhão de seguidores com mensagens de empoderamento e pura sacanagem. “A Jojo é de Bangu e influencia muita gente. Não é só o pessoal da periferia que vê a zona sul na televisão: o contrário também acontece. E muito”, diz Batista.

A cabeleireira Talita Lima mora no Morro do Alemão, mas atende em prédios da Lagoa mais do que na favela. Já atendeu filhas de socialites que frequentam o Jockey Club carioca a atriz da Globo (“E atriz de primeira linha, não figurante de Malhação, tá, amor?”). Especializada em cabelos afro, ela consegue transformar qualquer cabelo liso no que ela chama de “crespo invocado”, além de trabalhar com seis tipos de trança.

“A mulherada gosta de trança de raiz, né? É a branquinha que quer ser negona.” Se alguém levanta a voz ou o dedo para acusar a clientela de apropriação cultural, Talita tem uma resposta na ponta da língua: “Linda, eu sempre quis parecer com elas. Agora que elas querem parecer comigo eu vou ficar ofendida? Eu vou ficar é felizona!”, diz, emendando uma gargalhada à frase. E com a conta bancária mais cheia: ela reporta que hoje consegue terminar o mês com R$ 5 mil de lucro, quatro vezes o que ganhava quando era manicure na comunidade.

Há grifes desse universo que também estão conquistando espaço. “As classes A e B representam 40% dos nossos clientes, e ficam com 80% das nossas vendas. O resto fica com a glamourosa classe C”, diz Fábio Simões, o engenheiro de produção que fundou, junto com a estilista Katharina Laboure, a marca Because, conhecida pelas vielas da favela como a Osklen da Rocinha – assim como a grife de Oskar Metsavaht, a Because vende camisetas de cores esmaecidas com estampas que louvam o Rio de Janeiro.

A única loja da grife, que trabalha com restos de tecidos de marcas mais renomadas, fica no morro, o que não impede os produtos de circularem pelo circuito Posto 9 – Prainha.  E além. “Atendemos a várias delegações olímpicas, veio gente do mundo todo”, diz o empresário, cuja marca tem como logo a bandeira do Brasil dividida ao meio: a metade da direita tem as cores normais do pendão (verde, amarelo, azul, faixa escrita), e a da esquerda é em preto e branco.

A entrada da estética do morro na alta sociedade é um processo em curso, mas que ainda tem setores para conquistar. Uma das socialites mais tradicionais do Rio, Narcisa Tamborindeguy foi procurada pela reportagem para contar se tinha alguma referência estética da periferia na sua vida. “Manda por WhatsApp, que eu respondo”, disse, enquanto comprava um panetone. Visualizou a pergunta no aplicativo de troca de mensagens, e jamais respondeu.