30.04.2021  /  19:51

Djamila Ribeiro em papo mais do que necessário sobre racismo estrutural e reparação: “Ser negro é ser estrangeiro no próprio país”

O papo mais do que necessário nesta sexta-feira foi com Djamila Ribeiro. Mestre em filosofia política, autora de vários livros com foco no racismo estrutural, professora da faculdade de jornalismo da PUC de São Paulo e uma das 100 mulheres mais influentes do mundo segundo a BBC, Djamila dispensa maiores apresentações.

Uma das mulheres mais potentes do Brasil atualmente, que deve ser escutada sempre por quem busca de um país melhor. Aqui alguns trechos dessa conversa cheia de aprendizados.

Reparação

“É necessário procurar aprender, ler sobre, escutar o que as pessoas negras falam. É fundamental. Eu fiz isso quando comecei a falar sobre questões LGBTQI+. Quando a gente aprende que o mundo é muito grande, a gente consegue crescer. Participar de palestras e eventos também é importante. É um processo de construção. Escutar o que as pessoas estão falando. Muitas coisas aprendi assim. Você tem que desconstruir o opressor que tem dentro de você. Precisa de dedicação, não é de um dia para o outro. No Brasil as opressões são naturalizadas. A gente fica preso na história de que o brasileiro é assim mesmo. Se provocamos dor em alguém, temos que refletir e reconhecer para mudar. O Brasil negou o racismo por muito tempo e isso dificultou bastante o entendimento das pessoas sobre essa questão.”

“O Brasil é um país muito difícil. Mata muitas pessoas negras, a violência policial é enorme. Para se ter ideia, em um ano a polícia carioca matou mais do que a polícia dos EUA inteiro. Temos uma realidade extremamente violenta com grupos historicamente discriminados. E as pessoas ainda tendem a negar o que de fato acontece. Precisamos avançar muito ainda. Ser negro é ser estrangeiro no próprio país. Em outros países não sinto isso de forma tão direta. Aqui lidamos o tempo todo com situações de desrespeito.”

Politica

“Fui secretaria-adjunta de Direitos Humanos, uma função importante e difícil, por ser uma área majoritariamente masculina, mas é válido estar no lugar de quem pode elaborar políticas públicas. Como ativista foi bom para ter uma compreensão melhor do outro lado. Não penso em ir para a política agora. Mas, no futuro quem sabe.”

Família

“Vim de uma família muito crítica. Desde muito cedo discussões sobre racismo aconteciam. Meu pai era militante, e sempre conversou com a gente sobre tudo. Lutou muito para que eu e meus irmãos pudéssemos estudar, levava a gente no teatro e falava “olha em volta, quantos negros tem aqui? Só a gente, por isso tem que estudar…”. Tive sorte de nascer numa família que desde cedo ensinou que eu deveria me posicionar. E isso mudou minha trajetória. Minha avó foi uma mulher incrível, benzedeira em Piracicaba, e junto com minha mãe, ensinou muito sobre minha formação religiosa, que é o candomblé. Vim de uma dinastia de empregadas domésticas, lavadeiras, que me ensinaram a ser uma pessoa correta, de manter a cabeça erguida…”.

*

Play para a entrevista na íntegra: