04.12.2020  /  13:28

Depois de 20 anos, Thalita Rebouças faz o caminho inverso e transforma filme em livro: “Um dos processos mais legais de criação que já fiz”

Thalita Rebouças / Crédito: Reprodução

Thalita Rebouças é um poço de simpatia e bom humor e é assim que ela nos recebe – por telefone, claro – em uma entrevista sobre o novo filme “Pai em Dobro”, que acaba de ser lançado na Netflix. Em um processo completamente diferente do habitual, Thalita só escreveu a obra impressa depois de finalizar os trabalhos com o filme, estrelado por Maísa Silva e Eduardo Moscovis .“Cada atuação, cada detalhe do cenário, tudo isso me inspirou e me ajudou a contar a história do livro”, conta Thalita sobre a experiência.

Aos 46 anos, a escritora tem mais de 20 livros publicados e 2,2 milhões de exemplares vendidos, garantindo sempre o seu lugar entre os best-sellers brasileiros. Não à toa, ela brinca quando a questionamos sobre as adaptações que precisa fazer para agradar as novas gerações de adolescentes. A resposta está na ponta da língua: “Os dilemas são sempre os mesmos”, brinca. A seguir, confira o nosso bate-papo completo com Thalita Rebouças que avisa: “O bichinho do cinema realmente me picou”. (por Jaquelini Cornachioni)

Glamurama: Você está lançando mais um livro e dessa vez inspirado em um roteiro de filme.  Como foi esse processo, já que normalmente são os livros que inspiram os roteiros de cinema?

Thalita Rebouças: Na verdade, eu não me inspirei exatamente no roteiro, mas o filme como um todo. Cada atuação, cada detalhe do cenário, tudo isso me inspirou e me ajudou a contar a história do livro. Essa história nasceu filme, mas sabemos que o meu negócio é livro há mais de 20 anos, então por que não transformar em uma obra escrita? Foi divertido fazer isso.

G: Quais foram as diferenças na criação do livro e do filme?

TR: Não ter que ser muito fiel à história. Quando adaptamos um livro, o público espera certa fidelidade, seja na caracterização dos personagens ou no roteiro, mas transformar filme em livro é diferente. Eu pude expandir, contar um pouco mais sobre a vida de cada personagem. Não mudei a história, mas explorei bem mais, aumentei diálogos. Foi um dos processos mais legais de criação que já fiz.

G: “Pai em Dobro” fala muito sobre família. Como surgiu essa história?

TR: Surgiu com o Du Moscovis. Somos amigos e estávamos pensando em fazer um projeto juntos. Pouco tempo depois, me veio uma cena na cabeça, do personagem do Du saindo de uma cachoeira, vestido de Odalisca e com uma filha de 18 anos ao lado dele. Assim que pensei nisso falei para ele, que curtiu a ideia. Em seguida, conversamos com a Maísa e ela topou.

G: Como o Du Moscovis é seu amigo, não vale, mas como foi trabalhar com a Maísa?

TR: Ela é maravilhosa. Costumo dizer que trabalhar com a Maísa vicia: ela é profissional, fala com o olhar. Eu sou uma autora bem metódica, mando mensagem até de madrugada falando sobre pequenas alterações no texto, e ela sempre fique atenta a tudo. É muito segura, respeita o texto, é doce, pontual, um poço de talento.

G: Foi difícil escrever durante a quarentena? Sentiu que esse momento mexeu com a sua criatividade?

TR: Essa situação mexeu muito com a minha criatividade sim. No começo da quarentena, o filme estava pronto, mas nós queríamos lançar o livro antes do filme. E eu, que sou uma pessoa que consigo produzir muito rápido, me vi perdida e sem foco. Por isso, eu digo que a história do livro me salvou. O processo todo foi bem trabalhoso, mas muito gratificante e eu amei entrar em contato com esses personagens.

G: As redes sociais são fontes de contato com os jovens. Como foi a sua relação com a web nesse momento?

TR: Fiquei de saco cheio das redes sociais, confesso. Ao mesmo tempo em que eu gosto, porque é onde consigo interagir com o meu público e amo isso, algumas coisas na internet me assustam um pouco. Ando preferindo ver a vida cara a cara, e não pela tela. Até por isso, aproveitei esse momento para meditar e desconectar.

G: Você é um fenômeno da literatura voltada para o público jovem. O que te chamou atenção para escrever para esse nicho? Esse sempre foi seu foco?

TR: Eu comecei com um livro para pessoas na faixa de 25 até 35 anos, mas foram os adolescentes que amaram. E esse encantamento deles com a minha história me fez ver que era aquilo que eu queria. No fundo foram eles que me escolheram e eu devo muito a esse público. Os adolescentes são inteligentes, exigentes, escrever para eles é algo que me deixa orgulhosa.

G: Como faz para se inteirar das características de cada geração? Qual a diferença entre a Geração Z e os Millenials, por exemplo?

TR: Não existe diferença, exceto pelo uso das redes sociais, mas os dilemas são os mesmos. Os nossos pais, ou avós quando eram adolescentes, provavelmente tinham angústias bem parecidas. A geração muda, mas a essência é a mesma, assim como os problemas que os permeiam.

G: Acredita que os jovens de hoje estão mais interessados na leitura e na escrita?

TR: Eu acredito que sim. Os adolescentes estão cada vez mais interessados e participativos. Não podemos falar que eles não leem, como eu escuto muito por aí. Os meus livros sempre foram muito lidos por esse público, assim como outros autores também são. Além disso, na pandemia eu notei muitas pessoas postando trechos do meu livro em stories e me marcando, em uma quantidade como nunca antes. Esse momento mostrou que a arte salva.

G: Como você analisa o cenário cultural hoje em dia? 

TR: Apesar de tudo, eu sinto que agora é mais fácil do que quando comecei. Hoje existe muito mais vitrine, redes sociais. Antigamente, eu ia até as livrarias e conversava com as pessoas, distribuía doce para as crianças enquanto falava do meu livro. Hoje, com a internet, muita coisa mudou.

G: Você já tem novos projetos em vista? Se sim, quais?

TR: Vamos lançar o filme ‘Confissões de Uma Garota Excluída, Mal-Amada e (Um Pouco) Dramática’ na Netflix e eu estou muito feliz. No elenco, vamos ter a Klara Castanho. Também tenho outro longa rodando, esse com a Larissa Manoela. Eu fico extremamente contente de ver as minhas ideias ganhando forma. O bichinho do cinema realmente me picou.