Museu Judaico
Foto: Paulo Freitas

“Não é lugar de guardar coisa antiga e empoeirada”, diz Felipe Arruda, diretor do Museu Judaico

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O primeiro Museu Judaico do Brasil abriu as portas esta semana, no centro de São Paulo, para contar um pouco da história dessa comunidade no País, cujos registros dos primeiros judeus datam com a chegada de Pedro Álvares Cabral, em 1500. “As pessoas têm uma visão muito estereotipada do que é ser judeu ou o que é a cultura judaica”, explica Felipe Arruda, diretor executivo da entidade. Para ele, o novo espaço de cultura da cidade quer ser, por um lado, a memória e o patrimônio histórico, e, do outro, dialogar para combater o antissemitismo e abrigar a arte e temas contemporâneos.

“Essa trança entre o que o museu oferece e o visitante traz é fundamental. Museu tem que ser um lugar de debate público, de questões do seu tempo. Não é mais um lugar de guardar coisa antiga e empoeirada. É uma plataforma”.

Felipe Arruda, diretor executivo do Museu Judaico de São Paulo

O espaço ocupa a antiga sinagoga Beth El – que foi palco de grandes festas, casamentos e bar mitzvahs -, mas estava quase inoperante por conta do êxodo da comunidade na região central (que se instalou por outros bairros, como Higienópolis e Jardins), e foi erguido um novo prédio acoplado em um terreno cedido pela prefeitura da capital paulista, no Viaduto Martinho Prado com as costas para a Avenida 9 de Julho. A sinagoga ainda foi restaurada, preservando as características originais do prédio. 

“A gente achou que era fundamental ter um eixo permanente, de apresentação da cultura judaica com seus rituais, festas, valores, objetos e expressões. Está dividido entre o andar que mostra as festas judaicas, como Rosh Hashanah (Ano Novo), Aseret Yemei Teshuva (Dez Dias de Arrependimento), Yom Kippur (Dia do Perdão), entre outros, como o ciclo da vida e outro andar que mostra a presença judaica no Brasil, entrelaçadas com a própria história do País”.

O espaço é fruto de uma iniciativa da sociedade civil, de um grupo de amigos que se reuniu em torno desse projeto para exaltar a cultura judaica no Brasil. Foram quase 20 anos desde a iniciativa à inauguração. Existem outros museus com a mesma temática em Londres, Nova York, Berlim, Amsterdã, Madri (Espanha), Sydney (Austrália), na África do Sul, e São Francisco, que – segundo Arruda – dialogam muito bem com a contemporaneidade e serviram de inspiração para cá.  

Felipe Arruda
Felipe Arruda (Foto: Divulgação)

Relíquias

Como conta Arruda, já existiam cristãos novos, os judeus convertidos, durante a chegada das caravelas de Pedro Álvares Cabral vindo de Portugal. “Conta toda a história do Império, Colônia e República, passando pelo relato das polacas (judias que foram prostituídas), mas foram responsáveis pela fundação de cemitérios e hospitais – conversas muito pouco exploradas”, segundo ele. “Outro capítulo expositivo narra a história dos judeus da Amazônia, quando houve uma migração de pessoas vindas da África a Belém do Pará e que fizeram parte do ciclo da borracha e criaram sinagogas e comunidades ali”, exalta. 

A coleção inclui dois mil objetos (incluindo documentos seculares), trazidos por famílias imigrantes, que doaram. “As relíquias têm muito mais a ver com as histórias por trás desses objetos, os laços afetivos e o que têm a contar.” Entre elas, um fac-símile de uma Torá do século 16 que pertencia ao imperador d. Pedro 2º, que era poliglota e falava oito idiomas, incluindo hebraico e está em exposição – o original não conseguiu sair da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, por medo de se desfazer no percurso. 

Os trajes do casamento de Betty e Max Feffer (Foto: Paulo Freitas)

Museu vivo

Trazendo o museu para a contemporaneidade, Arruda informa que a atual gestão quer criar um diálogo com artistas do seu tempo. Por isso, de Beatriz Milhazes a Arnaldo Antunes, e tantos outros que exercitam, nas duas poéticas, uma investigação entre texto e imagem fazem ou farão parte de exposições temporárias na sede do museu. “Queremos ser conectados, não fechados em uma bolha. Não é um museu religioso, não é apenas para a comunidade judaica. É um museu para São Paulo”, pontua, dizendo que o desenho do projeto foi pensado para haver pluralidade. 

Além de salas de exposição, há visitas educativas – mediadas e teatralizadas, com contação de histórias – que são o ponto forte, na opinião do diretor. Há ainda uma biblioteca e um café, convidando os moradores do entorno para se integrar ao espaço. “Como a trança é um elemento presente na cultura judaica, a gente usa isso como metáfora”, exemplifica. 

O museu quer cultivar as diversas expressões da cultura judaica, preservando as memórias, valores e ações de seu rico passado. “Criar diálogos com o contexto brasileiro, com o tempo presente e com as aspirações dos públicos. Porque museu, hoje, é assim que se faz. Não dá pra você ser se não for com essas pessoas”,explica. A ideia ainda é movimentar outras cenas, com a proposição de um festival de cinema voltado ao humor judaico, como irmãos Marx, Seinfeld até Woody Allen

Por fim, Arruda afirma que, quem for ao museu, vai sair de lá conhecendo a identidade da cultura judaica, pois uma das funções do espaço é também diminuir o preconceito e intolerância acerca dessa comunidade, além de combater o antissemitismo.

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