31.12.2018  /  13:33

Glamurama encontrou Solange Ferrarini, criadora do biquíni que virou alvo de disputa milionária na justiça internacional

Maria Solange Ferrarini na Casa Glamurama Trancoso na noite desse domingo || Créditos: Paulo Freitas

As reviravoltas envolvendo um colorido biquíni de crochê criado por uma artesã de São Paulo radicada há mais de duas décadas em Trancoso, cujo design foi copiado sem a menor cerimônia por uma imigrante que escolheu morar nos Estados Unidos e acabou resultando em um negócio multimilionário, quem diria foi parar no “New York Times”.

Em matéria assinada pela repórter Katie Rosman, que passou mais de cinco meses investigando a história, a paulista Maria Solange Ferrarini conta que começou a produzir os primeiros modelos do tal biquíni em 1998, logo depois de ter se mudado para o spot baiano, a fim de vendê-los na praia para se manter por lá.

Entenda o caso: vendida no sul da Bahia, a peça logo caiu no gosto das turistas que frequentam o lugar e uma em particular adorou. De férias no Brasil em 2012, a turca naturalizada americana Ipek Irgit baixou em Trancoso e, como lembrança, comprou um biquíni de Solange, sem saber que o souvenir viria a mudar sua vida.

O biquíni da esquerda é o de Ferrarini, e o da direita é o de Irgit || Créditos: Reprodução/The New York Times

É que meses depois, Irgit se deu conta do potencial da peça e teve a ideia de lançar uma coleção “inspirada” nela, porém em escala industrial, o que acabou virando um negócio multimilionário com a criação da marca Kiini.

Vendido por cerca de US$ 285 (R$ 1.110) nos EUA e fabricado ao custo de ‘meros’ US$ 29 (R$ 113) na China, a versão gringa do biquíni de Solange chegou às prateleiras da Barney’s e hoje movimenta US$ 9 milhões (R$ 35 milhões) por ano em receitas. E, como qualquer item que faz sucesso, foi pirateado aos montes.

Irgit decidiu registrá-lo como uma criação sua há alguns anos e não esperava que a verdade pudesse vir à tona: atualmente  vive às turras na justiça com a fabricante chinesa que contratou e que agora apresenta dúvidas sobre a autoria dela. O caso corre nos tribunais americanos e envolve cifras e acusações de cair o queixo.

Em entrevista ao Glamurama em Trancoso, Solange contou que o valor de seu biquíni, inicialmente vendido a R$ 10, agora custa R$ 500, e que desde que a matéria foi publicada pelo jornal americano, a procura pelas peças aumentou muito (seu Whats App não para). Só que tem 15 dias que ela não consegue trabalhar por conta de um problema que desenvolveu nas mãos. Sobre a inflação do valor do biquíni, ela fala: “ninguém reclama”…

Solange não se deslumbrou com o reconhecimento e explica que demorou tanto para recorrer à justiça por não conseguir apoio para isso. A primeira vez que teve conhecimento de uma cópia de sua criação foi em 2009, em solo nacional, quando a Farm fez uma versão. “Nunca corri atrás de nada, sempre deixei a coisa rolar frouxa, porque até então ninguém tinha falado que tinha criado a peça. Dizer que criou a peça é outra coisa, por isso fui para cima”, explica. “Sofri muito, fui muito humilhada por jornalistas e advogados. Os procurei para falar da minha história e ninguém me deu ouvidos, precisou vir uma pessoa lá de fora para me darem atenção.”

Tudo mudou quando apareceu em sua vida o advogado Jason Forge, que está trabalhando na justiça para conseguir o direito autoral da peça. Forge é marido da dona da marca de beachwear PilyQ, que também se inspirou nos biquínis de crochê e procurou Solange para conseguir um contrato de autorização para que a marca da mulher pudesse vender as peças em solo americano, em troca de auxiliá-la na disputa judicial contra a dona da marca Kiini, que registrou a criação como se fosse sua. “A PilyQ vende uma cópia autorizada do biquíni. Assinei em maio esse contrato com eles e ganho um valor por ano, pouquíssima coisa”, conta.

Uma figura super conhecida em Trancoso, Solange conta que passou por poucas e boas desde que teve conhecimento da criação da Kiini. “Desde que vi o site, feito da forma como eu queria ter feito, com fotos de Trancoso, fui atrás de alguém que me ajudasse a provar que a criação é minha. Foram anos de sofrimento, humilhação, choro, decepção… Gastei muito dinheiro com médico, perdi a coordenação motora e até querer morrer eu quis, além de me arrepender de criar os biquínis porque não encontrava ninguém que me ajudasse.” Se ganhar o processo, o que é muito provável já que as acusações contam com provas contundentes cedidas por uma ex-sócia de Irgit, ela Solange ainda não sabe o que fará. “Eu nem acredito que isso esteja acontecendo. Esperei tanto… Mas estou normal, não mudou minha vida. Meu pai sempre dizia, primeiro se ganha, depois se gasta.”

Solange vendendo suas criações na praia || Créditos: Reprodução/The New York Times