Sidarta Sonhos
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“Sonhar é necessário para o corpo e para a mente”, diz o neurocientista Sidarta Ribeiro

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Em uma realidade impactada pela pandemia, efeito estufa, crises política e econômica, e domínio da internet, não tem sido fácil manter a sanidade física e mental. Muito menos desenvolver um contato saudável com nosso “eu” interior. Em meio a esse turbilhão de acontecimentos e informações, o ser humano acaba desligando a sintonia fina do cérebro para lidar com o caos do mundo exterior. Não por acaso, muita gente perdeu o sono… e os sonhos. Talvez algumas pessoas não saibam, mas sonhar nos conecta a camadas mais profundas do inconsciente.

“Eles envolvem regiões cerebrais que também são ativadas quando você está imaginando outras pessoas. Essas regiões, em conjunto, têm muito a ver com o sentimento de empatia”.

Sidarta Ribeiro, neurocientista, fundador do Instituto do Cérebro na UFRN e autor do livro O Oráculo da Noite: A História e a Ciência do Sonho (Cia. das Letras), que acaba de ser traduzido para o inglês

Por aqui, ele explica como esse mecanismo poderoso deve ser resgatado para alcançarmos a saúde física e mental.

INSÔNIA

“A maioria da população está em uma situação de estresse aumentado. Especialmente as classes mais pobres e a classe média. Menos dinheiro, dificuldade de se proteger, consequentemente mais exposição ao coronavírus. E aí vem a insônia, o sono fragmentado, a demora para dormir, os pesadelos, que causam prejuízos cognitivos importantes, desregulação emocional. A médio e longo prazo, há vários riscos ligados à privação de sono, que passam por doenças cardiovasculares, depressão, obesidade, diabetes e, lá na frente, mal de Alzheimer. É um caminho complicado”, alerta o neurocientista.

SIMBOLISMOS

“A ciência dos últimos 20 anos concorda com a psicanálise freudiana e junguiana, de que o sono e os sonhos são fundamentais para a saúde da cabeça e do corpo. Segundo Jung, temos em nossa mente várias criaturas, as criaturas da mente, que são as pessoas com quem a gente convive ou conviveu. Para representar essas pessoas ou até personagens fictícios, utilizamos as mesmas estruturas cerebrais que usamos para representar a nós mesmos. Por isso, o conjunto dessas regiões, que a gente chama de Rede de Modo Padrão, tem muito a ver com o sentimento de empatia. Para poder ter empatia, precisamos imaginar a mente do outro, nos colocarmos no lugar das pessoas. E a Rede de Modo Padrão é muito ativada no sono REM, que é quando a gente sonha. Por isso, no sono encontramos com nossas criaturas da mente, com nosso ‘eu’ interno”, conta Sidarta.

Segundo ele, no passado, todas as culturas tratavam os sonhos como uma instância de muita importância, justamente por permitir o contato com essas criaturas da mente. “A perda do sono de boa qualidade e dos sonhos nos afastou muito rapidamente de nossas raízes. Deu no que deu. Nunca tivemos tantas capacidades tecnológicas e científicas, e, ao mesmo tempo, nunca acreditamos tanto que está tudo dando errado. Há um paradoxo aqui, o paradoxo da civilização. Se a economia continuar se desenvolvendo como está, chegaremos ao colapso ambiental e social. Se a gente diminuir a velocidade de crescimento da economia, ela colapsa.” 

MENTE SÃ EM CORPO SÃO

“Temos que pensar nos pilares da saúde: sono na base, exercício e alimentação. Tudo tem que estar funcionando bem. Tem que ter sono de qualidade e criar todas as condições para isso.” Como? O autor de O Oráculo da Noite ensina: “Temos que tentar ir para a cama na hora certa, desligar telas – celular, computador, televisão – uma hora antes, evitar remédios para dormir. Para quem tem dificuldade de pegar no sono, minha dica é ficar deitado, de luz apagada.

Na antiguidade, diziam que sonhamos também na insônia. Ao despertar, fique imóvel na cama e tente trazer para a consciência o que sonhou. Anote se preciso. Tente expandir o que foi sonhado. Isso permite simular cenários futuros, ter empatia pelas pessoas envolvidas no sonho… e fora dele também. É uma ferramenta muito sofisticada que foi a base da nossa explosão cultural. Como deixamos de ter uma vida igual a dos outros animais? Como inventamos tanta coisa que não existia? Sonhando”. E Sidarta vai além:

“Compartilhe o sonho, conte para as pessoas, debata sobre ele. É uma forma de entender seus desejos, medos, desafios, consequências dos atos. Fazer do sonho um assunto, trazer ele para o centro da conversa, é um treino”

Sidarta Ribeiro
Sidarta Sonhos
Foto: Divulgação/Elisa Elsie

RENASCENÇA PSICODÉLICA

A busca pelo que não estamos conseguindo acessar no nosso inconsciente tem a ver com a chamada “renascença psicodélica”. “É um fato científico e biomédico: Ayahuasca, Psilocibina, MDMA, LSD são substâncias altamente terapêuticas e estão causando uma revolução na psiquiatria. O MDMA, por exemplo, acabou de ser confirmado em fase 3 como uma ótima opção no tratamento de transtorno de estresse pós-traumático, auxiliando no processo de psicoterapia. Essa nova psiquiatria que vem aí é mais focada na terapia, com sessões pontuais em que substâncias são usadas para aumentar a plasticidade do cérebro e deixá-lo mais capaz de formar novas sinapses e conexões entre neurônios, promovendo estados mentais semelhantes ao do sonho. Porque o sono está envolvido na produção de novas sinapses. Essas linhas de pesquisa convergem.

A questão da microdose desses ativos está muito na moda nos Estados Unidos. Nos últimos dez anos, vários estudos tiveram que responder se os efeitos positivos são resultantes da dose baixa ou se são apenas causados pela expectativa, ou seja, o efeito placebo. Recentemente surgiram publicações que apoiam e acreditam que a microdose tem efeitos positivos. Essa é uma tendência que está se espalhando pelo mundo: o uso cotidiano – e monitorado – de substâncias capazes de aumentar a cognição. É diferente da ideia de uso de doses altas que vão atuar na percepção do paciente, duram algumas horas, promovem muita plasticidade e transformações positivas mais duradouras. Esse caminho está se consolidando ainda, em ensaios clínicos bem controlados, inclusive no Brasil.”

Texto originalmente publicado na revista J.P de outubro/novembro de 2021.

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