21.11.2020  /  9:00

Conheça Samile e Raíssa, modelos brasileiras, pretas e periféricas, que ganharam destaque em campanha internacional: “Foi a celebração das nossas origens”

Raissa Leme e Samile Bermannelli|| Reprodução Instagram

Muitas coisas aproximam as modelos brasileiras Samile Bermannelli, de 22 anos, e Raissa Leme, de 24. Além da origem humilde e da luta para conquistar um espaço de destaque no mundo da moda, a dupla, que compartilha a mesma casa em Nova York, também estrelam juntas a nova campanha da marca americana Rag&Bone, ‘Forever New Yorkers’ (‘Para sempre nova-iorquinos’). A baiana Samile e a paulista Raissa são daquelas ‘bffs exemplo’ quando o assunto é sororidade. Entre elas, nada de competição: “Essa conexão que a gente tem e essa nossa relação traduz exatamente o que é sororidade. Nos apoiamos de todas as maneiras, tanto em experiências de trabalho como em outros aspectos da vida. Cada uma tem um conhecimento que acaba se encaixando com essa união desde que começamos a morar juntas”, entrega Raissa para o Glamurama. “É muito lindo e dá para sentir, não tem competição aqui, nem rivalidade”, completa a amiga Samile.

A campanha da Rag&Bone foi um marco para a amizade das modelos e também para a carreira delas. Na campanha, elas contam que puderam ser quem queriam ser e aparecem usando braid boxes e dreadlocks: “Fotografar de ‘dread’, de trança… a primeira campanha juntas. Antes só se via a ‘cornrow’, que é a trança nagô, nas negras”, comenta Samile sobre o trabalho, que também foi uma celebração da origem afrodescendente da duas: “A celebração das nossas origens vem disso, a liberdade de expressão de usar o cabelo do jeito que a gente gosta”, diz Raissa.

E por falar em cabelos, Samile e Raissa também passaram pelo processo de transição capilar assim como muitas jovens negras. “Foi muito difícil para mim no início da transição por conta da questão de autoestima, porque existe esse conceito de que bonito é cabelo liso e comprido”, revelou Raissa. Para Samile, o processo também foi desafiador: “Comecei a alisar com uns 10 anos.  Foi na transição o momento que me descobri preta. Levou muito tempo para minha autoestima voltar, mas aqui estamos. Hoje me arrependo com o tanto de dinheiro que gastei com esses relaxantes de cabelo”.

Sobre fazer a campanha de uma marca que já teve como modelos Kate Moss, Candice Swanepoel e Hailey Bieber, elas dão a letra: “Acho que é muito difícil falar sobre isso porque não tem nenhuma modelo preta que é um exemplo, um ‘role model’. Estrelar a campanha é mais pela nossa história, de onde a gente veio: brasileiras pretas e periféricas. Foi uma coisa muito incrível pra gente”, entrega Raissa. “Esse lance de comparação é muito complicado. Eu sou a Samile!”, comenta a modelo baiana, que já trabalhou com Valentino, Kenzo, Eli Saab, Zuhair Mourad, Marc Jacobs, Miu Miu, Balmain e Dolce & Gabbana, entre outros. Conheça de perto a vida e carreira dessas gatas que conquistaram o cenário fashion internacional. (por Luzara Pinho)

Samile Bermannelli

Glamurama: Você sonhava em ser modelo desde quando morava em Salvador. O que te motivou e inspirou?
Samile: Gostava muito de assistir aos desfiles da Victoria’s Secret e vivia me imaginando nos shows, com as asas, desfilando… isso com certeza despertou a vontade de entrar no mundo da moda.

Glamurama: Por falar nisso, conta um pouco de sua experiência na Victoria’s Secret.
Samile: Foi um acontecimento na minha vida pessoal e na minha carreira. Tudo mudou depois daquele desfile, foi magico. Eu agradeço por ter tido a oportunidade de realizar esse sonho.

Glamurama: Como era sua vida antes de se tornar modelo? 
Samile: Eu estudava em colégio público em tempo integral. Entrava as 7h30 e saía as 16h30. Amava aquela escola. Fiz aula de dança, canto, aprendi a tocar bateria. Aos sábados, minha mãe me deixava ir ao Pelourinho, onde participei do projeto Top Model Fama, que é gratuito e em que todos os corpos são bem vindos. Além disso, ia muito para a praia!

Glamurama: Ser considerada como uma das 50 maiores modelos negras da atualidade faz você se sentir empoderada? 
Samile: É muito gratificante para mim e nem nos meus melhores sonhos imaginei isso. Sinto que posso inspirar outras meninas a irem atrás dos seus sonhos e principalmente as que tem um background parecido com o meu. Mostrar que o céu é o limite para nós.

Glamurama: Como vê a representatividade negra nas passarelas e nas campanhas? 
Samile: Aqui fora ainda não consigo ver muita mudança. Para mim continua tudo a mesma coisa. As campanhas são sempre com as mesmas meninas, os diretores de ‘casting’ escolhem sempre as três pretas favoritas deles e colocam elas em tudo, e é só isso… ninguém faz mais nada e pra mim isso não é representatividade. Castings em que 50 modelos são brancas e 10 pretas precisam melhorar muito. No Brasil, graças à parceria do ‘Pretos na Moda’ com o São Paulo Fashion Week, conseguiram estabelecer essa regra do 50/50, que é muito necessária e devia ser aplicada em tudo na vida.

Glamurama: Você vive em Nova York há três anos. Como é sua vida nos Estados Unidos? 
Samile: Nova York é uma cidade incrível, que pode te dar tudo ou te tirar tudo também. É um ótimo lugar para business e para passar um tempo e tal. Para morar, comparado com o Brasil, pode ser um pouco solitário. É São Paulo três vezes, trabalho, trabalho, trabalho… A água da praia é super gelada, não pode beber bebida alcoólica na rua, não tem gente vendendo lanchinhos. Isso é uma das coisas que mais sinto falta. Fazer um churrasco na praia, som vindo de todos os cantos e todo mundo feliz.

Raissa Leme

Glamurama: Vinda de família humilde, o que foi mais difícil para conseguir estabelecer uma carreira internacional?
Raissa: A minha maior dificuldade foi a questão financeira mesmo. Eu não era da capital então era mais difícil ter acesso às coisas. Também demorei para encontrar profissionais sérios que realmente me levassem ao meu objetivo. No começo você acaba, muitas vezes por falta de experiência, trabalhando com pessoas que prometem coisas que não acontecem.

Glamurama: Como era sua vida antes de ser modelo?
Raissa: É uma delícia trazer essa memória! Eu estudava,  comecei a trabalhar com uns 12 anos. Lembro que meu último trabalho antes de eu sair do Brasil era em uma loja no centro de Sorocaba como vendedora. Antes disso, trabalhei de assistente em um salão de cabeleireiro. Ter essas experiências me ajudaram muito.

Glamurama: Você fala quatro idiomas. Onde aprendeu? Sempre teve facilidade em aprender outras línguas? 
Raissa: Aprendi a maior parte dos idiomas na marra mesmo! O inglês tive que desamarrar desde o começo, o espanhol e o catalão aprendi quando morei na Espanha e o italiano quando passei umas temporadas na Itália. A língua mais difícil para mim foi o espanhol, porque é tão parecido com o português e sempre falava mais um portunhol do que qualquer outra coisa. A minha próxima meta é lapidar o catalão e aprender francês.

Glamurama: Isso com certeza a ajudou a se dar bem fora do país, não é?
Raissa: Sim! A comunicação é muito importante, principalmente nesta profissão, porque você precisa mostrar sua personalidade e se você não consegue se comunicar, fica meio difícil mostrar quem é. Apesar de que nós brasileiros chegamos com essa energia, esse sorrisão, dançando no estúdio, e já nos comunicamos naturalmente sem precisar falar muito.

Glamurama: Sendo tão jovem e com trabalhos importantes no currículo, como acha que pode inspirar quem tem o mesmo sonho e o mesmo background que você?
Raissa: Toda vez que uma pessoa de origem humilde e preta chega a um lugar de destaque acaba sendo inspiração para as outras naturalmente. Mas todas as vezes que vou falar com alguém e contar minha história gosto de ressaltar que o fato de eu ser de uma família humilde e preta nunca foi impedimento para eu sonhar e correr atrás dos meus sonhos. Muitas vezes enfrentei racismo e dificuldades, mas nunca desisti.

Glamurama: E sobre a representatividade?
Raissa: Movimentos recentes como ‘Black Lives Matter’ acabaram dando muito mais representatividade para o povo preto em todas as áreas. Com tudo que aconteceu neste ano, dá pra ver o quanto esses movimentos e a luta contra o racismo são importantes. A gente tem que ir pra rua e lutar por essas mudanças.

Glamurama: Você acaba de chegar em Nova York. Como está sendo sua vida na cidade?
Raissa: Cheguei poucas semanas antes do lockdown. Praticamente cheguei e fiquei presa no apartamento por alguns meses, e foi uma experiência bem interessante e intensa. Esse momento foi de autoconhecimento e me reencontrei. Lembro que tive muita angústia, até porque no Brasil as coisas tomaram uma proporção muito grande, deu medo do que iria acontecer com as pessoas que amo. Ainda está acontecendo, mas agora a gente tem mais conhecimento e controle sobre isso, o que me deixa mais tranquila. Estou arrumando minha vida por aqui agora. Essa cidade com uma alma tão mágica em que as coisas acontecem de uma forma tão incrível. Eu amo o ritmo de vida que tenho aqui e me sinto tão inspirada.

Glamurama: Quais seus projetos?
Raissa: Continuar focando na carreira de modelo e construir minha vida em Nova York. Em dezembro vou lançar um canal no Youtube com a Samile e a Mahany Pery – também modelo -,  minhas melhores amigas. Ali vamos dividir um pouco das nossas vidas e também falar sobre nossa carreira, racismo e outros assuntos mais. Será uma ponte para transmitir a mensagem: se nós chegamos até aqui, qualquer menina preta e da periferia pode. Essa é a nossa missão!