12.06.2014  /  19:01

Na revista J.P, um Dia dos Namorados Macabro… Vem lembrar desse caso

 

Dizendo-se sufocada pelo ciúme do marido, a dona-de-casa Alessandra D’Ávila Nunes matou-o com uma facada no peito, no Dia dos Namorados de 2009. A vítima, o empresário Renato Biasotto Mano Jr., se queixava constantemente de que a mulher o trocara pelo Orkut. Ela alega legítima defesa e aguarda o julgamento em liberdade.

Por Paulo Sampaio para revista Joyce Pascowitch

O coração do empresário Renato Biasotto Mano Jr. foi literalmente partido no Dia dos Namorados de 2009. A autora da facada que o dividiu em dois e perfurou o pulmão foi a mulher do empresário, a dona de casa Alessandra D’Ávila Nunes, que confessou o crime mas disse que agiu em legítima defesa. Ela alega que se sentia sufocada pelo ciúme do marido e que naquela noite ele chegou a agredi-la. De acordo com amigos próximos, o empresário se queixava da atenção exagerada que a mulher dava ao site de relacionamento Orkut, onde tinha cada vez mais amigos e postava fotos em que aparecia descontraída. Depois do homicídio, Alessandra ficou mais de uma semana foragida até que uma liminar expedida pelo ministro José Múcio Monteiro, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), suspendeu o mandado de prisão preventiva contra ela. Graças a outros recursos, a dona-de-casa nunca foi presa.

Dezessete anos mais velho que a mulher, Biasotto a conheceu quando foi padrinho do primeiro casamento dela. Pouco tempo depois, Alessandra se separou para assumir o romance com o empresário. Os dois tiveram um filho, que tinha 5 anos à época do crime. Biasotto estava com 52, e Alessandra, 35. “É no mínimo estranho que uma mulher se separe poucos meses depois de se casar, para ficar com um dos padrinhos”, disse em seu depoimento o empresário Eduardo Pedrosa, que na noite do crime esteve com a mulher, Elizabeth Pifer, no apartamento do casal. Eles festejavam o Dia dos Namorados.

Elizabeth e Pedrosa chegaram ao apartamento de 500 metros quadrados, de frente para o mar da Barra da Tijuca, por volta de 22h. Na comemoração, muito animada, os quatro consumiram três garrafas de vinho e uma de champanhe. “Estávamos em total felicidade, fizemos uma bagunça legal, eu, minha mulher e eles”, lembrou Pedrosa. Até o momento em que ele e a mulher deixaram o apartamento, por volta das 2h30, não houve grandes desavenças entre os anfitriões, embora mesmo na presença das visitas Alessandra dedicasse bastante atenção ao Orkut – o que incomodava Biasotto enormemente. De acordo com Elizabeth, ele era “doido” de ciúme. Naquela noite, segundo Pedrosa, Biasotto revelara que ligou para o celular de Alessandra só para checar se ela havia deixado o aparelho no vibracall (o que possibilitaria receber ligações de um suposto amante sem alarde).

BRIGAS CONSTANTES

Por volta das 5h, já em casa, Elizabeth atendeu uma ligação de Biasotto, que parecia transtornado com a desatenção da mulher. De acordo com ela, o empresário pediu para falar com Pedrosa, que se recusou, dizendo que já era tarde e que ele fosse descansar. “Ele desligou na minha cara”, lembrou Elizabeth. No sábado do crime, que ocorreu no meio do feriado de Corpus Christi, havia poucos vizinhos no prédio, que tem um apartamento por andar, mas os que estavam lá disseram que as ruidosas brigas do casal eram tão corriqueiras que nem deram muita importância à gritaria – pensaram que fosse apenas mais uma, sem maiores consequências.

Ex-dono de uma academia de ginástica no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio, Biasotto estava sem trabalhar havia cerca de três anos. De acordo com os amigos, ele passara o negócio adiante para poder ficar em casa e vigiar Alessandra de perto. “Eu dizia a ele para arrumar uma ocupação, que não dava para agir como fiscal da mulher, mas não dava”, disse Eduardo Pedrosa. Uma das testemunhas ouvidas foi o antigo gerente da academia Douglas de Paula Rodrigues, que disse que Alessandra fazia “campanha contra ele” para o marido. Ao mesmo tempo, foram encontradas mensagens comprometedoras de Douglas para Alessandra no Orkut. Nelas, o gerente a chamava de “gata”, escrevia “te adoro” e que estava “com saudades”. Rodrigues afirmou que alimentava o relacionamento porque acreditava que ela poderia dar uma força para que Biasotto pagasse um dinheiro que lhe devia, e também porque “ela não batia bem”.

COPO ARREMESSADO

Biasotto já havia registrado boletim de ocorrência contra a mulher, quando ela acertou um copo na cabeça dele. De estrutura avantajada, com cerca de 1,80 metro de altura, Alessandra era maior que o marido e, na madrugada do crime, ainda o pegou bêbado. Além dos depoimentos das testemunhas, a promotoria usou laudos periciais que indicavam sinais de luta no local do crime. Segundo o porteiro do prédio, Bruno Arrais, Biasotto desembarcou do elevador muito ferido, cuspindo sangue, e se arrastou até um sofá, balbuciando pedidos de ajuda. Arrais achou que o patrão tinha tido algo no pulmão, já que fumava muito. Quando o empresário conseguiu dizer o que havia acontecido, o porteiro entrou em contato com a Polícia Militar (PM) e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU). Ao chegar, os médicos constataram que o empresário já estava morto.

Enquanto isso, ainda de acordo com a promotoria, Alessandra deixava o edifício pela garagem, a bordo da caminhonete do casal. Levou o filho e, entre os documentos, seu passaporte americano. Nascida em 1974 em Boston, nos Estados Unidos, onde seus pais moravam, viveu lá até os três anos. No dia do crime, segundo ela, pretendia registrar um boletim de ocorrência, mas desistiu porque o distrito policial estava lotado. A polícia informou que, naquele horário, só havia uma pessoa na fila.

O OUTRO LADO

Na versão de Alessandra, a discussão entre ela e o marido começou no banheiro e continuou na cozinha, onde ele aplicou-lhe uma gravata. Em determinado momento, o filho do casal apareceu chorando. “O barulho acordou o menino e ele passou a pedir ao pai que parasse de gritar com a mãe”, disse a J.P o advogado de defesa, Mário Ribeiro Filho. Segundo ele, Biasotto avançou para cima da mãe e do filho. “Alessandra ainda tentou se defender, mas ele passou o braço em volta do pescoço dela. Desesperada, ela esticou o braço até um faqueiro que ficava em cima da geladeira.”

O assistente de acusação Rafael de Piro, que também conversou com J.P, se pergunta: “Se a ré diz que o marido a sufocava de ciúmes e que matou em legítima defesa, por que não procurou antes medidas para se proteger, como a Lei Maria da Penha?” De acordo com Ribeiro Filho, Alessandra vivia “aprisionada” pelo marido, sem poder deixar o apartamento para nada. “Ela era praticamente uma escrava, não conseguia nem dar uma volta na praia com o filho sem ser seguida pelo marido.” O advogado garante que Biasotto costumava acompanhá-la até ao cabeleireiro. Para provar a tese de obsessão, Ribeiro Filho conta que, “mesmo depois de ter o coração cortado ao meio e o pulmão perfurado por uma faca de carne”, ele teve energia para descer a escadaria do prédio atrás dela.

FUGA PARA SÃO PAULO

Ao deixar o edifício, pouco antes das 6h, Alessandra ligou para a mãe, que mora em São Paulo, e contou o que havia acontecido. A mãe conversou com uma advogada conhecida da família, que indicou o criminalista Ribeiro Filho. De Itu, onde estava, o advogado orientou Alessandra a seguir para São Paulo, o que ela fez na caminhonete. À acusação, parece estranho que alguém que estivesse desesperada, em fuga, encontrasse tempo para pegar o passaporte americano e ainda esconder a arma do crime. Ribeiro Filho garante à reportagem que “ela enfiou a mão na gaveta onde guardava todos os documentos e pegou tudo, inclusive o passaporte”. A Polícia Rodoviária Federal e a Capitania dos Portos foram alertadas em relação à possível fuga de Alessandra do país. A Justiça pediu sua prisão preventiva.

Apesar de ter pego o documento “sem querer”, a foragida seguiu a orientação do advogado e o “picou em pedacinhos” para que ele apresentasse ao juiz, com uma carta assinada por ela afirmando que não pretendia deixar o
país. O juiz e o desembargador negaram a liminar, então Ribeiro Filho buscou outras instâncias e chegou ao ministro José Múcio. “O ministro entendeu que era justo revogar a prisão porque viu que ela não era violenta”, diz o advogado. Em relação à faca, que foi encontrada atrás de uma TV no corredor da área de serviço, Ribeiro Filho nega que sua cliente a tenha escondido deliberadamente. Diz que, na correria, ela a atirou longe. “Nem um arremessador de facas conseguiria executar uma pirueta daquelas”, disseram os peritos encarregados da análise do crime. Para eles, a arma do crime foi “cuidadosamente escondida”.

Em audiência de instrução em abril e maio últimos, o juiz ouviu as alegações finais da ré e testemunhas. Agora, segundo a assessoria do Tribunal do Júri, procederá à pronúncia do processo. Ou, segundo espera Ribeiro Filho, à impronúncia (o que evitaria um júri popular). É aguardar. Com todos os trâmites processuais, isso pode levar tempo.