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Os livros e eu

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“Você foge da sua vida para os livros”, me disse um dia minha mãe, já não sei mais quando, uma dessas frases poderosas de mãe da qual nos vemos nos defendendo por anos, talvez para sempre. Ainda que tenham sido ela e meu pai os responsáveis pela criação dessa barricada de páginas entre minha vida e eu: tínhamos em casa tempo controlado de televisão, mas acesso irrestrito a qualquer livro que quiséssemos, era só entrar na livraria e pedir.

Talvez seja essa a origem de meu impulso irrefreável por comprar livros: a permissão parental, esse éden consentido. Além do fato de que — descobri ao me mudar — minha biblioteca é minha casa. Depois de posicionados os móveis, arrumadas as roupas, os pequenos objetos, pendurados os quadros, faltava ainda alguma coisa. Faltavam esses tijolos do meu mundo que trazem, cada um, um mundo; esses tesouros que se fecham sobre si mesmos guardando, em narrativas alheias, nosso segredo. Faltava minha pilha de próximos livros, a montanha que só cresce, o gigante que me assombra na cabeceira da cama e que, com seus sessenta e pouco exemplares (cuja ordem na fila eu de tempos em tempos preciso redefinir), mede a distância entre o que minha vida é e o que eu gostaria que ela fosse.

Sim, mãe. É com os livros que tenho a sensação de chegada, é o sofá azul que me acolhe diante das estantes, com um exemplar aberto, o meu lugar preferido em todo o universo. É ele o meu universo, o meu Alef.

E defendendo-me da sua acusação de fuga, mãe, fui aprendendo que os livros, os romances, as narrativas, organizam o caos do mundo. Convertem sua estranheza em algum tipo de familiaridade, ou, então, vertendo em forma o que era pensamento e sensação, me permitem suportar o insuportável, sustentar as contradições da vida e das pessoas, me permitem ser tantas enquanto sigo sendo eu.

E a ficção, entendi com o tempo, não é uma brincadeira para nos entreter; ainda que, sim, possa nos entreter, e que seja muito prazeroso entrar num lugar narrativo bem construído, um daqueles que nos fazem querer parar tudo até que a última página seja lida.

Ficção, fui entendendo, é coisa muito séria: ficção é a matéria-prima do sonho e, então, o que nos permite imaginar, o que nos permite construir, ou ao menos nos direcionar para o futuro. Ainda que, quando ele chegue, seja sempre diferente do que havíamos sonhado.

Mas apesar dessa importância toda, leremos, lamentavelmente, tão pouco ao longo da vida. Mesmo os que muito lêem. Foi inesquecível a primeira aula da pós-graduação em formação de escritores que cursei no Instituto Vera Cruz, já há alguns anos. Se lermos um livro por semana desde a adolescência e vivermos o bastante, não passaremos muito de dois mil livros em toda a nossa existência. “Por que, então, continuar escrevendo?”, nos perguntava Roberto Taddei, o professor que virou amigo. “Por que publicar mais um livro, por que colocá-lo no mundo?”, me perguntava Gabriela Aguerre, a colega de turma que virou amiga, confessando suas hesitações logo antes de lançar seu maravilhoso “O quarto branco”.

Para que cada escritor possa acrescentar ao que já existe a sua própria voz, o que de único, de singular, só ele poderia dar ao mundo, imagino que Roberto tenha respondido. Para que possamos colocar o nosso, ou os nossos, pequenos tijolos nesse mundo de livros que nos ajuda a encontrar algum sentido na nossa vida tão sem sentido.

E à acusação de fuga feita por minha mãe, hoje talvez eu pudesse responder que os livros não me proporcionam fuga nenhuma de minha vida porque eles também são minha vida; também fazem parte dela e me ajudam a suportar, os que leio e os que escreverei, inclusive o fato de que ela mesma, minha mãe, em estágio avançado de Alzheimer, já não pode compreender minha resposta.

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