Rio Negro
Reprodução/Pixabay

O rio Negro

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Gosto de fazer o exercício de desenovelar a trajetória das pessoas que conheço faz tempo. Olhar o quê ou quem se tornaram, lembrar de quem eram décadas atrás, juntar os pontos, fazer delas personagens da própria vida, como se o presente fosse alguma espécie de final, alguma espécie de desfecho de posse do qual me torno uma narradora secreta da vida alheia. Penso naqueles adolescentes tímidos que hoje são atores ou executivos workaholics ou roteiristas de prestígio, penso naqueles outros que portavam no rosto a luminosidade do sucesso e que hoje estão tentando salvar as empresas que eles mesmo faliram, me divirto preenchendo as lacunas de suas histórias com detalhes inventados e vejo que cada vida, inventada ou não, tem a potência de um romance bom, cheio de reviravoltas.

É assim que percorro com a imaginação a trajetória do Guto, que se sentava na última carteira da sala, chegava todo dia atrasado e com quem eu adorava conversar (eu me sentava na penúltima). O Guto se casou com a Fabi, que também estudava na escola, e eles, depois das faculdades (cada um fez duas) e de trabalhos institucionais, construíram juntos o hotel na Amazônia onde estou agora. Moraram por quatro anos em Novo Airão, inventaram um lugar, um lugar lindo que construíram madeira por madeira, de onde se pode apreciar a beleza vigorosa do arquipélago de Anavilhanas, um dos maiores arquipélagos fluviais do mundo, com cerca de quatrocentas ilhas. Hoje tudo está pronto e funciona perfeitamente; mas imagino ambos decidindo como seria, apostando num sonho que hoje, daqui do futuro daquele 2005, vejo, sorrindo e orgulhosa, que deu certo; imagino suas hesitações, os percalços, a vontade de desistir; vislumbro o momento em que decidiram o ponto do rio Negro em que o hotel Anavilhanas Jungle Lodge se ergueria.

O rio Negro é, aqui, personagem principal. Está por todos os lados, sobe e desce ao longo dos anos, deixa sua marca na vegetação que, seguindo o próprio calendário, inunda e seca. Na escada que desce para o deque do qual mergulhamos no rio todos os dias, há os registros de até onde a água subiu em qual ano. 2021 foi um recorde, bem acima dos anos inscritos nos outros degraus.

Ontem a Fabi me contou que o deque veio de barco de Manaus, chegou pelo próprio rio Negro, principal meio de transporte da região. Imaginei a cena, aquilo que veio a ser um tipo de abrigo sendo levado rio adentro, mata adentro, um barco carregando uma casa flutuante ao longo dos dias.

Do deque que veio de Manaus, dei meu primeiro mergulho no rio Negro. Ingênuos, trouxemos óculos de natação: mas abrir os olhos dentro do rio Negro é abrir os olhos para o escuro e, conforme afundamos, o breu aumenta, assim como a vertigem. Diferente das águas comuns, claras, que nos oferecem uma amplidão de outra densidade que a do ar, o rio Negro oferece um tipo de abismo. Quente, doce, acolhedor, mas abismo: mergulhar na escuridão é como ter que se lançar de olhos fechados para algo que não dá chão algum, mas em cuja superfície é uma delícia de se estar. Eu boio, observo a cor avermelhada com que a água tinge minha pele, e, de tempos em tempos, afundo para o escuro: mergulhar no rio Negro é um pouco como mergulhar em si.

Mas mergulhar no rio Negro é também um pouco como mergulhar no outro. Na maneira como as pessoas daqui vivem, no seu tempo outro, na sua existência outra. E também nos oferecer como estranhos, como estrangeiros: como disse dona Neide, que nos guiou em sua comunidade ribeirinha, a Tiririca, se eles não saem daqui, somos um jeito deles conhecerem o de fora. Na Tiririca, só há luz das 18h às 21h, e há rio Negro o dia inteiro.

Do barco, a escuridão do rio Negro se esconde e ele vira um espelho, sua superfície duplica o céu e as árvores tão perfeitamente que seria possível virar o mundo de ponta cabeça sem prejuízo da imagem. Uma imagem de sonho, um portal aberto na primeira noite, em que navegamos com lanterna procurando os olhos dos bichos nas margens e nos deparamos com uma preguiça, um jacaré, duas cobras, uma garça, três bacuraus.

Volto para São Paulo em breve. Vai ser bom, no meio de um dia corrido, fechar os olhos e encontrar a mesma escuridão que encontrei mergulhando no rio. Vai ser bom saber que o igarapé no qual remamos continua existindo. Pelo menos por enquanto.

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