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O que não fiz

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Uma lista de não-realizações no ano que passou sem passar

Quando se aproxima a virada do ano, chega a hora do balanço individual e coletivo que marca a ciclicidade do tempo, que nos insere em seu caráter não humano, independente de nós. Demarcamos a repetição da natureza para que ela seja também um pouco nossa, para que nossa trajetória linear, ou seja, nossa direção, nosso sentido, se encontre com o tempo que nos transcende, que já existia e continuará existindo depois de nós, que temos começo e fim.

E neste ano, neste 2021 que termina com a sensação de nem ter começado, neste ano que nos faz errar na hora de dizer qual será o próximo ano e qual foi o último, neste ano que demorou séculos para passar e ao mesmo tempo voou, neste ano findamos muito mais. Mais de 320 mil de nós morreram de COVID-19 em 2021, vítimas do vírus e do absurdo que se tornou cotidiano no Brasil. Pois um dos terríveis legados do atual governo foi nos dessensibilizar para o intolerável.

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Mas este não será um texto sobre o governo: será um texto sobre listas e retrospectivas, sobre as maneiras com que tentamos organizar o futuro e o passado e assim, fazê-los um pouco nossos. Será os dois ao mesmo tempo, pois uma retrospectiva é também uma lista, afinal de contas: uma lista do que aconteceu. Farei diferente, no entanto: farei a lista do que não me aconteceu.

Não morri. Cheguei até à vacina, apesar das tentativas do governo para que não chegássemos (estou tentando, mas parece impossível falar do ano sem falar do governo). Cheia de pesar pelos que não chegaram, ou pelos que chegaram mas foram vitimados pela falta do cuidado que, junto aos imunizantes, seria a melhor estratégia para se lidar com uma pandemia.

Não me entreguei à exaustão, embora ela estivesse sempre à espreita; não li todos os livros que gostaria de ter lido, nem metade deles, nem um décimo deles, aliás; não farei a lista dos melhores livros do ano porque meu ano foi cheio de textos soltos, livros inacabados, foi cheio de desejos literários não realizados.

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Não estive com meus filhos o tempo que gostaria de ter estado; eles cresceram, eles se machucaram, eles se curaram, eles cuidaram de mim.

Não estive com minha mãe, que pelo Alzheimer já saiu do tempo, mas não da vida, o tanto que gostaria de ter estado; não pude dizer a ela que sua mãe, minha avó, nos deixou aos 94. Tampouco pude dizer que sim, me tornei escritora; que meu sonho de criança está se concretizando dia a dia, numa trajetória da qual, tenho certeza, ela e meu pai se orgulhariam.

Não deixei de sentir falta do meu pai. A psicanálise estava certa, o luto envelhece; Roland Barthes também estava certo, o luto não envelhece.

Estudei muito menos do que eu gostaria, ou do que achei que era esperado de mim; não foi em 2021 que consegui, ainda, distinguir o que esperam do que eu mesma espero de mim. 

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Dormi muito, muito menos do que gostaria.

Vi menos filmes e séries do que gostaria. Não andei sem rumo uma única vez.

Viajei pouco.

Fiz menos pelas outras pessoas do que gostaria de ter feito. Fiz menos por mim do que gostaria de ter feito.

E no entanto, do alto dos meus privilégios, consigo dizer que 2021, o ano que não aconteceu, o ano que passou sem passar, foi um ano bom. Um ano que, ainda que tenha nos tirado tanto, nos deu vacina, reencontro e esperança.

E nos deu de novo a certeza de que a vida é mesmo uma trajetória cheia de nãos, incompleta e imperfeita, mas à qual continuamos dizendo sim.

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