Antiracismo
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Joice Berth: O antirracismo de fachada e as ucranianas de São Paulo

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A fala do “deputado” é asquerosa, mas é a manifestação de um pensamento estrutural. Reparem na ideia estendida esboçada no áudio que Arthur do Val, vulgo Mamãe Falei, mandou aos amigos:

“São fáceis porque são pobres. (…) uma dessas em São Paulo você dá bom dia elas cospem na sua cara. Aqui você pega”.

Quem seriam as ucranianas de São Paulo? As mulheres brancas ou loiras, altas, magras? As que aparecem exaustivamente na televisão, nas capas de revista como símbolo de beleza e têm pautado a brancura como ideal de beleza, desejo e aceitação pública?

O padrão eurocêntrico criado pelo homem branco como ideal para se relacionar, para mostrar para a sociedade como símbolo de que “venceu na vida”? As princesas ou mocinhas das novelas e filmes, que despertam empatia ao menor sinal de lágrima e se encaixam no estereótipo de sexo frágil tão útil as masculinidades deformadas pelo machismo? Sim, essas mesmo.

Aqui, no Brasil, elas não são majoritariamente pobres, porque pobres são majoritariamente as pretas e pardas (negras) e as indígenas. E, não por acaso, são as que ocupam massivamente os piores indicadores de desenvolvimento humano, de gravidez precoce, de abandono paterno durante a gravidez, de celibato definitivo, de desemprego, de desabrigadas, de violência obstétrica etc.

Quem seriam as ucranianas de São Paulo? Aqui, no Brasil, elas não são majoritariamente pobres, porque pobres são majoritariamente as pretas e pardas (negras) e as indígenas

O importante aqui é entender que o padrão de beleza não é atestado de valor humano dentro da estrutura machista. Na verdade, esse padrão é apenas a classificação do lugar social que os “objetos femininos” ocupam na escala de exploração e subalternidade.

Por que estou dizendo isso?

Para ilustrar por que mulheres brancas não podem corroborar o racismo se recusando a discutir a maneira escancaradamente desumana com que as não brancas são tratadas, e cujo sintoma está invariavelmente presente e visível no campo da afetividade.

Um homem que não enxerga humanidade em uma mulher apenas por ela ser negra ou não branca obviamente não é capaz de enxergar humanidade em qualquer outra mulher, mesmo nas que se encaixam no padrão de beleza e aceitação criado por eles. Porque esse padrão de beleza, em verdade, é um padrão para uso e objetificação que somente se divide em uso e objetificação pública e uso e objetificação privada.

E as mulheres que cabem nele, como bem expressou o “deputado”, são objetos permitidos porque são símbolos de poder social.

É tipo quando você tem uma roupa nova e uma roupa velha. Você gosta de usar ambas, mas a sociedade não vai te olhar com bons olhos se você aparecer vestido com a roupa velha, por mais confortável você esteja. Então, você usa a roupa velha escondido no aconchego do seu lar ou em lugares onde não será visto. E ostenta a roupa nova em público, porque ela faz com que a sociedade te perceba como alguém valoroso, virtuoso, poderoso. Roupa é objeto que consubstancia o status social. Mulheres, também. Não por acaso, até bem pouco tempo atrás, homens comparavam mulheres com carros.

Mas tanto roupas quanto carros, novos ou velhos, não são percebidos para além do seu uso e dos benefícios que proporcionam a quem os adquire.

As mulheres negras e não brancas ou não hétero têm sido a roupa velha na sociedade patriarcal. E por mais que as brancas, digo, as roupas novas, se gabem e acreditem que estão ocupando uma posição de valor igual ou equivalente ao “seu homem”, não passam de meros objetos para uso e exploração. O que o “deputado” disse não é uma ideia ou prática apenas dele e de seus amigos.

É da maioria esmagadora dos homens patriarcais, inclusive de muitos que se dizem desconstruídos. É que as masculinidades são covardes o bastante para não assumir isso publicamente. Mas o que é reprimido não desaparece e encontra outros caminhos para se manifestar, como usar “roupas velhas encondido”, por exemplo.
Porque estamos falando de um problema estrutural, o machismo, que é uma relação de poder, assim como o racismo, que estabelece uma hierarquia humana e define quem vale mais e quem vale menos.

E até que todas as mulheres estejam conscientes dessa variação das práticas machistas e refutando as exclusões ou as preferências racistas justificadas pelo clichê “é questão de gosto”, essa naturalização da objetificação e da desumanização de TODAS as mulheres vai continuar passando, só que agora com mais cuidado para não chocar a opinião pública.

Podemos contar com a indignação pública que se ergue porque trata-se de um caso de incentivo à exploração sexual de mulheres em situação de extrema vulnerabilidade, vivendo as violências misóginas sempre presentes em uma guerra política. Contudo, com ou sem guerras políticas entre homens, nós estamos sempre na mira desses comportamentos simbolicamente violentos que são moldados e naturalizados pelo machirracismo (o machismo somado ao racismo).

É preciso analisar as questões que se destacam na sociedade sem se afastar da perspectiva estrutural que são a sua nascente. E lembrar da grande poeta, escritora e feminista negra norte-americana Audre Lorde, que nos ensinou que não seremos livres (dos Mamãe Falei da vida e da sociedade machirracista) enquanto todas as correntes que aprisionam as mais variadas existências femininas não forem rompidas, ainda que não saibamos exatamente o peso e a espessura dessas correntes.

Joice Berth é arquiteta urbanista, ativista feminista e autora de “O que é empoderamento?”

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