the beatles get back
Divulgação/Disney+

“Get Back”: mas já não há para onde voltar

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John, Paul, Ringo, George. Os Beatles seriam algum tipo de majestade — penso agora, recém-terminado o documentário “Get Back” — se não fossem garotos que, para se familiarizar com a própria música, brincam com ela, jogam. Ou talvez sejam majestosos precisamente por isso.

As cerca de oito horas divididas em três episódios superaram todos os recordes aqui em casa. Começamos a assistir séries, com unidades mais curtas, apenas depois de começada a pandemia simplesmente porque dormíamos no meio dos filmes (que antes víamos no cinema). Avisei meu companheiro que estava cansada e que provavelmente não chegaria muito longe. Mas aconteceu que assisti às duas horas e meia com um sorriso nos lábios, encantada com os gestos mais comuns de cada um dos quatro, e de Linda, e de Yoko (cujos gestos não parecem nunca comuns), os cigarros, as piadas, os cabelos, os olhares. Terminado o primeiro episódio, foi até difícil dormir. Já era madrugada, mas a vontade era começar o segundo.

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“Assistir à contribuição de cada um para que cada música seja exatamente aquela que a minha memória antecipa é como ter acesso ao funcionamento de uma engrenagem misteriosa.”

Natalia Timerman

Continuar acompanhando a composição de canções que são o repertório da minha vida parecia uma urgência— o caminho até chegar ao verso ou à frase musical, a impressionante complementaridade entre John e Paul, a genialidade de Paul, que, no entanto, precisava que John estivesse ali para ser tão genial. Assistir à contribuição de cada um para que cada música seja exatamente aquela que a minha memória antecipa é como ter acesso ao funcionamento de uma engrenagem misteriosa. A decisão quanto ao acorde, ao peso, ao contraste, e eles em tão poucos dias iam erigindo clássicos. A cada definição, uma peça se encaixa, e, de hoje, do futuro daquele longínquo 1969, é com um prazer aliviado que assisto ao caminho errático em direção à perfeição — mesmo que a perfeição seja também algum tremor na voz, uma guitarra que titubeia, embora isso quase não apareça, ou já faça parte das versões que me acostumei a escutar: eles tocavam, tocavam, tocavam, e juntos, ao vivo, chegavam à versão final. Definitiva.

E como se divertiam. E como se cansavam. E fumavam, e bebiam, discutiam, e aquilo que me impressionava era já o caminho para o fim — fiquei imaginando como havia sido antes, o começo, a beatlemania, tão compreensível: minha admiração resvalou em certo apaixonamento por cada um dos quatro em diferentes momentos do filme. Talvez tenha ficado mais em John, que é como se estivesse vivo, como se nunca tivesse morrido, nem Linda, que ainda não era McCartney mas que era mesmo tão linda. Fiquei buscando mais sobre eles, as lacunas tantas dessas personagens de suas vidas e também da minha.

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O olhar de Paul — o que é o olhar dele? Doce, ingênuo, sagaz, castanho claro, delicado, um pouco desengonçado, subvertendo a potência de sua postura, sua autoridade, sua maestria. A voz. A voz de Paul McCartney, que é como uma pessoa inteira à parte.

O rosto de Ringo, um rosto mais Beatle, talvez, que o de qualquer outro, como se ali, naqueles olhos grandes e caídos e azuis e naquele nariz e naquele cabelo, nas costeletas, estivesse algo da capa de cada disco, ou como se todas as figuras de Sargent Peppers Lonely Heart’s Club Band fossem, na verdade, um fractal que replicasse o todo daquele rosto. Ringo, que observa enquanto dá o ritmo, que com seu silêncio ativo preenche todos os espaços do recinto no qual pareço ter estado. Porque as imagens, da maneira como foram tratadas, ou talvez porque foram filmadas inicialmente para a televisão, não têm o tom desbotado das fotografias velhas. É como se fosse hoje, e os movimentos de cada um, assim, se tornam comuns. Tão iguais aos nossos.

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“O que há depois do ápice, senão um vazio? Para que mais um álbum?, pergunta Paul”

Natalia Timerman

A discussão e a saída de George logo no primeiro episódio, rachadura que antecipa o fim próximo da banda, revelam o avesso do ídolo: a busca por espaço, a insegurança, e principalmente, talvez, a procura pela autenticidade, não apenas artística. O que há depois do ápice, senão um vazio? Para que mais um álbum?, pergunta Paul.

John, tenho a impressão, é quem mais aparece nas filmagens do último show da banda, no terraço do prédio do estúdio em que tocavam. Com as mãos congelando de frio, os cabelos esvoaçantes e algo de enigmático, de belo e incompreensível. De pé, longe de Yoko Ono alguns metros pela primeira vez no documentário — parecia haver um ímã entre os dois, Yoko se postava ao lado de John o tempo todo, o que me causou certa estranheza, certa aversão, certo ciúme. Me vi procurando seu rosto por detrás dos cabelos, tentando entender o fascínio de John, e sim, ela era bela e única como ele.

Impossível não mencionar também Billy Preston, que apareceu para dar um oi porque estava por acaso na cidade, sem saber que os Beatles precisavam de um tecladista. Há muito de acaso na genialidade, afinal. Sua contribuição para “Get Back” e “Let it be” é imprescindível para as canções serem o que são.

A última apresentação dos Beatles ao vivo, o famigerado concerto no telhado, é a antítese do que temos hoje como arte: era música sem imagem. As pessoas, da rua, escutavam, mas não conseguiam sequer saber de onde vinha o som. Eles não precisavam ser vistos, não queriam: queriam apenas tocar. E que aquilo fosse algum tipo de fechamento, de lançamento, um foguete, como disse Paul, para demarcar o fim de um trabalho de composição e ensaio. E algo mais, algo único: talvez por isso ele tenha visivelmente se empolgado, dançando e sorrindo, diante dos policiais que chegaram ao teto para impedi-los de tocar — o que obviamente não fizeram. Aquilo era ininterrompível.

“Um choro, afinal, pelo fato de que nosso tempo jamais produzirá nada do mesmo tamanho, ou nem perto disso”

Natalia Timerman

Lágrimas brotavam de meus olhos ao final do documentário. Um choro tardio pelo fim dos Beatles, certo tipo de luto deslocado, ressurreto; mas um choro, também, pela passagem do tempo, pela morte dos que morreram, pela morte dos sonhos daquela época — morte que tem nos custado tão caro; pelo que foram os Beatles e, talvez mais do que tudo, pelo fato de que nosso tempo, uma época em que subvertemos a própria noção de tempo, em que, em nome de avanços que nos trituram ao nos levar cada vez mais longe, subvertemos verdades e valores — dentre os quais os que tornam o próprio documentário “Get Back” digno de nosso interesse, pois há 50 anos não havia apelo ao que é íntimo como o que foi exacerbado pelas redes sociais; um choro, afinal, pelo fato de que nosso tempo jamais produzirá nada do mesmo tamanho, ou nem perto disso. Nada que, daqui a 50 anos, continue fazendo meus netos chorarem. Até porque provavelmente, até lá, o mundo seja algo ainda mais difícil de habitar.

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