22.06.2019  /  9:00

Como Elizabeth Holmes atraiu investimentos com startup bilionária e construiu uma das maiores farsas do Vale do Silício

Como Elizabeth Holmes, a jovem empresária que seduziu poderosos e atraiu investimentos com a Theranos, startup bilionária que prometia revolucionar a medicina mundial, construiu uma das maiores farsas já contadas no Vale do Silício

por anderson antunes

Foi numa quinta-feira quente de julho de 2015 que a empreendedora americana Elizabeth Holmes, já descrita como uma “nova Steve Jobs”, teve a certeza de que a startup que havia fundado aos 19, a Theranos, se tornaria, como muitos diziam, a Apple de sua geração. E ela chegou a essa conclusão após ouvir um discurso da ex-presidente brasileira Dilma Rousseff.

Recebida com pompa no Ames Research Center, o centro de pesquisas da Nasa que fica em Mountain View, na Califórnia, Dilma disse para uma pequena plateia formada por poderosos como o bilionário Tom Siebel (da empresa C3) e o investidor Tom Stephenson (da Sequoia Capital), conforme a própria Elizabeth relatou mais tarde, que um dos pontos que unia duas das maiores economias do mundo, Brasil e Estados Unidos, era justamente encontrar uma solução tecnológica para resolver os vários problemas da saúde pública. Bingo!

Para a jovem empresária e CEO da Theranos, uma startup que surgiu em 2003, mas que só teve seu momento de virada dez anos depois, tal declaração vindo da presidente do Brasil era música para os ouvidos. Isso porque a empresa que prometia revolucionar o segmento de exames de sangue vivia sua melhor fase justamente naquele momento, com direito a um interesse cada vez maior da mídia por sua fundadora.

Porém não demorou muito para a casa cair. Em outubro daquele mesmo 2015 uma reportagem publicada no The Wall Street Journal trouxe à tona detalhes jamais imaginados sobre a rotina de um negócio totalmente desorganizado e fundamentado em uma ideia que era, no fim das contas, uma grande mentira. Talvez a maior farsa já contada no Vale do Silício. Não por acaso, Elizabeth viu sua lua de mel com a imprensa especializada terminar mal, com o prego no caixão se tornando a inclusão de seu nome em uma lista com os 19 líderes globais mais decepcionantes daquele ano – ranking que, ironicamente, também contou com a presença de Dilma Rousseff. O que se deu a partir daí foi uma das maiores quedas do mundo corporativo de que se tem notícia – antes avaliado em US$ 9 bilhões, o valor da Theranos despencou.

MÁQUINA DO TEMPO
Nascida em Washington, filha de um executivo que chegou a ser vice-presidente da extinta Enron e de uma assessora parlamentar, Elizabeth Holmes é bisneta de Christian Rasmus Holmes, um médico dinamarquês que emigrou no século passado para os Estados Unidos, onde fez carreira como cirurgião e chegou a participar da criação do Cincinnati General Hospital, um dos centros médicos mais renomados da América. Os Holmes se mudaram para Houston, no Texas, quando a futura garota prodígio tinha apenas 7 anos. Nerd, Elizabeth foi matriculada em uma das melhores escolas preparatórias para o ensino superior, e aí conheceu bem o universo da programação. Em casa, estudava mandarim e, quando tinha tempo livre, trabalhava em sua primeira invenção: uma máquina do tempo.

Aos 9 anos, a garotinha já ganhava dinheiro vendendo para entidades educacionais da China softwares que traduziam códigos de computador, e o sucesso da primeira empreitada empresarial a fez prometer aos pais que se tornaria bilionária na vida adulta. Admitida na disputada faculdade de engenharia química da Universidade Stanford, ela largou os estudos em 2004, um ano depois de fundar a Theranos, para se dedicar inteiramente ao que realmente acreditava ser sua melhor contribuição para o mundo.

Como qualquer companhia, a Theranos passou anos sem quaisquer feitos de nota. Até que Elizabeth Holmes descobriu que poderia fazer amizade com poderosos para conseguir contratos para a empresa, e foi graças a uma dessas conexões, com o ex-secretário de Estado dos EUA George Shultz, que ela conquistou seu primeiro grande contrato. Por meio de uma parceria de US$ 350 milhões fechada com a varejista Safeway, os exames de sangue de baixo custo oferecidos pela Theranos ficaram acessíveis à população de muitas cidades americanas. Com isso, a empresa chamou a atenção de investidores.

Entre 2013 e 2014, a Theranos levantou US$ 900 milhões com muitos investidores, incluindo aí os Walton, donos da gigante varejista Walmart, e o barão da mídia Rupert Murdoch, atingindo um valor de mercado de US$ 9 bilhões. Proprietária de 50% da empresa, Elizabeth fez história ao ser apontada pela Forbes como a mais jovem bilionária self-made dos EUA, cumprindo a promessa que fez aos pais na infância. A Theranos chegou a ter em seu conselho Henry Kissinger, além do próprio Shultz, mas uma sucessão de erros de sua CEO e seu fiel escudeiro e ex-namorado, Ramesh Balwani, colocou tudo por água abaixo.

O casal curtia o auge sem se separar. Talvez embriagados pelo poder, os dois passavam muito tempo discutindo questões mundanas. Uma conversa sobre o nome que dariam para o sistema de armazenamento em nuvem da empresa, por exemplo, se estendeu por duas horas (Elizabeth acabou por escolher “Yoda”, seu personagem favorito de Guerra nas Estrelas). Ao mesmo tempo, os engenheiros de produto da Theranos a alertavam que a máquina de exames que ela decidiu chamar de Edison em homenagem a Thomas Edison, provavelmente o maior inventor de todos os tempos, era incapaz de apresentar resultados satisfatórios. “Talvez vocês não tenham nascido para ‘vingar’ no Vale do Silício”, a chefe dizia sempre depois de discussões do tipo, repetindo um dos mantras do mundinho high tech.

Críticas à empresa eram sempre tratadas algo belicamente por seus diretores. Liderado pelo advogado David Boies, que em 2001 derrotou a Microsoft em um caso de monopólio que entrou para a história dos tribunais, o time jurídico da Theranos ameaçava processar ex-funcionários que pediam o chapéu por se decepcionar completamente com o ambiente de trabalho e chegou a pressionar o jornalista do Wall Street Journal quando este pediu mais dados sobre os métodos laboratoriais que Elizabeth dizia ser “revolucionários”. “Você quer que a gente mostre a receita da Coca-Cola só para ver que não tem arsênio”, argumentou um dos advogados que o interpelou.

No começo de 2018 a Theranos entrou na mira do órgão regulador do mercado de capitais americano, e tanto Elizabeth como Balwani se tornaram réus em uma ação ainda em curso que pode custar a ambos anos de liberdade e multas multimilionárias. Dos US$ 900 milhões levantados, pelo menos um terço foi para advogados, outros US$ 200 milhões foram usados para reembolsar clientes da Theranos e o restante foi torrado para manter a empresa, que acabou por fechar as portas em setembro. A fatídica história empresarial de Elizabeth Holmes já foi tema de livro (Bad Blood, de John Carreyrou, o jornalista do Wall Street Journal), rendeu um documentário de duas horas da HBO e em breve vai ganhar a telona, com Jennifer Lawrence no papel principal. No Vale do Silício, a lição que ficou é a de que a necessidade de “fingir até conseguir” (“Fake until you make it”), outra frase comum lá, foi levada a sério demais pela empresária.