09.03.2021  /  10:31

Clóvis de Barros Filho fala sobre amor e resiliência na pandemia: “Toda forma de amor, especialmente pelo outro, é fator fundamental da resiliência neste momento”

Clovis de Barros Filho || Créditos: Divulgação / Ilustrações: Nando Santos

Para o escritor e professor de ética Clóvis de Barros Filho, toda forma de amor, especialmente pelo outro, é um fator fundamental da resiliência neste momento de pandemia. E, segundo ele, a melhor maneira de ser feliz é viver adequadamente o presente e não esperar do mundo mais do que ele pode nos proporcionar naquele instante.

Por Denise Meira do Amaral para a revista J.P

Passamos tanto tempo preocupados em encontrar a felicidade e planejando o futuro que não vivenciamos plenamente o agora. É o que observa Clóvis de Barros Filho, professor de Ética, doutor e livre-docente pela Escola de Comunicações e Artes da USP e autor de mais de 15 livros. Ele ainda reforça que aproveitamos o subterfúgio da quarentena para colocar nossa vida em uma espécie de sala de espera, deixando-a para depois. “É como se estivéssemos colocando a vida entre parênteses, sem nos darmos conta de que a vida de agora vale tanto quanto o instante de vida pós-pandêmico”, diz. Especialista em temas como amor, confiança, felicidade, valores e qualidade de vida, Clóvis afirma que o amor, especialmente pelo outro, é um fator fundamental da resiliência durante a pandemia. “Se você tem um momento de abatimento e só precisa se ocupar de si mesmo, aceita com mais naturalidade estender essa fase de melancolia do que se tiver alguém precisando comer às suas custas.”

J.P: Como falar em felicidade em tempos de pandemia?

CLÓVIS DE BARROS FILHO: Podemos falar de felicidade em qualquer época. Quando temos um instante de vida feliz, é muito pouco provável que tenhamos condições mentais de pensar sobre a felicidade. A teorização sobre felicidade acontece como uma busca ou como uma falta. Quando você se dá conta de que há felicidade, é justamente porque ela está acabando. Um instante pleno de vida feliz é um instante que dispensa essa percepção porque uma das trações da felicidade é uma plenitude de alma na interação com o mundo vivido. Quando essa interação com o mundo é real, não há espaço para ficar constatando nada. Um matemático resolvendo um teorema, superfocado, não vai parar no meio da equação e falar: “Nossa, como estou feliz resolvendo esse teorema”. No programa do Jô [Soares], quando o entrevistado era espetacular, a plateia falava ao final: “Ahhh”. Você está 100% entretido com a entrevista e só se dá conta de que era boa quando termina. O flagrante da felicidade é voltado para o passado, para o que já aconteceu. Ele nunca é gerúndio, é pretérito perfeito.

J.P: É possível ser otimista nos dias atuais?

CBF: O “ismo” é um sufixo que aponta para o que vem antes. Para um comunista, a comunidade é o que há de mais importante, para um anarquista, é a falta de poder. Para o otimismo, o ótimo é o mais importante. O que se entende no senso comum como um otimista? Um cara que pensa que o amanhã será melhor que o hoje, que entende que o que está por vir tem um valor positivo ao que está sendo imediatamente vivido. Nesse sentido, poderíamos dizer que o otimista é um esperançoso, uma pessoa que é capaz de pensar o amanhã com contentamento. A esperança é um momento de potência. Eu penso que é sempre possível fazer do tal do otimismo um hábito. O otimismo pode ser resultado de um treinamento. Você pode se exercitar para criar o hábito de pensar o futuro de uma maneira auspiciosa e agradável. Há inúmeros treinamentos de psicologia cognitiva que fazem isso. Por outro lado, a melhor maneira de se preparar para o futuro é viver adequadamente o presente. É a nossa melhor contribuição para o futuro. Quanto menos pensarmos sobre o futuro e quanto mais o presente imediatamente vivido esgotar nossa atenção e tiver valor por ele mesmo, mais o futuro será melhor. Uma pessoa que fica imaginando seu futuro 100% está se preparando mal para o amanhã. Inversamente, uma pessoa que vive a imediatidade da vida, tende a ter um amanhã superior ao primeiro caso.

J.P: Como diria o poeta Paulo Leminski, distraídos venceremos?

CBF: Sim, é maravilhoso. Você pode passar cinco anos na faculdade só pensando em quando entrar no mercado de trabalho ou você pode passar a faculdade vivendo o presente. A vida é sempre melhor vivida na sua plenitude.

J.P: A falta de vínculos afetivos e a perda da coletividade, prejudicados mais na quarentena, afetam a sanidade mental?

CBF: Tenho dificuldade em ter clareza sobre o que é o saudável e o que é patológico. Quem é saudável mentalmente? Quem define a saúde mental? Essa definição é politicamente e historicamente construída, é uma questão de poder. Se eu posso fabricar patologias e sou um curandeiro, terei todo interesse em multiplicar patologias. Se eu fosse submetido a uma avaliação mental, tenho certeza de que não passaria (risos). Agora, posso dizer que a fragilização dos laços sociais é um fator de risco para a vida e o reforçamento ou a solidez dos laços sociais é um fator protetivo da vida. Quero lembrar o que [Émile] Durkheim disse sobre o suicídio no século 19: “Triste todo mundo fica, e com muita frequência, mas, no meio dos tristes, tem aqueles que desistem de viver. E outros que não”. Você verá que quanto mais consistente são os laços afetivos, menor a chance de desistir de viver.

J.P: Como manter a resiliência?

CBF: Todo mundo passa por abatimento. Mas a probabilidade de você dar a volta por cima é muito maior quando você tem relações sociais. Se você tem um momento de abatimento e só tem que se ocupar de si mesmo, aceita com mais naturalidade estender essa fase de melancolia do que se tiver alguém precisando comer às suas custas. O amor é um fator fundamental da resiliência, e pode ser amor pela própria vida, amor pelo trabalho ou amor pela vida do outro, que, a meu ver, é mais consistente. O amor é um elemento decisivo na manifestação resiliente de um indivíduo agredido pelo mundo.

J.P: É possível ser feliz em condições de desigualdade social evidenciadas ainda mais na pandemia?

CBF: Tudo depende do seu nível de empatia. Para muita gente, a desgraça do outro não a afeta em nada. As pessoas estão blindadas, tanto pela repetição da desgraça em série, afinal, todo dia são novos 1.300 mortos, e, de fato, isso vira um número, do contrário esse sofrimento seria devastador. Mas existem, sim, pessoas que são mais sensíveis e empáticas e que a devastação alheia as afetam. Eu mesmo passei a pandemia engajado em projetos de lives para profissionais de saúde e familiares de pessoas que morreram ou que estavam internadas.

J.P: E o que você dizia para essas pessoas?

CBF: Para aquelas que perderam alguém, que a finitude é um dado da existência, portanto é preciso respeitar o luto e fazer com que elas permitam uma gratidão pelo passado compartilhado com a pessoa que foi embora. Uma espécie de paz interior pela vida vivida. Para os que ainda tinham esperanças, procurava passar uma mensagem de reforço dessa esperança e de não baixar a guarda até o fim.

J.P: Existe algum modo para ser mais feliz?

CBF: Não esperar do mundo mais do que ele pode nos proporcionar naquele instante, senão seremos eternamente frustrados. Recomendo uma reconciliação com o mundo, o que pressupõe uma competência para identificar detalhes alegradores. Eu poderia estar dando essa entrevista apenas para cumprir um protocolo ou poderia estar encantado por ela e me alegrar nos detalhes. Podemos, assim, vencer a estrita instrumentalidade da vida. A felicidade é aquele instante de vida que você gostaria que durasse um pouco mais. É o contrário de ficar olhando para o relógio, é o desejo da eternidade do instante vivido. Se você der ao mundo a chance de instantes de vida que possam valer por eles mesmos, será mais fácil passar por tudo isso. E diria mais: todo os valores da vida devem estar presentes onde a vida está até porque se formos esperar a situação ideal para vivermos bem, provavelmente não viveremos nunca.

J.P: Acha que estamos adiando viver por conta da pandemia?

CBF: Sim, nos colocamos em uma espécie de sala de espera. Em quase tudo que é dito sobre a vida é dito “quando tudo acabar” e “quando voltar ao normal”. Como se estivéssemos estabelecendo um hiato, colocando a vida entre parênteses, sem nos darmos conta que a vida de agora vale tanto quanto o instante de vida pós-pandêmico.