Cidades que reforçaram isolamento social contra gripe espanhola tiveram recuperação econômica mais rápida, diz estudo

01.04.2020  /  17:10

São Paulo vazia por conta da Covid-19 // YouTube

Em pronunciamento em rede nacional na noite dessa terça-feira o presidente Jair Bolsonaro baixou o tom de seu discurso, mas voltou a defender a retomada da atividade econômica em meio à pandemia ao afirmar que “o efeito colateral das medidas de combate ao coronavírus não pode ser pior que a própria doença”. Preocupado em evitar uma forte retração econômica, Bolsonaro tem defendido que é preciso aliar o combate ao vírus ao desemprego e assim tenta convencer a maioria dos brasileiros a abandonar a quarentena contra a Covid-19 – na sua avaliação, apenas os mais idosos e portadores de outras doenças que formam o grupo de risco deveriam ficar em casa.

Mas pode a cura ser, como alerta Bolsonaro, mais danosa do que a enfermidade? Em estudo publicado na Social Science Research Network (SSRN), os economistas Sergio Correa, do Banco Central americano, Stephan Luck, do Banco Central de Nova York, e Emil Verner, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, mostram com base na história da gripe espanhola de 1918, que a economia entra em contração por causa da pandemia, não das políticas adotadas para combatê-la.

De acordo com o estudo, medidas preventivas de isolamento social adotadas na época em cidades dos Estados Unidos foram positivas para prevenir mortes, bem como para amenizar o impacto econômico causado pela pandemia. Ao analisar como se deu a recuperação da economia em 43 cidades após o fim do surto de gripe espanhola, Correa, Luck e Verner concluíram que a atividade voltou a crescer mais rápido onde as autoridades municipais adotaram medidas para conter a expansão da epidemia, em comparação com locais que não atuaram para reduzir o contágio. Segundo eles, diversas cidades americanas adotaram em 1918 estratégias de distanciamento social similares às que têm sido usadas hoje ao redor do mundo contra o coronavírus, como “fechamento de escolas, teatros e igrejas” e “a proibição de reuniões de massa”.

Ao comparar a forma como as cidades usaram essas medidas, os economistas perceberam que ações preventivas adotadas precocemente e com mais intensidade não agravaram a crise econômica. “Pelo contrário, cidades que intervieram antes e mais agressivamente experimentam um aumento relativo do emprego na indústria, da produção industrial e dos ativos bancários em 1919, após o fim da pandemia”, disseram os autores. Ações adotadas dez dias antes da chegada da doença contribuíram para um aumento de 5% no emprego industrial das cidades no período posterior à pandemia de 1918, por exemplo. Da mesma forma, implementar essas medidas por mais 50 dias resultaram em um crescimento de 6,5% do emprego na indústria após o fim da pandemia.

Em 1918, ao menos 40 milhões de pessoas morreram por causa da gripe espanhola. Naquele ano, um único evento público provocou a morte de mais de 4.500 pessoas expostas à contaminação durante um desfile pelas ruas da Filadélfia, cidade americana que não optou por não adotar o distanciamento. Embora não se saiba a origem exata da doença, ela foi batizada “gripe espanhola” porque os primeiros relatos sobre uma então misteriosa epidemia surgiram em Madri.