28.07.2020  /  9:00

Celso Athayde, da Cufa, e Gilson Rodrigues, do G10 Favelas, mandam a real sobre a pandemia nas comunidades

Celso Athayde, da Cufa, e Gilson Rodrigues, do G10 Favelas // Fotos: Ricardo Borges / Folhapress; Oswaldo Corneti

Em tempos de pandemia, a situação a que estão submetidos moradores das favelas ficou ainda mais em evidência. PODER conversou com dois líderes comunitários influentes para saber o que pensa quem pensa a favela (Por Aline Vessoni para Revista PODER)

CELSO ATHAYDE
Produtor e um dos fundadores da Cufa (Central Única das Favelas)

O QUE MUDOU NA ATUAÇÃO DA CUFA ANTES E DURANTE A PANDEMIA? A Cufa está em mais de 5 mil favelas em 27 estados. A ideia é fomentar a formação de líderes sociais. Com a pandemia, todos os negócios na favela ficaram impactados. Transformamos os centros de formação em centros de distribuição. Nosso instituto de pesquisa, o Data Favela, contabilizou 13 milhões de habitantes de favelas, dos quais 5,2 milhões são mães. Por isso focamos a arrecadação de alimentos nas mães, por uma razão simples: elas são as gestoras das residências. Focar nelas significava focar na família.

ACREDITA QUE PÓS-PANDEMIA PODERÁ SURGIR UMA SOCIEDADE MAIS SOLIDÁRIA E QUE A LONGO PRAZO INSTITUIÇÕES COMO A CUFA NÃO PRECISARÃO MAIS EXISTIR? Estamos falando de um país com desigualdades históricas e se não fizermos uma reflexão do que leva à desigualdade vamos tentar resolver o problema sem perceber suas causas. O Brasil foi fundado em um regime escravocrata, em que se definia escravo pela cor da pele. Hoje, 69% das pessoas que moram em favelas são pretas e não é por acaso. Só educação não resolve, é preciso implementar educação antirracista. O ideal seria que não tivesse sentido a existência dessas organizações, mas a mudança só vai acontecer quando os pretos e favelados perceberem o poder que têm. E que se não nos respeitarem, podemos criar nossas plataformas e fazer com que a riqueza que nós geramos comece a dar frutos para nós.

QUAL O MAIOR DESAFIO PARA AS FAVELAS COM A COVID-19? O impacto econômico. A falta de acesso ao trabalho e à remuneração pode matar de fome e deixa as pessoas em estresse permanente. Objetivamente temos desdobramentos em todos os sentidos e quem vai sofrer o impacto negativo de milhões de desempregados é a base da pirâmide.

COMO TEM SIDO A POLÍTICA DE TRANSFERÊNCIA DE RENDA NAS COMUNIDADES? Não existe projeto de transferência de renda que não seja da Cufa para as mães da favela – disponibilizamos R$ 240. A Rocinha tem cerca de 150 mil habitantes, é preciso olhar as favelas como cidades. As favelas têm nuances como o tráfico de droga que não existem em outro tipo de lugares de exclusão como comunidades ribeirinhas ou indígenas. É importante que não se pense os pobres como iguais, porque nem na favelas todos são iguais, também se dividem em classes sociais. É importante que o governo crie políticas sociais exclusivas para as favelas, com pessoas que pensem esse território e não apenas quem estudou em Harvard e pense o Brasil como um todo.

GILSON RODRIGUES
Fundador do G10 das Favelas e líder comunitário de Paraisópolis

O QUE MUDOU NA ATUAÇÃO DO G10 ANTES E DURANTE A PANDEMIA? O G10, bloco de líderes e empreendedores sociais das dez maiores favelas do Brasil, nasceu para posicionar a favela como potência, como polo de emprego e desenvolvimento para transformação de um bairro. O foco é impulsionar o comércio local. Diante da pandemia tivemos que readaptar os planos, criando possibilidades para esses empreendedores. Como no caso das pessoas que costuravam para a indústria da moda no Costurando Sonhos, um home office das costureiras das favelas na confecção de máscaras. Ou o projeto de marmitas que estimula as pessoas da comunidade a cozinhar e nossos parceiros a doar mais de 10 mil refeições por dia. Criamos 12 iniciativas que têm sido espalhadas pelo Brasil.

ACREDITA QUE PÓS-PANDEMIA PODERÁ SURGIR UMA SOCIEDADE MAIS SOLIDÁRIA E QUE, A LONGO PRAZO, INSTITUIÇÕES COMO O G10 NÃO PRECISARÃO EXISTIR? Não acredito em um pós-pandemia que não comece agora. O que não acontecer agora será justificava para não acontecer depois devido à crise. Acredito na construção de políticas públicas neste momento em que a sociedade está mobilizada e existe pressão política. O legado dessa pandemia é a organização das pessoas para ajudar quem precisa. À medida em que dermos protagonismo à comunidade nós poderemos alcançar o objetivo de que organizações como a nossa não sejam tão necessárias. As grandes transformações que acontecerão no Brasil, e nas próprias favelas, serão por meio de seus próprios moradores.

QUAL O MAIOR DESAFIO PARA AS FAVELAS COM A COVID-19? Foram evidenciados problemas que antes eram invisíveis para a sociedade, como a falta d’água e a violência policial. Não é possível ter dois Brasis: um do Alphaville e outro do ‘alfavela’, onde parte da população está predestinada à morte. Diante da ausência de políticas nós criamos soluções, mas nosso maior agente ainda é o Estado e precisamos cobrar que ele faça.

COMO TEM SIDO A POLÍTICA DE TRANSFERÊNCIA DE RENDA NAS COMUNIDADES? Criaram-se processos digitais de difícil acesso. Os projetos de transferência de renda ainda são ineficientes, com pouco recurso, demorados, burocráticos e parecem a fila da morte. O ideal seria usar o modelo das organizações sociais que entregaram cartões físicos e possibilitam moradores a consumir diretamente no comércio local, o que ajuda quem precisa comer e a manter trabalho e renda na comunidade.