15.10.2016  /  9:33

Capitão da Marinha provoca o suicídio da ex-mulher e é morto pelo atual dela

Ilustrações: Bruna Bertolacini / Revista J.P
Ilustrações: Bruna Bertolacini / Revista J.P

Por Paulo Sampaio para a Revista J.P de outubro

A situação entre o capitão da Marinha Márcio Luiz Dias da Fonseca, 48 anos, e sua ex-mulher, a agente da Polícia Federal Angelina Filgueiras dos Santos, 42, havia chegado ao limite do insustentável. Inconformado com a separação, Fonseca a atormentava quase que diariamente, a ponto de levá-la a tirar uma licença no trabalho para se submeter a um tratamento psiquiátrico. Os dois ficaram 17 anos juntos, tinham uma filha adotiva de 15 e estavam separados havia três.  O ciúme do capitão saiu de vez do controle quando ele soube que Angelina engatara relacionamento com o engenheiro Jolmar Vagner Alves Milato, 40 anos. Obcecado, ele passou a torturar a ex-mulher com ligações de madrugada, visitas inesperadas e altas doses de chantagem emocional. Foi quando, na noite de sexta-feira, 16 de junho de 2012, em uma dessas aparições de surpresa, o capitão cumpriu tragicamente suas ameaças. Depois de estacionar o carro a uma certa distância da casa de Angelina, Fonseca usou uma escada alta de madeira para acessar o piso superior e entrou pela janela do quarto da filha. Estava com uma pistola automática calibre 9 mm.

A casa fica em uma rua pacata de Piratininga, bairro de classe média de Niterói, região metropolitana do Rio, e, até a chegada sinistra de Fonseca, aquela era uma sexta-feira como outra qualquer. Deitados na cama da suíte, Angelina e Milato assistiam ao reality show A Fazenda, do qual fazia parte a irmã dela, a modelo “biônica” Ângela Bismarchi, que se orgulha de ter feito mais de 45 intervenções estéticas no corpo. Assustada com a entrada do pai pela janela, e percebendo que ele estava armado, a adolescente correu para se esconder no banheiro. As cenas que se seguiram foram apavorantes. Tudo aconteceu muito rápido. Ao abrir a porta e deparar com o casal deitado, Fonseca tirou a pistola da cintura e partiu para cima dos dois. Milato tentou imobilizá-lo, e então iniciou-se uma violenta luta corporal. Durante o combate, Angelina conseguiu pegar a arma e gritou: “Se vocês não pararem com isso agora, eu vou me matar!”. Talvez por estar se restabelecendo de uma depressão, emocionalmente abalada, ela não deu a eles tempo de perceber que estava falando sério. E então, apontou a arma para o próprio peito e puxou o gatilho.

Entre incrédulos e atônitos, os dois homens interromperam por um instante o corpo a corpo. Ambos hiperventilavam ruidosamente, mas ainda assim Milato conseguiu esticar o braço e pegar a pistola, que estava caída no chão. Acertou Fonseca no pé, antes que ele pudesse se trancar no banheiro. Os disparos continuaram na direção da porta, cada vez mais perto da madeira. Três dos quatro tiros disparados perfuraram a estrutura e atingiram o capitão, matando-o na hora. Desatinado, Milato correu em busca de socorro para a namorada. Angelina ainda foi levada para a unidade municipal de urgência do Hospital Mario Monteiro, mas não resistiu aos ferimentos. O delegado Gabriel Ferrando, da 81ª Delegacia de Polícia, que cuidou do inquérito, conversou com J.P.  Disse que indiciou Milato por homicídio, mas não o prendeu. “Ele não fugiu do local do crime. Ao contrário, pediu ajuda aos vizinhos para socorrer a vítima.” Procurada pela reportagem, a assessoria da Polícia Civil do Rio informou que não conseguira encontrar o inquérito,  embora soubesse o número do registro da ocorrência (081-01894/2012). Eles supõem que a 81ª era o que  chamam de “delegacia convencional”, ou não informatizada. O Tribunal de Justiça também não encontrou o processo, que está na 3ª Vara Criminal da Comarca de Niterói.

Enterro do Corpo da irm de Angela Bismarchi
Angelina já havia tentado se matar outras vezes a última delas dois dias antes da tragédia / Revista J.P

Sentimento doentio

Quem reconheceu o corpo de Angelina no Instituto Médico Legal (IML) de Tribobó foi seu cunhado, o cirurgião plástico Wagner Moraes, marido de Ângela Bismarchi. Ele classificou o sentimento de Fonseca por Angelina como “doentio”. “Eu falei com ela por telefone uns dez minutos antes de tudo acontecer, para tentar alertá-la. O Márcio tinha me dito que faria uma visita. Foi uma loucura. Ela e a Ângela eram as únicas mulheres de sete irmãos, as duas eram melhores amigas.” Moraes procurou a produção de A Fazenda, na TV Record, para dizer que pretendia dar a notícia à mulher pessoalmente. Eles disseram que tudo bem, explicando que só era permitida a entrada de alguém de fora no programa em caso de morte na família. Ângela Bismarchi estava inconsolável, mas disse que não deixaria o programa para ir ao enterro da irmã, no cemitério de Inhaúma, zona norte do Rio: “Vou ficar porque sou forte. Se eu sair, é derrota”. Se interrompesse sua participação, ela abriria mão de concorrer ao prêmio de R$ 2 milhões. Acabou sendo eliminada, depois de disputar com Viviane Araújo na “roça” e receber 87% dos votos contra sua permanência. Procurados pela reportagem, Ângela e o marido não retornaram.

Milato não foi ao enterro da namorada. Naquele domingo, 17 de junho, ele deu sua versão dos fatos em um depoimento de três horas. Disse que Angelina já havia tentado se matar outras vezes, a última delas dois dias antes da tragédia. De acordo com o delegado Ferrando, “familiares confirmaram que ela já apresentava um histórico suicida e que chegou a ingerir veneno e cortar os pulsos”. Angelino Filgueiras, 39 anos, irmão da policial, afirmou que Fonseca era “uma boa pessoa”, mas perdia a cabeça e chegava a agredir Angelina toda vez que ela dizia que não queria reatar o relacionamento. “A gente cansou de conversar, ele a tratava bem, mas não aceitava o fim do casamento.” Filgueiras contou que a arma de Fonseca era da Marinha e que ele não podia usá-la porque, assim como Angelina, estava afastado para tratamento psiquiátrico. “O Márcio estava completamente fora de si ultimamente.”

Ao todo, foram seis disparos. O primeiro, efetuado por Angelina contra o próprio peito; dois dos outros cinco, por Milato, na direção de Fonseca, não atingiram o alvo: encontraram-se duas balas no chão. Ao depor, Milato alegou que agiu em legítima defesa. Seu advogado, Ramsés César Duarte Batista, disse à época que “em uma ocasião, o Márcio invadiu a casa do Jolmar em Cruzeiro (interior de SP) e quis agredi-lo”. “Ele não registrou queixa porque não queria expor problemas pessoais”, argumentou. A reportagem tentou contatar Batista, mas seu nome não consta entre os inscritos no site da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ). A assessoria da instituição afirmou que não dispunha de mais informação além das que estavam no site. Nenhuma combinação dos nomes do advogado aparece no Facebook. O delegado Ferrando afirmou que o relato de Milato era plenamente compatível com a dinâmica dos fatos, de acordo com os exames periciais e o laudo da necrópsia.  Contudo, o juiz Peterson Barroso Simão, da 3ª Vara Criminal de Niterói, determinou que ele fosse a júri popular. “O número de disparos, a posição do atirador e a da vítima, as lesões produzidas, a possibilidade de outras condutas e a inexibilidade das mesmas, entre outras questões sem respostas absolutas nos autos, devem pautar a decisão do julgador”, sentenciou Simão. Milato entrou com recurso, mas a juíza Nearis Carvalho Arce dos Santos manteve a decisão e, no mesmo despacho, marcou o julgamento para o dia 11 de junho do ano passado. Para a juíza, “o réu não se intimidou com o cometimento do crime, continuou atirando”. O que teria havido, em outras palavras, seria uma espécie de “excesso de legítima defesa”. Milato foi condenado a dois anos e meio em regime aberto.