Assistir ao episódio de sua série favorita pode estar privando alguém de acesso à água limpa. Oi?

20.12.2019  /  9:00

Livros mostram o impacto nada subliminar para o ambiente de hábitos banais como assistir a um seriado, optar por determinados tipos de tecido e comer carne bovina

por Caroline Mendes

“Por mais louco que possa parecer, assistir ao seu episódio favorito de ‘The Office’ pode estar privando alguém de acesso à água limpa.” É com paralelos surpreendentes como esse que a escritora americana e ex-setorista de ciência do jornal The New York Times Tatiana Schlossberg escancara o impacto ambiental de coisas banais do dia a dia em seu novo livro Inconspicuous Consumption – The Environmental Impact You Don’t Know You Have (Consumo Imperceptível – O Impacto Ambiental que Você Não Sabe que Tem, em tradução livre), ainda sem previsão de lançamento no Brasil. Nesse exemplo em particular, a relação entre uma coisa e outra está no fato de que quase um terço da eletricidade gerada nos Estados Unidos ainda vem da queima de carvão, cujas cinzas que escapam na atmosfera mais cedo ou mais tarde acabam se alojando em rios e solos – isso sem contar o volume de gás carbônico lançado na atmosfera. “É uma ilustração poderosa de como nenhuma de nossas ações existe no vácuo e de como a crise climática realmente conecta todos nós”, disse Tatiana em entrevista.

Na corrida para limitar o aquecimento da Terra a 1,5 grau Celsius a partir das médias temperaturas pré-industriais, como aconselharam as Nações Unidas para evitar um efeito cascata de desastres naturais (secas, enchentes, incêndios, tornados, extinções em massa etc.), governos e empresas devem tomar atitudes drásticas. Mas e nós, meros mortais, temos parte nisso? Podemos ajudar a frear o aquecimento global e, de quebra, contribuir para a preservação ambiental? “Inequivocamente, sim”, crava Chris Weber, principal cientista do WWF (World Wide Fund for Nature).

ESCOVAÇÃO POLUIDORA
Absolutamente tudo o que fazemos ao longo de 24 horas tem impacto sobre o meio ambiente. Mesmo. Ao simplesmente escovar os dentes pela manhã, podemos estar desperdiçando água (deixando a torneira aberta durante o processo); contribuindo para o acúmulo de lixo em aterros sanitários (utilizando uma escova convencional, feita de uma mistura de plástico e silicone praticamente impossível de ser reciclada); estar contaminando água limpa (usando uma pasta de dente cheia de elementos químicos não biodegrádaveis). Deu para ter uma ideia? “Quando pensamos em escala global, são as várias pequenas coisas feitas por muitas pessoas em diversos lugares que fazem a mudança acontecer – ou não – no planeta”, afirma a empresária Fernanda Cortez, criadora do movimento Menos 1 Lixo. “Se 7 bilhões de pessoas deixarem o carro na garagem e forem de bicicleta para o trabalho, isso teria um impacto gigantesco capaz de mudar a matriz energética do planeta”, exemplifica, tocando na questão do transporte, que é o principal emissor de dióxido de carbono (CO2) do setor energético no Brasil: gera sozinho, anualmente, o mesmo volume total de C02 gerado por Portugal, Dinamarca e Grécia juntos. Além da bicicleta, utilizar transporte público, ir a pé, pegar carona e usar aplicativos de corridas compartilhadas são formas de diminuir a nossa contribuição para o aquecimento global.

“O poder de compra é o maior que temos. Se negarmos nosso dinheiro às corporações, elas vão repensar a forma com que atuam”, acredita Fernanda, projetando nesse gesto um relevante ganho ambiental coletivo. Algumas escolhas são bem simples: comprar, na medida do possível, alimentos orgânicos e locais, que foram produzidos sem agrotóxicos e não viajaram centenas de quilômetros quase certamente em um caminhão movido a diesel; escolher roupas de tecidos naturais como puro algodão em vez de materiais sintéticos que, ao serem lavados, liberam microplásticos que acabam nos oceanos; e, o mais importante, diminuir o consumo de carne bovina. De acordo com relatórios da ONG Observatório do Clima, 17% de todas as emissões de gás carbônico do Brasil são originárias do rebanho bovino, o que corresponde a 79% de tudo o que foi emitido no setor de agropecuária em 2016. Se fosse um país, nosso gado seria, sozinho, o 17º maior poluidor do mundo.

POLÍTICA PÚBLICA, A QUESTÃO
Muitas imagens de várias partes do globo demostram sobejamente que o aquecimento global é uma realidade, à despeito do que os negacionistas, com ajuda de políticos como Donald Trump, dizem. Outro escritor, o também jornalista Claudio Angelo, um dos vencedores do Prêmio Jabuti 2017 com A Espiral da Morte – Como a Humanidade Alterou a Máquina do Clima (Cia. das Letras, 2016), é cético em relação à mudança de hábitos de consumo como arma para deter o aumento do clima. “É perfeitamente inútil você tentar reorientar os hábitos de consumo de milhões de pessoas se nas eleições Trump e Bolsonaro são eleitos”, diz. Para Angelo, quem dá as cartas no tema são os governos, com leis, políticas públicas e taxações que beneficiem setores que investem em sustentabilidade, e a forma de convencer os consumidores a mudar radicalmente seus hábitos é entregar soluções em vez de exigir sacrifícios. “Olha, não pode mais usar lâmpada incandescente, mas toma aqui essa lâmpada LED que dura e ilumina muito mais e custa muito menos. Agora não pode mais usar carvão, mas toma aqui esse painel solar que acaba com a conta de luz mensal”, diz. Para o especialista, no setor de energia muitos passos vêm sendo dados. “A próxima fronteira é a alimentação e tem muita oportunidade aí”, crava.