06.03.2016  /  8:15

Antonio Bivar fala sobre os pontos altos de sua jornada pela Toscana

 

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Antonio Bivar fala sobre os pontos altos de sua jornada pela Toscana ||Créditos: Arquivo Pessoal/Revista J.P

 

Por Antonio Bivar para a revista J.P de fevereiro

Um crítico de arte (inglês) certa vez me disse que para se ter uma noção geral do que é [a grande] arte basta uma visita demorada à Galleria degli Uffizi, em Florença. Acreditei piamente nas palavras do crítico. Como amante das [belas] artes e por ter visitado um monte de museus da Europa – e praticamente vivendo na National Gallery e no V&A Museum, nas minhas eternas temporadas londrinas –, até então nunca tinha posto os pés na Uffizi. Minha passagem por Florença fora um único dia, no verão de 1981. Mas era uma segunda-feira e o museu estava fechado. Deu pra ver a réplica do David, de Michelangelo, do lado de fora. A versão original estava na Galleria dell’Academia, também fechada naquele dia. De modo que a Uffizi, o David e, lá em Pisa, a torre inclinada, ficaram na lista de cobrança das 100 coisas que você tem de ver na Toscana antes de morrer. Nisso, no ano passado, surgiu uma chance única, talvez a última, de resolver de vez essa dívida com a região.

Uma de minhas irmãs, viúva, sugeriu comemorar seus 70 anos com os filhos, noras e netos justamente na Toscana. No nosso grupo de nove, dois artistas plásticos, um historiador, um escritor (como irmão solteiro, me ofereci para ir junto) e três crianças entre 5 e 12 anos. O ideal era alugar uma casa e dois carros. Seria uma viagem de prazer, mas também de muito estudo, gastronomia e vinho (para os enófilos). Por meio da internet e do Airbnb passamos meses pesquisando sobre os lugares que queríamos visitar e escolhendo, entre as casas disponíveis, qual delas alugar. Todos votaram pela descoberta do neto de 12 anos.

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Galleria degli Uffizi ||Créditos: iStock/Revista J.P

A Villa Le Muracce (+villalemuracce@icloud.com), em Impruneta (a meia hora de carro do centro de Florença), é uma linda construção do século 17, moderna nas mínimas necessidades, cercada de jardim, pomar, olivais e vinhedos até perder de vista nos Apeninos. Duas salas – uma mais espaçosa, com piano de cauda e lareira, e a outra ótima para quem quer se recolher, ler e usá-la como escritório –, cinco quartos, quatro banheiros e uma banheira, copa, cozinha prática, despensa, porão e grande terraço. Chegamos no último dia do ano e passamos duas semanas flanando. Nosso entusiasmo era tal que, nos meses que antecederam a viagem, tivemos encontros para discutir os lugares e a programação. E assim foi. Viajamos na classe econômica da Alitalia, tão desconfortável que me levou a imaginar o horror que deviam ser os porões dos navios negreiros. Mas tudo bem, pela aventura. Doze horas depois aterrissávamos em Roma, onde os dois carros alugados já nos aguardavam no próprio aeroporto. E pela estrada afora, passando pela Umbria, chegamos à nossa casa na Toscana. Antes fizemos uma parada no belo e bem provido supermercado de Anatella, a cidadezinha próxima à casa. Deslumbrou-nos os preços dos produtos: muitíssimo mais baratos, e melhores, que os dos nossos supermercados.

Ania, a proprietária, nos esperava. Mostrou-nos o imóvel e seu funcionamento. A casa dos sonhos. Ania nos deixou as chaves, nos desejou ótima estadia e voltou para Florença, onde mora. A propriedade ela aluga geralmente para americanos e ingleses, nas temporadas menos frias. Era a primeira vez que alugava a brasileiros. Pela casa e pelo lugar, nos impressionou o aluguel. Baratíssimo: dividido em nove, deu cerca de R$ 200, a diária, para cada um. Inacreditável. No Brasil, e por lugares não tão lindos, confortáveis e do século 17, e na Toscana!, o aluguel de casas de praia é mil vezes mais caro.

Exaustos da viagem, o primeiro jantar foi em nossa sala. Revigorados pelo sono tranquilo e reparador, cedo na manhã seguinte, depois do desjejum, pegamos a estrada e fomos passar o primeiro dia do ano perambulando em San Gimignano. Cidade de Dante Alighieri e sua Divina Comédia, a catedral, os afrescos, o presépio, o campanário, os sinos em harmoniosa melodia às seis da tarde num dia de inverno ensolarado, a linda cidade das sete torres no topo dos Apeninos estava repleta de gente feliz e de todas as idades curtindo o feriado. Mesmo no inverno, todo mundo sorvia o famoso sorvete local. Com o sol já posto – e no inverno europeu o dia escurece cedo – deixamos San Gimignano e fomos jantar em Greve in Chianti, numa trattoria, citada num guia, com vinho produto da casa. E Florença, com toda sua arte nos museus, basílicas, galerias e na nudez dos monumentos expostos, ruas e comércio, é cidade para vários dias. Que foi o que fizemos. Assim como as outras: Arezzo, Siena, Lucca, Pisa e as menores, todas repletas de arte e de histórias para contar. Muitas dessas histórias, como estudantes e diletantes, a gente já foi sabendo. A Toscana é uma verdadeira caixa de Pandora: no que abre, a abundância de deslumbramentos não tem fim. Chega uma hora, que por ser demais, até cansa. Mas um sono tranquilo em nossos quartos aconchegantes nos faz dispostos a mais um dia festivo e cultural Toscana afora. Embora intensa e intensiva, nossa viagem foi excelente. Recomendo que se faça uma como essa. Em família ou num grupo de amigos com afinidades. Vale a pena. É só se programar. O tempo da programação, em si, já é uma curtição. Dei aqui algumas dicas; o resto fica por conta dos livros-guias e navegar na rede. Informação de alojamentos e atrações é o que não falta. E como ainda tenho muito que contar da viagem, continuarei no próximo número. Arrivederci.