Ana Canãs e sua aventura pelo mundo do sexo, prazer e autoconhecimento

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Aos 40 anos, Ana Canãs se sente mais livre e à vontade para falar sobre um tema que anda libertando as mulheres: a sexualidade. Assunto considerado um tabu por diversas décadas, mas que atualmente anda ganhando força.

A cantora paulista, que acaba de reviver Belchior em um EP nomeado como “Ana Cañas Canta Belchior”, encara o desafio de debater tabus no programa “Sobrepostas”, do Canal Brasi, previsto para estrear no segundo semestre. A atração irá encontrar mulheres queer, cis e trans para conversas sobre sexo, prazer e autoconhecimento.

Crédito: Marcus Steinmeyer

Em conversa exclusiva, a apresentadora revela ao Glamurama o que tem ocasionado essa busca pelo universo da sexualidade, da luta feminista e da conexão com a internet, ferramenta tão usada atualmente no meio musical.

  • Glamurama

    Você é a nova  apresentadora do Canal Brasil. Conta para a gente um pouquinho sobre o programa “Sobrepostas”.

  • Ana Canãs

    O programa vai abordar a sexualidade feminina, que ainda é um tabu em 2021. Recentemente, pude ler os roteiros, conhecer a história das entrevistadas. Vai ser incrível no sentido em que promoveremos uma intercessão muito grande dentro desse feminismo, dessa sexualidade. São histórias, que inclusive não são do meu lugar de fala, de pessoas não binárias, LGBTQIA+, cisgênero e transgênero, mulheres pretas, gordas, soropositivas, então é muito interessante como o programa recorta essa sexualidade em locais de vulnerabilidades. Tem histórias engraçadas também, deliciosas. O tema da temporada é “a primeira vez”, então tem o primeiro orgasmo, o primeira ménage, o primeiro sex toy, uma loucura! É fundamental a gente falar sobre sexualidade feminina, porque entendemos que essa experiência de troca entre nós, mesmo com as amigas, já nos alavanca vários insights de libertações, questionamentos.

  • Qual a importância de levar esses temas para a televisão?

  • Ana Canãs

    É muito importante, esse formato vai ser algo meio inédito. Vamos ter imagens eróticas também, para trazer um consciente imagético erótico, e não pornográfico, onde o homem é sempre protagonista. Vamos inverter e trazer a mulher como protagonista das relações, trazer as preliminares, a subjetividade. Tudo que a gente sabe que é inerente do nosso sexo, e que muitas vezes os homens nem cogitam, nem sentem. Fico imaginando como vai ser as pessoas assistindo, principalmente os homens. Esperamos que seja um programa visto pelas mulheres e também pelos homens que estejam em processo de desconstrução, de querer ampliar e aprender com outra retórica, que não é  a da pornografia que eles consomem desde sempre.

  • Glamurama

    Você mostra ter uma autoestima elevada com fotos ousadas nas redes, inclusive, incentivando outras mulheres. A chegada dos 40 foi um problema para você? 

  • Ana Canãs

    Quarenta anos, né? Acho que já estou mais confortável com as coisas que sinto, no sentido de não me importar tanto com o que as pessoas vão pensar. Isso a idade traz de positivo, esse autoconhecimento, uma segurança maior. As provocadas que eu dou é porque tenho os quatro planetas em escorpião (risos), é um signo movido naturalmente pelos tabus, que é o sexo e a morte. Então, esses temas sempre são caros para mim, no sentido de explorar, de expor. Não é à toa que parei na televisão agora para falar sobre isso. É importante também reiterar meu lugar de mulher branca, magra e privilegiada, em uma estrutura social que impõe o padrão estético. Às vezes.  posto foto da minha bunda porque estou afim de dar uma causada. Não é meu lugar de fala impor uma desconstrução da autoimagem ou da segurança, porque estou em privilégio. Inclusive, isso foi um aprendizado para mim com a internet, porque postei uma foto da minha bunda uns três anos atrás e por meio dessa postagem entendi que a nudez não é empoderamento. Isso foi uma coisa importante para mim, porque muitas mulheres confundem isso ainda. O empoderamento é uma luta coletiva, que pressupõe as alterações das posições de decisão e poder, mas a gente tem direito sim de postar o quanto quisermos. A minha pauta em relação a isso tem mais a ver sobre um assédio que sofri muito jovem, antes de perder a virgindade, foi algo muito traumatizante. Passei anos cobrindo meu corpo, andando de calça de moletom larga, colocando moletom na cintura. Para você ter uma ideia, só ano passado consegui correr no parque de top. É muito louco isso! Eu via várias mulheres correndo de top, um calor absurdo e eu de camiseta. Leva muito tempo para a gente acessar esse lugar da segurança. Acho que o feminismo está até acessando esse lugar, percebemos que os homens não estão mais nos assediando nas ruas da mesma forma como sinto que era há dez anos atrás, claro que a violência continua, o feminicídio continua, todas as opressões continuam. Por estar sempre na rua, percebo que eles [homens] olham, mas pelo menos não ficam assediando verbalmente, não tanto, pelo menos. Aos poucos, a gente está se colocando nesse local de exigir nossos direitos, respeito, o que é o mínimo. A gente tem que exigir o mínimo. Está longe de termos a transformação necessária, onde podemos andar nas ruas com segurança completa e absoluta […] Eu acho que as pautas das minorias políticas, do racismo, feminismo, gordofobia, LGBTFobia, aos poucos a internet promove o raciocínio, o pensar sobre. Já existe essa fala sobre o errado, porque se pensarmos antes da internet, esses espaços não eram contemplados, essas discussões não tinham espaços no mainstream, na televisão, nos jornais. De dez anos para cá, isso foi se construindo, isso é uma coisa positiva da internet, de trazer essas pautas.

  • Glamurama

    Na internet tem de tudo. Por mais que a rede social seja palco para essas discussões importantes, ela também promove discussões de vários lados. Você chega a passar nervoso de vez em quando ao acessar as redes sociais?

  • Ana Canãs

    Eu passo muito nervoso. Na época do auge da minha militância, porque hoje estou mais focada no lançamento do Belchior e na música, mas eu tive um período onde sofri muitos ataques. Tentativa de invasão das minhas redes, já jogaram ovo no palco quando eu cantava músicas que abordava a sexualidade feminina, latinha de cerveja, já quase me impediram de subir ao palco para fazer o bis e jogaram todas as minhas coisas no chão dentro do camarim, isso foi um contratante. Na internet, já recebi ameaça de morte, de agressão, de xingamento. Aquela coisa que a gente já conhece, os homens veem que a gente é feminista e comentam: ‘puta, vagabunda, sua socialista’. É uma loucura o imaginário do inconsciente coletivo masculino em relação a mulheres livres e pensantes. A gente está tentando jogar luz nessas questões. Pessoas nesse espaço de privilégio vão sempre nos atacar, isso para qualquer luta que exista […] Já sofri muito ataque e fiquei mal, essa cultura do cancelamento que existe na internet hoje, precisamos ter cuidado com o que falamos, com uma frase que pode ser tirada de contexto, e isso prejudicar enormemente o trabalho. Eu acho até interessante esse exercício, de tomarmos cuidado com as coisas que estamos dizendo.

  • Glamurama

    Durante a quarentena a arte esteve mais que nunca presente em nossas vidas. Ao Glamurama, indique uma música que não seja sua, um livro e uma série ou filme que te acompanharam nesse período.

  • Ana Canãs

    A louca que vai indicar o livro que ela ainda não leu, mas “Torto Arado“, do Itamar Vieira Junior. Não li ainda, mas sei que deve ser maravilhoso. Todo mundo leu, mas estou tão enlouquecida com esses lançamentos que não estou conseguindo achar tempo para nada. Eu sou viciada em séries, então “Mare of Easttown“, que tem a ver com o que estamos conversando aqui. Kate Winslet maravilhosa! Essa construção da não maquiagem, dela estar a vontade no corpo que é considerado pela sociedade algo não padronizado, pensando na atriz hollywoodiana. É muito bom como ela arregaça, emociona. O roteiro é ótimo. Tomara que ela ganhe o Emmy! Já na música, ouvi muita música clássica, nunca tinha ouvido. Durante a pandemia, acho que pela instabilidade emocional, financeira e espiritual até, passei a ouvir Chopin, uma coisa que não ouvia muito. Me ajudou muito, colocava aquela playlist de música clássica com pianos, violinos, e porque também estava em processo de gravação do disco e não queria ficar ouvindo outras cantoras para não influenciar. Durante a pandemia, também criei o habito de ouvir meditações para dormir, porque até nisso estava com dificuldades.

Enquanto “Sobrepostas” não estreia no Canal Brasil, é possível ouvir Ana cantando Belchior. Play!

Por Marcus Steinmeyer
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