12.07.2013  /  8:23

“Alface não dá neurônio”: leia as pérolas de Susana Vieira para a revista J.P

Por Paulo Sampaio para a revista Joyce Pascowitch

 

Mesmo avisando de antemão que só vai dar a entrevista depois das fotos, Susana Vieira não é mulher de ficar quieta. “Entende uma coisa, amor. Na foto, eu me entrego completamente, então não consigo usar o intelecto. Não me faz pergunta. Agora vou dormir um pouco na cadeira, enquanto me maquiam”, informa ela, de cara lavada. Daquele momento em diante, até mesmo no check-in de volta para o Rio, em Congonhas, a atriz praticamente não parou de falar – os poucos momentos em que não se ouviu sua voz foi quando estava comendo um dos sanduíches de pão francês com manteiga e salaminho, sempre com café com leite, durante as cinco horas em que passou no estúdio: “Como o tempo todo. Muita gordura e carboidrato! É por isso que sou inteligente. Alface não dá neurônio”, acredita. “Não sou coelho, nem nenhum animal herbívoro, para ficar comendo folha!”

No ar na novela Amor à Vida, Susana interpreta a dermatologista Pilar, casada com o personagem de Antonio Fagundes, César Khoury, dono do hospital em que se desenrola a trama. Ela explica que, sempre que começa uma novela, se entrega nas mãos do figurinista, do maquiador e do diretor. “No início, sou uma Barbie”, compara a atriz, que tem 70 anos, sendo 50 de carreira. “Eles vão vestindo o personagem até que eu o entenda na minha cabeça. Aí, me aposso dele. Ele passa a ser meu.” Fazia tempo que Susana não interpretava uma mulher minimamente suave. Pilar não chega a ser contida como a Marina, de A Sucessora (1978), um dos maiores sucessos da atriz, inclusive na opinião da própria, mas está vários tons menos perua que, digamos, a Branca, de Por Amor (1997), ou a homônima de Duas Caras (2007).

 

SEM SUTIÃ, NUNQUINHA

No dia da entrevista, a atriz já tinha tomado posse de Pilar. Falou com muito domínio da personagem, que é traída pelo marido com a secretária Aline, papel de Vanessa Giácomo. Susana reage como se a traída fosse ela. “Gente, aquela mulher sem sutiã, com aqueles vestidos justos, trabalhando com meu marido!? Nunquinha! Vai por já um jaleco!”, diz, como se estivesse se dirigindo a Aline. Vanessa Giácomo, na vida real, põe Susana nas alturas: “E como não amá-la? Ela sempre foi doce e sincera comigo. Uma pessoa que nunca encontro de baixo-astral. Uma estrela!”. Susana também elogia Vanessa e todos os atores de seu núcleo na história, Fagundes, Nathalia Timberg, Ary Fontoura, Bárbara Paz. Reverencia especialmente Mateus Solano, que faz seu filho Félix, um gay no armário cuja representação virou polêmica de público e crítica. Alguns o acham caricato, Susana gosta: “Mateus é um ator maravilhoso”. Diz que de vez em quando precisa cutucar os demônios de Paolla Oliveira, que faz sua filha Paloma, para que o personagem reaja. “Vou lá, provoco, ela fica ótima!” Quando responde porque interpreta mulheres parecidas com ela, Susana Vieira explica que hoje a TV se popularizou para atender a um mercado menos elitizado do que o da época em que ela começou e que o personagem tem de caber nessa nova expectativa. “O público entende melhor quando estou loura e rica. Você acha que tem algum gay no Brasil querendo me ver morena e pobre?” Gay? Modo de falar, ela explica. Mas nem tanto. “Eles são uma parcela significativa e interessante da população. Se identificam demais comigo. Não imagino um homem heterossexual achando os personagens que faço incríveis. Nem eles, nem a telespectadora de classe média”, avalia. Quarenta e quatro anos de novelas na Globo não foram suficientes para acabar com a disposição dela. “Enquanto faço mulheres que ainda dão beijo na boca, estou bem na fita”, acredita. Junto com a carreira na TV, Susana sempre fez teatro. Estreou contracenando com a lendária Dulcina de Moraes, a Fernanda Montenegro da época, no espetáculo Vamos Brincar de Amor em Cabo Frio, em 1965. É difícil acreditar, mas ela garante que nos ensaios ficou “sem fala”. “A Dulcina era um mito para mim, eu não conseguia nem dizer o texto. E ela falava: ‘Vai, entra, menina! É a sua vez!’” No palco, trabalhou com os melhores atores do país, Gianfrancesco Guarnieri, Paulo Autran, José Wilker, Tereza Rachel, Arlete Salles, a lista é imensa… De repente, Susana “acorda” da maquiagem, dez minutos depois de ter “dormido”, e pede outro sanduíche. Diz que não existe pão francês como o de São Paulo. “Na televisão, sou mais gorda, mais velha e mais feia. Pessoalmente, me acho mais magra, bonita e rica!” Ela lembra que já posou pelada sete vezes. “Agora, não me chamam mais!”

 

FAMOSA NA RÚSSIA

Na vida real, Susana Vieira foi muito fervida, do tipo frequentadora assídua de boates nos anos 1980, quando costumava dançar a noite toda com amigos como Cazuza. “A gente ficava até fecharem as portas, ia direto trabalhar. Quer dizer: a gente, não: eu. Ele ia para casa dormir!” Susana conta que criou o filho, Rodrigo, “na pista de dança”, e que “foi bom porque hoje ele é deejay”. “Meu filho mora em Miami, mas toca no mundo todo. Outro dia ele foi para a Rússia e eu disse para levar uma revista que me tivesse na capa. Foi um acontecimento. Eu sou uma atriz famosíssima lá.” Celebridade não!, ela reage. Porque celebridade, “segundo a definição no Aurélio”, sempre foi alguém que fez alguma coisa para a posteridade, um cientista, um historiador, um grande escritor. “Hoje, qualquer um é celebridade! O Zé Dirceu e todos esses políticos bandidos. O Renan Calheiros? Celebridade!”

Filha de um militar que foi adido na embaixada do Brasil em Buenos Aires, Susana e seus três irmãos moraram na capital portenha durante 15 anos. Nascida Sônia Maria, em 1942, em São Paulo, ela adotou o nome da irmã, que, segundo diz, é a favorita do pai. “Freud explica.” Em Buenos Aires, ainda Sônia, fez curso de balé clássico e chegou a dançar no Teatro Colón. Sua mãe era tradutora de francês. “Tivemos uma educação ótima, aprendemos várias línguas, viajamos muito”, conta. Ela diz que seu pai, apesar de militar, escondeu vários dissidentes políticos na época da ditadura. “Ele era um militar comunista. Sempre tinha algum fugitivo escondido em casa.”

 

EU, VERA FISCHER, LUIZA BRUNET…

Com o pai de seu filho, o diretor Régis Cardoso, morto em 2005, Susana ficou casada durante nove anos, de 1962 a 1971. Diz que até queria ter mais filhos, “mas não podia parar de trabalhar porque precisava sustentar o que já tinha”. Quando se separou de Cardoso, o garoto estava com 6 anos. Ela fala do deejay, hoje com 46 anos, com muito orgulho. “Eu me lembro de uma noite em que estavam na pista as mulheres mais bonitas da época: eu, Vera Fischer, Luiza Brunet, Sonia Braga, e então o Rodrigo me disse: ‘Mãe!, Nunca pensei que fosse tocar para todas as minhas musas ao mesmo tempo!’.” Seus dois netos, Rafael, 16 anos, e Bruno, 14, e a ex-nora, Luciana, estão entre seus maiores amigos. E também as atrizes Ana Beatriz Nogueira, Arlete Salles e Cissa Guimarães. “São aquelas pessoas para quem conto tudo, rio, choro, sabem toda a minha vida.”

Ninguém precisou ser íntimo de Susana Vieira para saber a versão dela sobre o final trágico de seu ex-namorado, o policial Marcelo Silva, que era 28 anos mais novo e morreu em consequência de uma overdose de cocaína. Traída, ela já havia terminado com ele, mas não o perdoou. Disse na imprensa que ele roubou dela muito dinheiro, joias valiosas e eletrodomésticos. Contou que Silva, expulso da corporação depois de espancar e estuprar uma prostituta, costumava ameaçar seus funcionários e chegou a chantageá-la, pedindo R$ 500 mil por um filme que fez dela sem roupa. “Ele se escondeu atrás da porta e me filmou tomando banho, de touca na cabeça. Fazia close das minha partes íntimas enquanto eu me lavava”, disse a atriz à revista Veja.

Presumivelmente, depois da rebordosa e da repercussão de suas declarações na imprensa, Susana não pode nem ouvir falar no assunto. Ela não deixa mesmo brecha para abordagens intimistas. Acelerada, ela prossegue: “Como é que faz para fechar essa roupa, querido? Apela para o espiritismo?”, pergunta, dentro de uma saia longa Dior, para o stylist. O rapaz quer saber se dá para apertar mais um pouco, e ela: “Claro, amor, para quem já foi rainha da bateria três vezes, um aperto a mais, um a menos”.

 

EX-BALADEIRA IMPACIENTE

Sandro Pedroso, o atual namorado, tem 29 anos e também não é assunto que ela goste de render. “Em todos os lugares tem um batalhão de gente fazendo a mesma pergunta: ‘Quando é que você vai casar com o Sandro?’. Sei lá! Não tem nada mais interessante para saber?” Por essas e outras, a Susana baladeira Vieira ficou no passado. Ela afirma que “não dá mais para sair no Rio”. Atualmente, seu momento mais feliz é na casa projetada pelo arquiteto José Zanine, no Itanhangá, Barra da Tijuca, onde mora. “São quatro andares, com um sótão que o Sandro adora. Quando tem muita gente circulando em casa, meus netos, os amigos, ele me chama para subir.”

Susana está nos finalmentes de um livro sobre sua vida, escrito a quatro mãos com o mestre em teledramaturgia pela USP Mauro Alencar, autor da biografia da atriz Nívea Maria. Pensou em dar como título “Confesso que Vivi”, “mas já é nome do livro do Pablo Neruda”. Ela tenta, sempre elétrica, pensar rapidamente em alguma outra ideia, mas já está na hora do embarque. Ela voa de volta.

 

Fotos: André Schiliró

Styling: Higor Vaz Alexandre (CAPA Mgt)

Beleza: Lavoisier (CAPA Mgt)