25.08.2015  /  11:16

Alexandre Frota sempre polêmico: “Virei um bundão”

||Créditos: André Giorgi / Revista J.P
||Créditos: André Giorgi / Revista J.P

Ex-ator de novela da Globo, estrela de reality show, protagonista de filme pornô e de ensaio nu, Alexandre Frota sempre fez o tipo abusado. Polêmica é com ele mesmo – e carisma também. Não à toa, conquistou o patrão, Silvio Santos. Agora, otimizou o personagem rústico que criou para si e virou o queridinho do pessoal do stand-up comedy. Diz que o segredo é se reinventar…

Por Paulo Sampaio para Revista J.P

Alexandre Frota gosta de dizer que a coisa que mais ouve das pessoas na rua é: “Nossa, eu não imaginava que você fosse assim”. Por “assim”, entenda-se um sujeito acessível, receptivo, afável, enfim, a antítese do personagem rústico que ele criou para si. Com 1,88 metro, 116 quilos, o Frota performático fala cuspindo as palavras e encarna o brutamontes de anelão no dedo mindinho (com a letra F gravada) que os comediantes do stand-up adoram usar como escada para incrementar suas piadas. No ‘Fritada’, por exemplo, do Multishow, ele ficou na berlinda enquanto se entregava ao deboche de um time de seis atores. A comediante Criss Paiva disse: “Como diretor, ele trabalhou em ‘A Fazenda’; como ator, ele fez ‘Malhação’; como jogador de futebol americano, ele jogou no Corinthians; como comediante, ele fez ‘A Praça É Nossa’. Quer dizer, ele consegue fazer tudo da maneira mais vergonhosa possível”. Alexandre Frota acha graça, convencido de que o astro ali é ele. “O segredo da minha sobrevivência foi me reinventar o tempo todo.”

Reinventar é um verbo muito utilizado agora que a internet redimensionou o parâmetro de celebridade. Do mesmo jeito que a fama de um ator jovem da Globo é efêmera, Frota não precisa mais ser ator da Globo para se manter famoso. Ao reinventar-se, ele participou de um reality show, posou nu cinco vezes e atuou em 12 filmes pornôs. Só pelos filmes afirma ter ganhado R$ 1.340 milhão, mais um flat em Moema, bairro de classe média alta na zona sul de São Paulo. Mas pagou um preço alto também. Diz que até hoje, passados quase dez anos, ele é lembrado mais pelos filmes (que pede para classificar de “para adultos”) do que por tudo o que fez. E não dava para prever isso? “Não a esse ponto”, acredita.

||Créditos: André Giorgi / Revista J.P
||Créditos: André Giorgi / Revista J.P

SOLTE A PERERECA

O jeito foi abraçar o personagem de frente. Ele agora exagera no tipo, procura transformar-se em algo “cult” e, assim, divertir a plebe ignara. No Twitter, posta pérolas de sabedoria como: “Seja ecológica, solte a perereca”; “Sou tão macho que o meu lado feminino é lésbico” e “Anticoncepcionais deveriam ser feitos para homens, faz mais sentido tirar a munição da arma do que atirar em alguém com colete à prova de bala”. No teatro, ficou um ano em cartaz com a comédia “Qual É o Negócio?”; na TV, ele tem em Silvio Santos um grande apoiador. No SBT, cuidou de projetos especiais e, quando Patrícia Abravanel saiu de licença-maternidade, a substituiu no programa “Jogo dos Pontinhos”. Mas, pela perspectiva dele, a profissão de ator já foi mais glamourosa: “As pessoas te viam como alguém quase inatingível. Além de ganhar dinheiro, tinha o status. Hoje, o paraquedista que salvou a criancinha vira ator de televisão”. Frota começou no teatro amador, fez 12 novelas em quatro emissoras, dirigiu e produziu shows. Esteve pela última vez na tela da TV Globo em 1999, fazendo o papel de Robson, em “Malhação”. Atribui seu afastamento da emissora à saída de Roberto Talma da direção de núcleo e à entrada de Ricardo Waddington. “Fui contra o sistema, eles se blindaram contra o Alexandre Frota. Eu me acho muito pequeno para ter tanta importância.” Parece contraditório, já que ele mesmo volta ao assunto sempre que tem oportunidade.

A entrevista foi marcada pelo ator em um resort na vizinhança do parque Hopi Hari, em Vinhedo (a 83 km de São Paulo), onde ele estava hospedado com a família. Contou que ia conversar no parque sobre a produção de um espetáculo estilo “força e ação”, de manobras radicais com carros e motos. A equipe de reportagem chegou dez minutos depois da hora marcada, e já o encontrou no quiosque onde se deu a conversa. Pedimos desculpas, ele nos encarou “sério”: “Só que vocês vão ter dez minutos a menos de entrevista”. Em seguida, fez uma preleção sobre sua pontualidade. Pessoalmente, quando consegue deixar o personagem de lado, e relaxar, Alexandre Frota é capaz de entabular uma conversa – mas não dá para dizer que por trás da figura mastodôntica dele mora um ser surpreendentemente sensível. “Não fico magoado, fico puto”, diz ele, explicando por que nunca teve depressão. Quer dizer: nunca, em termos. Quando percebeu que o exílio da Globo era para sempre, ele radicalizou nas drogas. Durante cerca de 20 anos, mergulhou em uma espiral cavernosa que o levou a tornar-se dependente. “Usei tudo, cocaína, ecstasy, LSD, fui ao fundo do poço.” Diz colecionar processos por não ter comparecido a compromissos de trabalho. “Eu não estava a fim de ir, não ia…” Isso, claro, antes de tornar-se pontualíssimo.

||Créditos: André Giorgi / Revista J.P
||Créditos: André Giorgi / Revista J.P

BUNDÃO

Agora, segundo ele, está completamente limpo. Deixou de trafegar na contramão para tornar-se “um bundão”. “Sou o paizão de família, barrigudo, acordo às cinco da manhã para fazer o café do Enzo e levá-lo para a escola.” Enzo, 8 anos, é o filho de sua atual mulher, a quinta, Fabiana Frota, 32. O ator, que é pai biológico de um adolescente chamado Mayã, 15, se afeiçoou ao filho de Fabiana a ponto de usar os dois nomes dele. Em seu e-mail consta Alexandre Frota Enzo Gabriel. “O Alexandre entrou na minha vida como um furacão. É um grande marido, pai e amigo”, diz Fabiana, que “trabalha no mundo fitness”. Morena, bombada e midiática, ela posta fotos treinando na academia, desfilando na escola de samba e beijando o maridão na praia. Na maioria das vezes, usa biquínis minúsculos (mas não tanto que não caiba, na parte de trás, um escudo do Corinthians) e saltão. “Não me interessa o passado dele. Passado é passado. Eu vivo intensamente o presente com ele”, garante ela. Por sua vez, Frota diz que deixou de ser “escravo do corpo”: “Hoje, não quero saber de nada relacionado à malhação. Adoro comer bem, gasto dinheiro com isso, frequento bons restaurantes. A Fabi come 100 gramas de frango sem sal, e eu ponho logo 2 quilos no prato”. Enzo acompanha a entrevista sem prestar muita atenção, apenas confirmando quando o ator conta algum detalhe do cotidiano deles. É a hora mais, digamos, pungente, do Frota ser humano. (Obs.: o fato de Enzo ser o nome do filho de sua primeira mulher, a atriz Cláudia Raia, com quem se casou com festão na Candelária – e convite feito pelo diretor de arte Giovanni Bianco –, é mera coincidência.)

Morador de São Paulo desde 1993, Frota enche a boca para dizer: “Amo esta cidade”. “Aqui, você não fica sem trabalhar nem que queira”, acredita ele, que vive em uma casa na Granja Viana, zona sul. Em suas reinvenções de si, tornou-se dono de uma loja de suplementos e sócio de uma marca de “roupas de gueto”; recebe ajuda de patrocinadores e tem licenciamento de grifes de óculos, botas e relógios. “Não posso me dar o luxo de ficar sem trabalhar. Alimento umas dez famílias.” Explica que é “formado em natação, jiu-jítsu, piloto de automóveis e ex-jogador de futebol americano”, mas hoje sua “função” é “diretor e produtor”. Diz que ainda em 2015 vai montar um musical sobre garotos de programa chamado “Stone”.

Nascido há 51 anos no subúrbio carioca de Vila Isabel, Alexandre Frota pode dizer que passou por tudo na vida, menos tédio. Apesar do comportamento frequentemente errático, ele faz questão de mostrar que é muito ligado à mãe e que não quer deixar faltar nada a ela. Dona Laís vive em Copacabana, no Rio, e até pouco tempo dirigia o Doblò ano 2002 que Frota ganhou quando participou do reality “Casa dos Artistas”. “Pensei em guardar o carro como recordação, mas ele se desmantelou. Achei melhor vender.” Por mais que se pense que a coragem de Frota está associada ao físico, com certeza não foi ali que ele tirou força para encarar as decisões mais extremadas que tomou na vida. “Sou crucificado até hoje, mas vou continuar dizendo o que penso. Sou autêntico.”