Alberto Renault, criador e diretor da série ‘Lar’, explica o que torna uma casa um lar: ‘É o lugar das vivências personalizadas e amorosas’

20.03.2021  /  9:00

Alberto Renault e cenas de seu lar // Crédito: Alberto Renault

Expert em mostrar as casas mais deliciosas de famosos e anônimos, convidamos o diretor Alberto Renault, idealizador dos programas ‘Morar’, ‘Casa Brasileira’ e da nova série ‘Lar’, do canal GNT, para falar sobre seu jeito de viver

por Luciana Franca fotos Alberto Renault

Dia frio com sol, café, cercado de livros, revistas e jornais, flores, plantas, cheiros, amigos ao telefone de vez em quando. Esta é a tradução do dia perfeito de Alberto Renault em seu apartamento com vista para a Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio. Sobre viver bem, ele entende. O diretor e idealizador dos programas ‘Morar’ e ‘Casa Brasileira’ já visitou mais de mil residências e para sua nova série documental, ‘Lar’, que estreia este mês no canal GNT, perguntou a mais de 70 convidados, entre eles Gilberto Gil, Zezé Motta e Luisa Arraes, o que torna a casa um lar. As conclusões de Renault, você lê a seguir.

J.P: Afinal, o que torna uma casa lar?
Alberto Renault: Fiz essa mesma pergunta a mais de 70 entrevistados nas gravações do meu novo programa, ‘Lar’. A resposta recorrente foi amor. Complementaria dizendo que esse amor pode ser entre pessoas, mas também dos moradores para com os bichos, plantas, objetos, vistas, paredes, cantos e memórias. O lar é o lugar das vivências personalizadas e amorosas, mesmo que moremos sozinhos.

J.P: Qual é o canto que mais gosta de ficar em seu apartamento?
AR: Ocupo bem a casa toda, tem a hora do sofá, da cama, da mesa de trabalho, mas acho que o canto que fico mais é sentado na mesa de jantar, pés para cima, olhando ora para a sala, ora pela janela, tomando um interminável café, enquanto leio diversos jornais, respondo e envio mensagens, e me distraio com pequenos detalhes bem caseiros.

 

J.P: Como é um dia ideal dentro de casa?
AR: Dias frios com sol, café, cercado de livros, revistas e jornais da banca, e os baixados no iPad, flores, plantas, cheiros, amigos ao telefone de vez em quando. Adoro silêncio, mas também sons de pássaros, jardins, florestas, água, mesmo que de um aplicativo. Posso ficar dias assim. Outro dia li uma frase do filósofo italiano Emanuele Coccia que define bem esse dia: “A casa é uma compilação de coisas que precisamos para sermos felizes”.

J.P:Neste ano em que ficamos mais reclusos, olhamos mais para o espaço em que vivemos. Que adaptação você fez no apartamento?
AR: Eu já estava numa fase bastante caseira e a casa já era um tema bem central na minha vida. Não me vi de repente confinado num lugar que antes era de passagem, acho que não mudou muita coisa. Eu já tirava os sapatos para entrar em casa e, definitivamente, isolamento não quer dizer solidão.

J.P: Onde garimpou seus objetos mais estimados?
AR: A maioria dos poucos objetos que possuo foram presentes de amigos ou, como com grande parte das pessoas, lembranças de viagem. Tenho carinho pelas minhas caixas de madeira em marchetaria, comprei muitas delas nos antiquários do shopping da [rua] Siqueira Campos, em Copacabana. Não tenho gavetas em casa, guardo de tudo nessas caixinhas, elas estão espalhadas por todo canto.

 

J.P: Seu jeito de morar mudou depois de visitar tantas casas? O que aprendeu com elas?
AR: Sim, foram mais de mil casas visitadas. As moradas são tão variadas e múltiplas quanto os seres humanos. Para uns, ela é um templo sagrado, para outros, é um lugar trivial e sem apego. As casas espelham os moradores e suas formas de estar no mundo. Existem casas que são apenas réplicas de outras, e aquelas autorais e criativas. Existem aquelas generosas para com quem entra e aquelas que mantêm-se trancadas, como existem aquelas que se enfeitam para serem vistas e aquelas que são belas justamente por não quererem ser, como as pessoas. As casas são seres vivos.

J.P: Quais foram as casas que mais inspiraram você ao longo desses anos de programas?
AR: Foi gravando o programa ‘Caminho Zen’, no Japão. As casas tradicionais japonesas me marcaram muito. Nelas, a suavidade cromática e o equilíbrio da entrada de luminosidade complementam um ambiente sem ornamentos supérfluos. Visitar essas casas, tendo lido o livro ‘Elogio da Sombra’, de Jun’Ichirô Tanizaki, foi uma inspiração e uma influência marcante na maneira como vivo e também na minha maneira de olhar para as casas nos meus programas.