07.07.2015  /  9:07

A síndrome de burnout: quando o estresse queima toda e qualquer energia

||Créditos: Ilustração Pedro Ganzaroli
||Créditos: Ilustração Pedro Ganzaroli

Que o estresse faz parte da vida, não se discute. O problema é quando ele drena as energias e leva ao esgotamento físico, mental e emocional. Com vocês, a síndrome de burnout

Por Cármen Guaresemin para a revista PODER de junho

Já não é de hoje que vestir a camisa da empresa é quase atribuição do cargo. E isso vale para qualquer nível hierárquico – do fundador da companhia, por motivos óbvios, à secretária, passando pela copeira e o office boy. Quem não pensa e trabalha com “cabeça de dono” corre o risco de ser expulso do jogo. E ele é bruto: ter hora para chegar, mas não necessariamente para sair; acumular funções; ver aumentar a cobrança por resultados;  sentir-se preterido em uma promoção e por aí afora.  Estresse à vista ? Sim e o esgotamento físico, mental e emocional pode atingir níveis alarmantes e levar ao que os médicos chamam de síndrome de burnout ou do esgotamento profissional.

Descrita pela primeira vez em 1974, pelo psicólogo teuto-americano Herbert Freudenberger, a inspiração para o nome  veio do título do romance “A Burnt-Out Case”, do escritor inglês Graham Greene. Na época, Freudenberger notou o desgaste físico e emocional dos profissionais que trabalhavam com dependentes químicos. A síndrome de burnout é caracterizada por transtornos físicos e mentais relacionados ao trabalho e se manifesta principalmente naqueles que exercem funções em que o contato com outras pessoas é direto e intenso. “Estamos falando de gente competente, entusiasmada com o que faz, que tem um alto nível de expectativa em relação ao próprio desempenho e que, por isso mesmo, não consegue lidar com a frustração e os limites da realidade. Digo que há os que trabalham como se tocassem flauta e os que parecem carregar um piano de cauda com um elefante em cima. Os últimos são as maiores vítimas”, explica Alexandrina Meleiro,  da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e da Associação Brasileira de Psiquiatria.

A médica diz que a síndrome se traduz por um sentimento de exaustão e decepção extremo com a carreira, situação que contamina a vida pessoal e familiar e pode até levar ao suicídio. A gaúcha Ana Maria Rossi, doutora em psicologia clínica e comunicação verbal e presidente da filial brasileira da International Stress Management Association (Isma), enumera três gatilhos: falta de reconhecimento; sentimento de injustiça ao ser preterido em uma promoção, por exemplo; violação, quando o profissional age contra seus valores e, em uma situação hipotética, mente sobre as qualidades de um produto para bater as metas de venda.

PISTAS FALSAS

A síndrome é mais frequente em profissionais da área da saúde, professores, policiais, bombeiros, oficiais de Justiça, advogados, executivos, arquitetos e jornalistas, entre outros. E as mulheres são mais atingidas – em um grupo de mil pessoas do mesmo gênero, 540 mulheres sofrem de burnout; entre os homens, esse número cai para 460 –, segundo artigo publicado, em fevereiro deste ano, no jornal “The New York Times”. Os autores, Sheryl Sandberg, diretora do Facebook, e Adam Grant, professor de administração da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, levantaram o dado da análise de cerca de 200 estudos sobre diferenças de gênero e burnout realizados em 15 países. Uma das explicações é a expectativa que as mulheres realizem não somente suas funções, mas também os serviços, digamos, “domésticos” da empresa – coisas como atender telefone, tomar notas, organizar festas etc. Segundo eles, quando um homem não se prontifica para ajudar em alguma dessas atividades é porque está ocupado. No caso delas, a recusa é encarada como egoísmo.

Outro fator preocupante: o burnout é de difícil diagnóstico e não raro é confundido com depressão e síndrome do pânico, o que acaba atrasando o tratamento correto. “O ideal é que o diagnóstico seja feito por um profissional da área, pois existem testes específicos para avaliar a intensidade do estresse”, explica Eliana Torrezan, diretora do Centro Psicológico de Controle do Stress e professora do Instituto Psicológico Marilda Lipp em São Paulo. Eliana frisa que, além de psicoterapia, o tratamento pode incluir o uso de medicamentos como antidepressivos, por exemplo. E alerta: é comum que pessoas submetidas a altos níveis de estresse se envolvam com álcool e drogas por acreditar que essas substâncias trazem o relaxamento que tanto precisam.

Os especialistas lembram também que existe o chamado estresse ocupacional, mas esse não impede que a pessoa se organize e continue atuando com eficiência. É o que acontece em uma promoção, mudança de empresa ou quando se ganha novas responsabilidades. Já na síndrome de burnout, a pessoa excede seus limites e simplesmente para de funcionar como deveria.  Entre os problemas de saúde que mais acometem os trabalhadores, a síndrome de burnout é uma das principais. E isso, claro, acarreta custos ao empregador, pois o funcionário fica afastado, às vezes, por longos períodos. “No Isma não temos estatísticas por gênero. Mas a faixa etária mais atingida está entre os 35 e os 40 anos, justamente quando as demandas profissionais costumam ser maiores”, afirma Ana Maria, que acrescenta: “Em uma pesquisa que fizemos entre 2013 e 2014 com mil pessoas na faixa de 20 a 60 anos, 30% tinham a síndrome e 70%, algum tipo de estresse”.

Para se curar, o primeiro passo é se afastar do trabalho. Pela legislação atual, portadores de burnout têm direito à licença médica e, em casos considerados graves, até à aposentadoria por invalidez. A psicóloga Eliane Torrezan alerta: “É preciso alterar o estilo de vida, pois, com a síndrome, o lazer, a prática de atividades físicas e a alimentação ficam comprometidos. É necessário adotar novos hábitos e questionar-se sobre os próprios limites de forma realista”. A psicóloga lembra também que é comum a pessoa tirar férias, acreditando que isso pode solucionar o problema. Mas basta pisar na empresa novamente para sentir que está exatamente no mesmo ponto de antes. “A prática regular de exercícios físicos é fundamental, pois ajuda na liberação de substâncias ligadas ao bem-estar. Ter hobbies e vida social também. É preciso reservar pelo menos uma hora por semana para si”, ensina a psicóloga.

||Créditos: Ilustração Pedro Ganzaroli
||Créditos: Ilustração Pedro Ganzaroli

SEM LIMITES

Aos 36 anos, Amalia Sina já era presidente da Walita e comandava 22 países na América Latina como vice-presidente sênior da Philips Electronics. Foi quando descobriu os primeiros sinais de que algo não ia bem. “Altos executivos cumprem vários e vários papéis, buscando a perfeição. Há excesso de trabalho e a pessoa se torna workaholic. Executa muito, depende do que outros fazem e quer sempre entregar mais e mais. Acho que o fato de ser mais acelerada que a maioria das pessoas contribuiu para o aparecimento do problema”, conta.

Ao contrário de muitos profissionais, ela não se afastou do cargo, mas admite que, para melhorar, precisou dar uma guinada em sua vida: “Poderia ter um infarto a qualquer momento, perderia minha família, meu filho. Percebi que precisava me esvaziar. Eu corria cinco vezes por semana e competia em maratonas e na São Silvestre, mas até isso me estressava. Parei de correr e comecei a fazer musculação. Isso me deixou mais concentrada, me deu mais estrutura física e até melhorou meu sono”. Amalia, que hoje tem 50 anos, agora é dona de uma empresa de cosméticos, fotógrafa e dá palestras sobre vários temas. “Poderia ter abandonado tudo antes? Sim, mas eu seria um clichê. O alcoólatra só sabe que se curou quando vê a bebida, mas não a quer mais. Eu continuei na área por muito tempo! Estive à frente de três empresas diferentes. Era muita pressão”, conta ela, que também foi presidente da Philip Morris no Brasil.

PÉ NO FREIO

Os casos de burnout têm aumentado tanto que o Spa Lapinha, localizado na cidade de Lapa, no Paraná, desenvolveu um programa especialmente para isso. “Algumas pessoas chegam aqui tão cansadas que só querem dormir, e fazem isso por alguns dias”, afirma o médico e nutricionista Daniel Boarim, diretor clínico do Lapinha.

Uma avaliação médica determina se o paciente sofre de depressão, ansiedade ou de alguma doença como diabetes, por exemplo.  “Nossa visão é holística e investimos no tripé alimentação saudável, atividade física e gestão do estresse”, afirma o médico.

Os pacientes também passam por um detox.  “A maioria não come direito e isso, além do estresse em si, tem muito impacto sobre a saúde”, afirma Boarim. Como a ordem é desacelerar, os quartos não têm TV nem Wi-Fi e até os aromas dos ambientes são pensados para proporcionar bem-estar. Entre as terapias disponíveis, 20 tipos de massagem, musicoterapia, além de acupuntura, hidroterapia, shiatsu capilar, meditação e orações para quem for religioso.

O ideal é que a estadia dure três semanas ou dez dias, no mínimo. Na saída, o paciente leva um “plano de metas”. “De nada adianta sair daqui desacelerado e sem olheiras, sentindo-se bem e saudável, e voltar ao ritmo antigo”, finaliza Boarim.

FORA DE CONTROLE

Os sintomas mais frequentes da síndrome de burnout:

Corpo

– fadiga constante
– dor de cabeça
– aumento da frequência cardíaca mesmo em repouso
– distúrbios alimentares
– alterações do sono
– dores musculares
– alterações de peso
– perda da memória
– baixa libido

Mente
– dificuldade de concentração
– humor depressivo
– ansiedade
– distanciamento emocional dos fatos  (a pessoa fica apática, entra no piloto automático)
– insatisfação com a atividade atual e a carreira
– ceticismo extremo