A PODER invadiu a mansão Gameland, no Rio, onde vivem cinco youtubers especializados em games

08.06.2019  /  9:00

Habitada por youtubers especializados em games, mansão Gameland, no Rio, joga luz sobre um mercado que hoje já vale mais que as indústrias da música e do cinema somadas

Por Denise Meira do Amaral

“Já deixei muita gente lá. A casa é conhecida por aqui”, disse o motorista de táxi ao saber do destino final da minha corrida, a Gameland. Construída em um terreno de 1.500 metros quadrados, a mansão em um condomínio da Barra da Tijuca, no Rio, impressiona: são seis suítes customizadas, piscina, academia de ginástica privativa, mesas de bilhar, pingue-pongue e pebolim e jogos eletrônicos em todos os cômodos. Típico sonho de consumo de muitos jovens, a casa é realidade concreta para cinco youtubers especializados em games, todos de idade entre 20 e 30 anos.

Gabriel Araújo, Bruno Bittencourt, Carolina Azeredo, Pedro Gelli e Douglas Mesquita e os cachorrinhos Benji, Milk e Tantam são os atuais integrantes da Gameland, casa originalmente montada para um reality show da Final Level, a maior plataforma de entretenimento gamer do país, gerenciada por empresas que têm no comando, entre outros, um ex-executivo da TV Globo e os irmãos Felipe e Luccas Neto – celebridades incontestes do YouTube. “A ideia era criar um ambiente que fosse aspiracional e inspiracional para os fãs de games. Reunir os maiores influenciadores do mercado em uma mansão temática com os gostos de cada um deles”, explica Fernanda Lobão, CEO da Final Level.

A casa foi também pensada para servir como cenário para os vídeos dos moradores. “É quase como um Projac vivo. Até a cozinha pode servir de ambiente para uma live”, diz Gabriela Clayton, head de marketing da plataforma. Os gamers gravam conteúdos para os próprios canais, e, de duas a três vezes por semana, para a Final Level.

Apesar de tudo parecer uma grande brincadeira, a Gameland é um negócio e tanto. Por trás dos vídeos engraçadinhos vistos mais de 200 milhões de vezes, a casa conta com uma equipe de mais de 30 pessoas, entre cozinheira, produtores, roteiristas e diretores. “É um projeto pro YouTube, mas com estafe e estrutura de TV ou cinema. Isso é muito novo”, diz Gabriela.

Na casa, todos os moradores recebem um salário fixo, além de poderem comercializar publicidade para seus canais, desde que as marcas não concorram com os patrocinadores da Gameland, casos da Subway, da Smart Fit, que montou a academia de ginástica, da Oi e da Reserva, que recheou os closets das estrelas da casa. Estima-se que o setor de games no mundo já movimente US$ 150 bilhões, mais do que as indústrias da música e do cinema juntos. A América Latina é o segundo mercado que mais cresce, ficando atrás apenas do Sudeste Asiático. Aqui, um em cada três brasileiros é um gamer em potencial. Basta ter um Candy Crush no smartphone.

“A indústria de games tem muitas vertentes, há as competições de e-sport envolvendo marcas e pa trocínios, as transações milionárias como a venda da plataforma de streaming Twitch para a Amazon. Os games conseguem se expandir de uma forma muito rápida, sempre tem novos formatos aparecendo”, diz Bruno Bittencourt, 24 anos, primeiro morador da casa e dono do canal PlayHard, que é também seu apelido, com mais de 8 milhões de inscritos. Seu quarto na Gameland hoje é maior que o apartamento inteiro em que ele vivia na época de faculdade, quando estudava ciências da computação na Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais.

A atual ocupação da casa reflete de alguma forma o universo gamer, em que o predomínio masculino é notório. Entre os moradores da Gameland há apenas uma mulher, Carolina Azeredo, 25 anos, a funBABE. Para ela, é difícil ser mulher nesse mercado. “Nos chats sempre vem alguém dando um ‘oi, meu amor’, que é um machismo mais leve, mas também aparece gente que diz ‘vai lavar uma louça’. Muitos homens não aceitam que uma mulher seja líder. É uma batalha diária”, diz.

A percepção de que o jogo cria uma legião de viciados e não gera qualquer benefício físico ou cognitivo para o praticante vai ficando no passado. A própria presença da Smart Fit na Gameland ajuda a quebrar o estereótipo de que gamers são pessoas sedentárias e isoladas. Todos os cinco integrantes da casa se exercitam regularmente. “Quando eu jogava League of Legends, minha mãe dizia que tudo que eu fazia era perder tempo. Hoje o jogo tem uma das maiores premiações do mundo. É preciso entender os games como um entretenimento como qualquer outro. Antes ser nerd era ruim, hoje dá orgulho”, diz Gabriel.

NOTRE-DAME
Um dos games mais populares entre pré-adolescentes e crianças, o Minecraft, hoje ajuda a espalhar – e resgatar – conhecimento. A Unesco e a Microsoft lançaram juntos o projeto History Blocks, que usa o jogo Minecraft: Education Edition para resgatar imagens de diversos monumentos destruídos por guerras no Oriente Médio. O jogo já foi usado em escolas de mais de 30 países, Brasil incluído. Já o jogo Assassin’s Creed Unity ganhou certa notoriedade recentemente, com o incêndio da Catedral de Notre-Dame, em Paris. É que a Notre-Dame virtual do jogo é tão fiel à original que chegou a ser cogitada como modelo para a reconstrução do que se perdeu no acidente.