20.01.2016  /  11:08

A história do produtor de teatro assediado aos 11 anos, pai aos 13 e gay aos 17

Davi foi pai aos 13 anos
||Créditos: Álvaro Fráguas/Revista J.P

Assediado aos 11 anos pela professora de educação física, o produtor de teatro Davi Castro teve uma iniciação sexual atribulada. Pai aos 13, ele foi emancipado aos 17 para se casar com ela. Menos de um mês depois, conheceu um rapaz na portaria do prédio e se descobriu homossexual

Muito antes da #meuprimeiroassedio varrer as redes sociais com histórias tenebrosas de aliciamento sexual, em geral vividas por mulheres, o produtor de teatro mineiro Davi Castro, 33 anos, resolveu escrever um livro em que conta em detalhes como foi seduzido aos 11 anos por uma professora de 24. Os relatos de mulheres assediadas postados recentemente no Facebook e no Twitter foram deflagrados depois que a menina Valentina Schulz, 12, concorrente da versão júnior do programa MasterChef, da Band, tornou-se alvo de comentários de pedófilos na internet. No caso de Davi, a iniciativa de falar sobre o assunto não partiu de nenhuma reação em cadeia, tampouco ele se juntou a algum movimento coletivo para desabafar. Na época do lançamento de “Tia Rafaela” (Editora Panda Books), em 2010, o produtor deu entrevistas sem pedir para esconderem seu rosto, distorcerem sua voz ou mudarem seu nome. Davi decidiu escrever o livro para, segundo ele, “ajudar as famílias que enfrentam o mesmo problema”. Agora, está finalizando outro, em que conta as consequências do aliciamento em sua vida adulta, as eventuais sequelas e a “transformação delas em arte” – vai chamar-se “A Grande Viagem”. Não é um depoimento ressentido, como se poderia supor. Ao contrário: “Agradeço a tudo o que me ocorreu, pela pessoa que eu sou hoje”, diz Davi, que se submeteu durante 15 anos a sessões de psicoterapia.

Tudo começou na segunda série primária, quando a professora de educação física se apresentou. No livro de 176 páginas, letras grandes e leitura fácil, ele lembra que se sentiu bastante atraído. “Com seu jeitão de menina, shortinho de lycra e camiseta branca do Piu Piu, ela tinha um corpo de chamar a atenção. ‘Meu nome é Rafaela, mas pode me chama de Rafa’, disse.” Um tempo depois, tia Rafaela o consolou quando ele terminou com a namoradinha. Logo, o relacionamento dos dois tornou-se íntimo. O produtor descreve em detalhes o aliciamento, as carícias, o ciúme dela pelos coleguinhas dele, e o dele pelo marido dela. Davi conta no livro que os dois faziam sexo “incansavelmente” na cama do casal. “Era comum que ela alugasse filmes pornôs. Dizia que se excitava ao vê-los do meu lado. Transávamos e comíamos um lanche para repor as energias. Entre uma tarefa escolar e outra, rolava muito sexo.”

Davi aos 11 anos e hoje, aos 33||Créditos: Arquivo Pessoal/Álvaro Fráguas/Revista J.P
Davi aos 11 anos e hoje, aos 33||Créditos: Arquivo Pessoal/Álvaro Fráguas/Revista J.P

COITADINHO, NÃO!

Digamos que as circunstâncias conspiraram para o envolvimento dos dois. De família pobre, desestruturada, Davi conta que estava dois anos atrasado na escola e se sentiu seduzido pelo estilo de vida da professora, que morava em um bairro de classe média de Belo Horizonte e podia oferecer uma série de mimos. Ele reconhece que a sedução era mútua. “A diferença é que ela era 13 anos mais velha. Caberia ao adulto perceber que algo ali não estava correto.” Não foi difícil para a professora  convencer o aluno a mudar-se para sua casa. O que precipitou a mudança, que ocorreu pouco depois que os dois se conheceram, foi um telefonema que a mãe dele recebeu de Florianópolis, com uma oferta de emprego. Ela resolveu aceitar. Davi foi morar com o pai, mas não havia termos de comparação entre a casa dele e a da professora. “Meu pai vivia em um quarto minúsculo, sem fogão, geladeira, mesa ou cadeira. O banheiro era comunitário. Aquilo nem era uma casa”, escreveu ele. Ao aceitar viver com tia Rafaela, ele se submeteu às condições impostas por ela. Pagou um preço, mas não gosta que o tratem como vítima.  “Na época do lançamento do livro, muitos jornalistas queriam criar a imagem do ‘coitadinho que foi abusado’. Se tem uma coisa que eu nunca fui é coitadinho. Tive uma vida difícil, Maria teve, João teve, Pedro teve, mas hoje eu sou um homem que superou os traumas, passou adiante.”

Por tudo o que viveu, Davi acredita que o fato de ter sido um garoto aliciado por uma mulher, e não uma garota por um homem, levou a maioria machista a achar a história “menos grave”. Conta que seu pai falava com orgulho das temporadas que ele passava com a “tia”. Ele mesmo afirma que se sentia “mais homem” entre os amigos. Por sua vez, a professora era casada,  mas  sempre podia alegar que estava dando asilo a um aluno cuja família não tinha condições de bancar. Um dia, porém, o caso dos dois saiu do âmbito doméstico – e do controle de tia Rafaela. Foi quando ela descobriu que estava grávida. Dele. Num primeiro momento, a informação foi mantida entre eles. Mas no dia em que o bebê nasceu, Davi quis assistir ao parto e Rafaela não deixou. “Como eu era muito mimado (por ela), fui desabafar com minha irmã. Acabei dizendo que o filho era meu. Ela contou para minha mãe.” A mãe reagiu mal. “Como assim?”, perguntou indignada. “Isso é atitude de gente doente. Se for mesmo verdade, é pedofilia.” A história dos dois foi parar na primeira página dos jornais. “Professora é acusada de abuso sexual”; “Mestra confessa sua paixão”. A tradicional sociedade mineira não acreditava no que lia. De acordo com o artigo 217 do Código Penal, a prática sexual de adultos com pessoas menores de 14 anos constitui “estupro de vulnerável”. O infrator pode pegar de oito a 15 anos de prisão. Mas a professora não chegou a ser indiciada, segundo Davi, “porque é filha de um juiz muito influente”. Massacrada pela opinião pública, Rafaela saiu de circulação.

A TRÊS?

Pai aos 13 anos, Davi foi emancipado aos 17 para se casar com a professora. Ela, que já tinha outro filho de um 1 ano e seis meses, divorciou-se do marido para assumir a relação com o garoto. Porém, menos de um mês depois, a história deles ganhou mais um complicador. Davi descobriu-se homossexual. Começou a se relacionar com um rapaz que conhecera na portaria do prédio – e deixou tia Rafaela. Transtornada de ciúmes, inconformada com a perda, a professora tentou de tudo para atraí-lo de volta. “No desespero, ela propôs até que eu voltasse para casa, junto com o meu namorado. Se dispôs a levar uma relação a três.” Ao mesmo tempo em que tentava lidar com sua orientação sexual, Davi continuava a frequentar a casa da ex-mulher para ver o filho. Ocorre que Rafaela era muito dominadora, e tornou-se cada vez mais obcecada por ele. “Eu colocava um videogame para brincar com o meu filho, e não conseguia, porque ela queria atenção.” A princípio, Davi quis pleitear na Justiça o reconhecimento de paternidade, mas os próprios advogados o aconselharam a protelar o processo. Ele reconhece que não teve, na ocasião, condições de lidar com as novas descobertas no campo afetivo-sexual e ainda enfrentar a obsessão da mulher. “Confesso que não consegui dar a atenção que deveria ao meu filho. Fiquei distante dos 7 anos dele aos 14.” Pouco depois desse período, ele entrou com o processo. Às vésperas de lançar o livro, o menino o chamou para comer uma pizza. “Percebi que era uma manobra da mãe dele para que eu desistisse de pleitear a paternidade na Justiça.”

O reconhecimento saiu há três anos. Davi garante que a relação dele com o garoto, hoje com 20 anos, ficou bem mais próxima. “Ele faz direito, mas acompanha o meu trabalho. Como eu também sou ator, diz que gostaria de me ver encenando um espetáculo”, conta o produtor, que atualmente está solteiro. A reportagem pediu a ele que intermediasse uma conversa com o filho, a quem ele não cita nominalmente, mas não houve jeito. Nem mesmo off the record. Foto? “Não, não. Não quero expor ele.” A identidade da professora, que voltou a morar com o ex-marido, também foi preservada no livro. Ela tampouco fala sobre o assunto.

Finalmente, uma informação importante. Apesar de a história com tia Rafaela ser a mais marcante de sua vida, Davi não estaria sendo honesto se a contasse na #meuprimeiroassédio, pelo simples fato de que, antes da professora, ele já havia sofrido abuso sexual. Um vizinho o assediou quando ele tinha 5 anos. O curioso é que, apesar de não titubear quando se refere ao caso com a professora como “agressivo”, pelo fato de ela ser extremamente dominadora, Davi coloca o vizinho em uma posição mais sórdida: “Ali, sim, foi abuso. Eu era uma criança”, acredita. Diante de tantas possibilidades, sobram perguntas.